domingo, 20 de junho de 2010

ESCULÁPIO


Esculápio


"Cada um dos meus dias e também cada uma das minhas noites teria a sua história, se se quisesse escrever em detalhe o que me acontecia ou contar qual era a providência do deus, que fazia as suas prescrições tanto estando abertamente presente, quanto me enviando um sonho. Pelo menos quando me era possível encontrar o sono; mas isso era raro, por causa do meu corpo em tempestade. Eis as considerações que me fizeram tomar o partido de tudo remeter ao deus como a um médico, para fazer absolutamente tudo o que ele quisesse. Agora vou indicar-vos qual era o estado do meu baixo-ventre; farei o balanço dia a dia."

Aelius Aristide (d.C. 117 - 181) (in "L´élégie érotique romaine", de Paul Veyne)


Há todo um tom confidencial nesta homenagem a Esculápio que livrou o grande orador, do tempo de Marco Aurélio, dos seus males intestinais. Como observa Veyne, não esperávamos dum clássico greco-latino este novo objecto da literatura, nem mais nem menos, o ego do seu autor.

Em vez de conceitos e ideias, as tripas de Aristide aparecem, casualmente, como um tema não despiciendo para a atenção do leitor. Isto é, de facto, tão surpreendente como, por exemplo, se o expressionismo pudesse ser antecipado pela escultura grega. Abandona-se o cânone, mas não em todo o lado, nem todo duma vez.

O culto de Esculápio, pelo seu lado, sobrevive ainda hoje no doente que tem de se entregar completamente nas mãos do seu médico, como se de um deus se tratasse. E suponho que em todo o moderno esculápio exista a nostalgia do perfeito paciente.

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