sábado, 30 de outubro de 2010

AS LIBERDADES

  


“Se os Gregos não tinham ideia das liberdades, não professavam menos que a cidade deve proceder pela via geral da lei, que se impõe a todos, governados e governantes; como o cidadão moderno, o cidadão antigo dispunha, aliás, de uma esfera de actividades livres e independentes do Estado, e sobre certos pontos (justamente em matéria de impostos), a sua liberdade ia bem para lá daquilo que o liberal mais decidido ousaria sonhar nos nossos dias. A única diferença de princípio é que as liberdades modernas são expressamente reconhecidas pela lei, enquanto que as liberdades antigas se impunham por si próprias. Os Gregos tinham um direito, mas não uma teoria do direito.”

“Le pain et le cirque” (Paul Veyne)


Por que haveriam os Gregos de ter as liberdades na lei e de desenvolver uma teoria do direito? Eles não tiveram que se confrontar “contra uma monarquia absoluta ou contra um Igreja”. O próprio duma democracia artificial (como a do Iraque depois da intervenção americana) é não ter tido raízes no terreno, nem um desenvolvimento adequado às circunstâncias.

Mas é um erro, sem dúvida, pretender que o “enxerto” não se modifica em contacto com a cultura a que é imposto. Assim se passou com as conquistas de Alexandre (não se pode dizer que Alexandria seja uma cidade grega, nem no ambiente do “Quarteto” de Durrell) e com o marxismo na Rússia ou na China.

As liberdades “espontâneas” de que gozavam os cidadãos na Grécia correspondem a uma espécie de idade de oiro. Como antes do pecado, não tinham ideia das liberdades, limitando-se a vivê-las.

Nós, pelo contrário, sabemos bem o que são (embora esqueçamos frequentemente a sua importância), como são frágeis e como dependem das instituições. Enfim, como é fácil tornarem-se uma mera ideia.

2 comentários:

Anónimo disse...

Embora as ideias contenham a capacidade de "ressuscitar".
Uma ideia pode erguer-se do túmulo com um vigor e jovialidade semelhantes à novidade.
A geografia e a circunstância histórica é que pode variar, não?
Maria Helena

José Ames disse...

Como a semente depois de enterrada.