sexta-feira, 13 de abril de 2007

AMOR QUE NÃO PERDOA


"Medo" (1954-Roberto Rossellini)

Enquanto o marido está na prisão, Irene (Ingrid Bergman) envolve-se com Enrico.

Depois, perseguida pelo remorso, tenta abandonar o amante, mas sentindo-se igualmente culpada por isso.

É nesta angústia que lhe aparece a Sra. Schultze, que Enrico trocou por Irene, perseguindo-a com a chantagem.

À beira de perder a cabeça, Irene descobre que a chantagista é um instrumento do seu próprio marido que assim a pretendia castigar (vemos um exemplo do seu "rigor", quando pune os seus filhos por uma falta insignificante).

O segundo título do filme é "Non credo più all'amore".

No fundo, o que está em causa neste thriller psicológico, baseado num livro de Stephan Zweig, é a incapacidade de perdoar. É esse defeito de generosidade, nos homens que conhece, que não deixa qualquer esperança a Irene. No bilhete que deixou quando pensava no suicídio, pedia perdão e perdoava.

O princípio de uma justiça formal e segundo a letra que inspira a acção do marido condena definitivamente o amor.


"Azulejo" (José Ames)

A REVOLUÇÃO PAPAL


Demetrio, duque de Croacia y Dalmacia, recibido el título real
de un legado de Gregorio VII (1073-1085), promete realizar el óbolo de San Pedro


"O acontecimento sócio-cultural mais importante que se desenrolou no fim do século XI na Europa é usualmente chamado "Reforma Gregoriana". Rompendo com esta tendência, um historiador americano, Harold J. Borman, propôs que se chamasse a este acontecimento "Revolução Papal""

"O que é o Ocidente?" (Philippe Nemo)


O acontecimento, que envolveu Gregório VII e outros papas, antes e depois dele, foi uma reacção à perda de influência da Igreja pela fragmentação do poder no feudalismo, quando passou a reivindicar o poder mesmo sobre os reinos seculares.

"Gregório pôs este programa em execução com uma série de medidas espectaculares. Combateu a simonia (corrupção na nomeação dos cargos eclesiásticos), o nicolaísmo (vida marital dos padres) e as investiduras laicas. (...) Decidiu o celibato dos padres: o clero constituiu assim um corpo social independente, cujas riquezas já não poderiam ser dispersas e que ficaria inteiramente disponível para a sua tarefa pastoral." (ibidem)

Conseguiu-se " "recristianizar", quer dizer, polir e humanizar, o duro direito romano e "jurisdicizar", isto é, tornar mais prática, a invivível moral cristã. O efeito mais importante desta síntese foi o de promover o direito enquanto tal", donde emergiu "pouco a pouco o modelo do "Estado de direito" que estava destinado na Europa ao futuro que conhecemos." (ibidem)

As consequências do reforço do poder papal nos primeiros séculos do segundo milénio não serviram, pois, apenas os interesses da Igreja. Podemos ver em acção nesse esforço de unificação do poder uma racionalidade que deita por terra o mito do obscurantismo da Idade Média.

O nosso erro é sempre o de julgar o passado com as categorias do presente e esquecemos com a mesma facilidade que a luta de contrários nunca designa um princípio vencedor sem conservar o princípio vencido, às vezes como uma espada de Dâmocles suspensa.

Afirmações contraditórias podem sempre, por algum ângulo, ser verdadeiras. Por exemplo se se disser que a Igreja, nesse tempo, favoreceu o progresso da humanidade e que, simultaneamente, criou, com a Inquisição, o modelo da opressão dos espíritos.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

O ESQUELETO



Só tenho uma palavra para definir este processo do canudo do primeiro-ministro: enorme.

Não vemos um político ter que se defender das promessas não cumpridas, nem dos erros ou faltas da sua administração. Nem o vemos acusado de ofender os costumes ou de ter contribuído para a dessacralização de algum luso "Salão Oval".

Acusam no antigo aluno o actual governante, com uma tenacidade admirável, que certamente não vai descansar enquanto não arrancar um esqueleto do armário. Nem que seja de plástico, como diz o O'Neil!

Que autoridade, que superioridade moral é esta que enche a boca destes paladinos da pureza dos títulos, senão as que lhes vêm duma cultura acaciana que Eça, aparentemente, não zurziu o suficiente, e que não se conforma com a igualdade dos cidadãos?



(José Ames)

O SINTOMA E A CAUSA



"Tucídides coloca o problema de um ponto de vista completamente novo. Distingue entre as razões da discórdia que acenderam a luta e a "verdadeira causa" da guerra, chegando à conclusão de que esta reside no incrível aumento do poderio de Atenas, que constituía uma ameaça para Esparta. O conceito de causa provém do vocabulário da Medicina, como deixa ver a palavra profasis que Tucídides emprega. Foi ela que pela primeira vez estabeleceu a distinção científica entre a verdadeira causa de uma enfermidade e o seu mero sintoma."

"Paidéia" (Werner Jaeger)


Entre Esparta e Atenas fizeram-se acusações mútuas sobre a responsabilidade da guerra do Peloponeso, como é comum verificar-se nestes casos. A questão de saber, por exemplo, quem começou as hostilidades é a que mais prende as imaginações.

Ao desprezar essas questões, como simples sintomas, Tucídides não se pôde basear nas declarações de cada um dos contendores, mas fazendo "ouvidos de mercador" procurou uma causa que estivesse à altura dos sacrifícios exigidos pela guerra.

É claro, no caso da guerra de Tróia, que por detrás do rapto de Helena por Páris, os Gregos nunca deixaram de ver a vontade dos deuses.

A hipótese de Tucídides é de facto revolucionária e implica um conhecimento mínimo, não da mitologia, mas do homem, enquanto "medida de todas as coisas".

Vemos também que mais de dois mil anos depois, nos conflitos mais intrincados e violentos e que se encontram num perpétuo impasse, como é o da Palestina, a discussão se mantém sempre ao nível dos sintomas.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

POVOS DO LIVRO



"O "povo do livro", nos nossos dias, é sem contestação o Islão. A ausência geral de cultura profana, de ensino superior e de sistemas de valores científicos e técnicos confere ao Corão uma centralidade, um poder na vida quotidiana, um monopólio referencial quase obsoleto no judaísmo do fim do século XX. (Ainda aí, a acre hostilidade entre o Judeu e o Árabe não é sem paradoxos.)"

"Les logocrates" (George Stein)


Essa diferença faz com que, quando um muçulmano utiliza a tecnologia e os modernos meios de comunicação, se encontre menos vulnerável a moldar a sua vida por esses instrumentos.

Por muito logocratas e influenciados pelo que, do exterior, pode parecer uma mitologia, isso não prejudica a sua relação pragmática e realista com a técnica oriunda doutra civilização.

Eis um exemplo de que as ideias e a realidade cultural se impõem às condições materiais de existência.

É talvez devido à centralidade de que fala Stein que não se pode esperar nesses países o tipo de modernização por que passam, por exemplo, a China e a Índia.


Lisboa (José Ames)

SOL ENGANADOR


"Sol enganador" (1994-Nikita Mikhalkov)

Mitia, o "russo branco" que vendeu a alma ao NKVD, começa o filme jogando à "roleta russa" e acaba-o suicidando-se no banho como os patrícios romanos.

Pelo meio, assistimos ao que podia ser a vida no campo de algumas personagens de Tchekov, durante a sua visita à datcha do herói nacional, o coronel Kotov, que casou com a sua antiga namorada.

Mas não como no "Cerejal", em que nos sentimos tocados pela melancolia de um modo de vida que vai desaparecer, quando os novos tempos se anunciam já na figura de um filho dos moujiks que vai decidir sobre o destino das belas árvores.

Mitia não vem destruir as ilusões da sua classe. Vem como o mensageiro do diabo, sob uma aparência familiar e culturalmente cúmplice ferir o patriota sincero, o homo sovieticus, para quem o ténis era um jogo burguês e se orgulha de não saber falar francês como os antigos senhores. Vem fulminar o herói nacional, com acesso ao telefone privado do "Pai dos Povos".

O intermezzo idílico, preguiçoso e sensual que lembra a atmosfera de "Oblamov", um outro filme do cineasta, acaba num mergulho na realidade, com o soldado que tudo faria pela pátria soviética, em cujo futuro radioso antevê que todas as crianças terão os pés deslumbrantes da sua filha Nadia, espancado dentro do carro em que Mitia e os seus polícias boçais o levam para Moscovo (Kotov foi fuzilado em 1936, e só reabilitado vinte anos depois).

A imagem gigantesca de Staline erguida por um balão que surge, pouco a pouco, por detrás da colina, vemo-la com os olhos dum Kotov martirizado que naquele momento passa do sonho feliz ao pesadelo.

INTERRUPTORES



(http://www.zedpr.co.uk/wp-content/uploads)


À porta do café, quando nos despedíamos, o amigo mais velho reuniu o círculo, e com o olho brilhante perguntou-nos se tínhamos lido determinada notícia. Ele tem uma capacidade admirável para se indignar. Este “fait divers”, aparentemente na ordem natural das coisas, surge aos seus olhos como uma peça significativa no processo político. Contudo, eu não posso seguir o seu raciocínio. Não vejo como esta história possa explicar o que quer que seja. Mas ele acredita que nada disto acontece por acaso e que se trata duma deliberada estratégia. Adivinhá-la em notícias como esta e nos fragmentos de informação é um jogo que lhe dá a vantagem do ponto de vista sobre a nossa inércia e confusão.

É verdade que a esquerda tem uma opinião do capitalismo, mas é abstracta. E no fundo é um conformismo a sua ideia de que tudo é demasiado evidente. Os factos deduzem-se da essência política sem nenhum esforço da inteligência. Por isso se vê tanta gente viver como peixe na água no meio da poluição moral do pensamento e da política  e acabar por ser assimilada no seu papel de oposição escatológica, mas inerte.

Este destino é próprio de toda a religião da forma, porém, há neste caso, além disso, a ideia extremamente nociva da imanência científica que desobriga de pensar e de agir verdadeiramente. O método do nosso veterano é muito mais instrutivo, e se ele não tem o melhor ponto de partida acaba sempre por enriquecer a ideologia. Porque é ainda a essência maligna que orienta este trabalho de puzzle.

Eis um pensamento que pode ir longe e arrastar pessoas pela sua aparente certeza. Se juntarmos a isso uma natural eloquência compreender-se-á porque preciso de me retirar no mais vivo do drama e julgar a paixão estimável, mas só fúria e razão encadeada. Compreender as causas puramente humanas e fisiológicas é abrir o mundo ao nosso entendimento e perceber a verdadeira lei. Mas um homem de ideias apaixonadas deixa um sulco nesta superfície social agitada e incoerente. É um ponto de referência para quem não sabe agir, e eu vejo entusiasmo nestes impacientes companheiros, sempre demasiado prontos para simplificar o pobre texto do orador.

terça-feira, 10 de abril de 2007

AINDA SOBRE "INLAND EMPIRE"




Eu concebo que as obras de arte consumadas sejam, como uma esfera, sem ponto de abordagem para a pertinência da palavra. Que se pode dizer sobre "A Ronda", ou "A Paixão segundo S. Mateus"?

Há qualquer coisa no cinema que o torne um caso diferente?

Por exemplo, pode-se contar uma história bem ou mal. Mas nalguns casos, a história existe para ser "des-contada". Haverá um critério senão o que resulta do conjunto da obra de um autor?

Não creio que se poda dizer de uma obra pessoal que é inepta.

Com "Inland Empire", Lynch fez o mais experimental dos seus filmes, e o menos pessoal também. Mas isto, claro, não posso demonstrá-lo.

Tal como hoje se concebe a obra de arte, a partir de uma certa altura, a fronteira entre a criação e a técnica, o simples jogo, esbate-se completamente e confrontamo-nos, então, com a ética.

Um artista que "randomizasse" os pixéis da "Mona Lisa" e obtivesse assim uma composição abstracta teria criado uma obra original?

Todo o experimentalismo é bem-vindo, mas há cada vez menos a capacidade de o pensar e avaliar.

Então, o supremo juiz é a sensibilidade de cada um.

"Inland Empire" é uma estridência dentro de uma obra apaixonante.


(José Ames)

O OCIDENTE E A EVOLUÇÃO


http://www3.dfj.vd.ch/~latin/Images


"Vemos por tudo isto que a emergência da sociedade de direito e de mercado diz respeito então, directa ou indirectamente, a toda a espécie humana. Tal como a invenção do olho exerceu uma "pressão de selecção" irresistível sobre o conjunto da evolução animal, a invenção do direito e do mercado pelo Ocidente exerce hoje uma pressão de selecção sobre o conjunto da evolução da espécie."

"O que é o Ocidente?" (Philippe Nemo)


Rejeitando qualquer ideia de "etnocentrismo" ou de "cultura da supremacia", Nemo, ao defender o papel revolucionário do capitalismo, face a todos os modos de produção anteriores e reconhecendo nele e na ideia do direito as causas de um movimento planetário que arrancou mesmo as sociedades mais recuadas da sua estagnação, não diz mais do que o próprio Marx disse.

O que ele acrescenta é que os males do sistema e as suas flagrantes injustiças representam também um incomparável avanço em relação à situação histórica anterior, nomeadamente, em termos de demografia:

"Por isso, devemos dizer, correndo o risco de chocar alguns, que os 5 mil milhões de homens que em acréscimo apareceram na Terra desde 1750 são os filhos e as filhas do capitalismo e, neste sentido, os filhos e as filhas do Ocidente."

E noutro passo:

"De facto, nunca se tinham visto tantos pobres nas cidades europeias, fenómeno que é evidenciado, no caso da França e da Inglaterra, quer pelos estudos do dr. Villermé e de Engels, quer pelos romances de Dickens. No entanto, não se tratava de pessoas empobrecidas depois de terem sido ricas. Eram pessoas que estavam vivas, mas que, anteriormente, teriam estado mortas, ou, com maior rigor, que não teriam nascido. A impressão de que nunca houvera tantos pobres era, portanto, exacta, mas era falso que isso fosse o resultado de uma crise da economia, pelo contrário, era o resultado dos seus progressos." (ibidem)

Concordando com tudo isto, perguntamo-nos, como se poderia "pensar" essa nova injustiça, mesmo que numa primeira fase fosse uma consequência do desenvolvimento, sem ser como um destino ou um fatalismo, o que acomodaria toda a gente a viver com ela e, talvez, a perpetuá-la?

A profecia de Marx foi, até se tornar a doutrina de um Estado, e na melhor tradição do humanismo cristão e da "responsabilidade sem causa" do judaísmo, a melhor resposta. Ao mesmo tempo garantia a insatisfação dos espíritos e propulsionava as reformas.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

A PALHA PELO OIRO


Heráclito de Éfeso ( Johannes Moreelse)


"Os homens enganam-se, em relação ao conhecimento, da mesma maneira que Homero, o qual foi, no entanto, o mais sábio dos Helenos. Crianças, ocupadas em se livrarem dos seus parasitas, enganaram-no dizendo-lhe: "Aquilo que nós vemos e apanhamos, deixamos; tudo o que não vemos nem apanhamos, levamos.""

Heráclito ("Fragmento nº 56")


A reputação de obscuridade que se atribui a Heráclito está aqui bem ilustrada.

Mas a verdade é que a própria simplicidade parece às vezes complicada. E eu arrisco uma interpretação literal da frase com que as "crianças" (os homens) terão iludido Homero, segundo o grande efesiano.

Decorre da sua doutrina que o que "vemos e apanhamos" é a mesma coisa do que o que "não vemos nem apanhamos". Nós apenas imaginamos que são diferentes, porque ficamos pela superfície das coisas.

Logo, o que as "crianças" dizem não tem nada de absurdo, embora possam realmente não o compreender, ocupadas que estão, além do mais, a catar os seus piolhos.

Homero terá sido iludido então por uma aparente falta de lógica.

"Ouvem sem compreender e são semelhantes aos surdos. O provérbio aplica-se a eles: presentes, estão ausentes." ("Fragmento nº 34")


Beja (José Ames)