terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O ROSTO DO FBI



A função determina o órgão ( e o contrário também é verdade, até certo ponto). Era preciso um homem afectivamente disfuncional, eriçado contra o seu próprio corpo e preso de corpo e alma na órbita materna, para organizar e centralizar  a investigação criminal americana, com a  paixão maníaca necessária.

É claro que Hoover ajudou a pôr de pé uma outra América, a do Estado da superpotência, no que foi muito ajudado por todo o tipo de extremismos e de desordem, em que via, sobretudo, o espírito anti-americano.

Mas o filme de Eastwood é muito mais do que a história do FBI. Sem a íntima fraqueza do homem que esteve à frente dos destinos da organização durante várias décadas e atravessou sucessivos mandatos presidenciais, sem o caso de amor frustrado, mas vivido no próprio impasse, com o seu "braço direito" Clyde Olson, não teríamos o seu dinamismo essencial.

DiCaprio passou por uma metamorfose impressionante para nos dar o sabor último da frustração e da derrota, no momento mesmo em que as homenagens fazem dele passado, e o novo empossado, conhecido por Tricky Dicky, o considera,  para os próximos, um "looser" e um empecilho aos seus planos de dominação.

Em entrevista, o actor que encarna a personagem, diz que Hoover foi "um bom americano". Com todos os seus defeitos, que Clyde é o único a confrontar, o rosto do FBI durante 36 anos é bem a imagem dum pobre homem apanhado na voragem do poder. E a sua única "tábua de salvação", a sua oportunidade de redenção é aquele amor inconfessado, perseguido pela maldição materna.

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