domingo, 17 de julho de 2011

UM SACRIFÍCIO ANTIGO



“Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo”

“A colher na boca”  (Herberto Helder)


É essa separação do corpo e da alma que é difícil de conceber. Talvez mais difícil ainda do que a sua união, eterno problema da filosofia antiga.

O pensamento radical de Descartes levou-o a imaginar uma glândula, coisa estritamente física, para fazer a ligação. Hoje, podemos troçar da ideia, mas esse foi o início duma busca que não mudou ainda de método nem de direcção.

A teoria da informação, é certo, leva-nos a conceber o espírito como uma espécie de rede ( e talvez tenhamos que integrar na sua ideia os paradoxos quânticos), mas tudo isso está para a física moderna, como a glândula pineal estava para a mecânica do século XVII.

Nem o símbolo cristão que faz do corpo do crente um templo vai tão longe quanto a imagem do poeta de um corpo puro e sem alma. E, através dessa imagem, é o mistério do próprio universo que se incarna. Qualquer que seja o nosso comportamento e os mapas que nos guiam na exploração do corpo, ele é-nos tão próximo como uma estrela.

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