terça-feira, 15 de março de 2011

O MENSAGEIRO



A inocência do mensageiro em "The go-between"(1970) de Joseph Losey. O texto é uma adaptação de Pinter do romance de L. P. Hartley e releva o momento em que o mensageiro (Mercúrio, como lhe chama Hugh Trimingham) recusa essa inocência. No fim da época victoriana, Leo, um rapaz de 12 anos  em férias campestres junto duma família aristocrata, quer saber o que realmente significam os bilhetes trocados entre Lady Trimingham, prometida de Hugh, e o rendeiro Ted Burgess. Qual é o segredo, "para lá do beijo", aquilo a que Ted, reconhecendo a falta de propriedade, chama de "spoony" (lamechice). Esse é o ponto crítico que anuncia a iminente desqualificação para o papel do mensageiro. Aquilo, precisamente, que ele  quer saber é o que impediria os amantes, depois, de recorrerem a ele. Como se o amor não suportasse a perda das ilusōes duma criança. 

Mas Losey dá um outro desfecho ao filme.  O velho senhor que visita o Hall, umas décadas depois,  foi ferido por essa abordagem do amor e nunca conheceu uma mulher. Não sabemos se o que o traz ali é o apelo da infância e a experiência que é motivo da sua "regressão" ou, naquele contexto marcadamente classista, a ilusão dum corredor entre os antagonismos sociais que a figura de Mercúrio, servindo deuses e mortais sem partilhar as suas emoções, poderia representar.

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