sábado, 10 de janeiro de 2009

MOMENTOS CRÍTICOS



"Germania" de Publius Cornelius Tacitus


"Tácito, nalgumas páginas imortais que descrevem uma sedição militar, soube perfeitamente analisar a coisa. 'O principal sinal dum movimento profundo, impossível de acalmar, é que eles não estavam disseminados nem eram manobrados por alguns, mas juntos se inflamavam, juntos se calavam, com uma tal unanimidade e uma tal firmeza que se teria acreditado que agissem sob comando.'"

"Méditations sur l'obéissance et la liberté" (Simone Weil)


Esses momentos, como diz Simone, não podem durar, porque essa unanimidade tem sempre por efeito "suspender toda a acção e deter o curso quotidiano da vida" e depois da "emoção viva e geral" é preciso voltar às tarefas diárias.

Na mitologia da Revolução entra a ideia ingénua de um prolongamento de tais momentos, em que o poder é isolado e o "povo" impõe a sua justiça, nada voltando a ser como dantes. De facto, esses são momentos de crise, em que a ordem "muda de pé" sem que nada de essencial se altere.

De resto, nem todos os movimentos espontâneos deste tipo são contra a opressão e podem directa ou indirectamente provocar a injustiça como se viu tantas vezes ao longo da história.

Simone conclui que a ordem social "embora necessária, é, de qualquer maneira, essencialmente má." E, segundo ela, não se pode censurar os que tentam miná-la quando os oprime, nem os que a defendem podem ser vistos "como formando uma conjura contra o bem geral."

A separação que Platão fazia entre o Bem e a Necessidade continua a ser pertinente. Tudo o que cai sobre a lei da necessidade não é justo nem injusto. Alguma ordem há-de haver e por isso muitos dos amantes da liberdade acabarão trucidados.

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