sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A CHÁVENA DA CRIAÇÃO


http://andrade-alexandre.planetaclix.pt/proust3.gif


"O mesmo acontece com o nosso passado. É trabalho baldado procurarmos evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência são inúteis." Por isso Proust não hesita em afirmar, em síntese, que o passado "está escondido, fora do domínio e do alcance da nossa inteligência, em algum objecto material [...] de que não suspeitamos. Depende do acaso encontrarmos esse objecto antes de morrermos, ou não o encontrarmos."

"Proust, citado por Walter Benjamin in "A Modernidade"


Faz tanto sentido esta espacialização da memória que nos espanta termos tido que esperar pelo século XX para podermos colher a sua ideia nas páginas do grande romance sobre o tempo.

A nossa inteligência não tem acesso a esses "arquivos" porque é eminentemente prática. A menos que, como Proust, dedicássemos a nossa vida à busca do passado real (que se prolonga no presente e explica as nossas inclinações mais secretas), a lenda, a poesia do tempo não chegam à consciência.

A utopia deste pensamento é a dumas águas-furtadas contendo todo o passado sob a forma dos mais diversos objectos que tiveram algum significado para nós. Bastaria abrir o baú para a infância regressar na sua inocência e virgindade.

Mas é claro que abdicamos de toda a ideia de acção, nessa cerimónia. E é por isso que a inteligência nunca nos dará a chave dessas águas-furtadas.


S. João do Porto: o dia seguinte (José Ames)

O OBJECTO DA GUERRA




"(...) Para usar uma variante de uma expressão de Bruno Bauer: só pode descobrir quem conheça melhor a sua presa do que ela se conhece a si própria, e é capaz de a sujeitar com base numa superioridade da educação e do saber."

Carl Shmitt (in "Der Nomos der Erde", citado por Peter Sloterdijk)


Isto, no contexto dos descobrimentos marítimos dos séculos XV e XVI e dos nomes com que os europeus crismaram os povos e as terras incógnitas.

É evidente que a dita superioridade não assenta no conhecimento da "presa", embora ela também não se conheça a si própria.

A lei da guerra e da conquista impõe, pelo contrário, o desconhecimento.

É a paz que precisa de se justificar. Mas a propósito da antropologia da conquista só podemos parafrasear Clausewitz, que é a continuação da guerra por outros meios.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008


"Bird" (José Ames)

PRIMÍCIAS ANTONIONIANAS




"Mesmo a intuição de que há formas de informação em cada um dos nossos humores, em cada uma das nossas especulações e particularmente no modo como vemos a outra pessoa, as quais a outra pessoa não suportaria ouvir, não chegaria ao fundo do nosso problema. O problema em questão é muito mais radical e centra-se em saber se não há sentido - especialmente nas relações íntimas - que é destruído em virtude de se falar nele."

"Love as Passion" (Niklas Luhmann)


A incomunicabilidade no amor teria sido, segundo este autor, uma das descobertas que o século XVIII deixou à posteridade.

O problema não residia numa falta de habilidade, mas na "falta de capacidade para a sinceridade."

Aquele século levou a retórica ao extremo de se perder a fé nas palavras. Se houve um tempo em que duas pessoas pensavam comunicar através de formas convencionais, o excesso do artifício despertou as consciências para o "erro de comunicação".

Podemos entender essa situação tanto melhor quanto a retórica da publicidade invadiu todo o espaço da comunicação.

Não há situação real que não encontre um modelo virtual nos mass media, e se o romance foi responsável, um século atrás, por uma certa ideia do amor, percebemos quanto a comunicação (da sinceridade) depende de se evitar ser "rastreado" pelo código dos media.

Quando isso se torna impossível ou demasiado difícil, ambos os parceiros, como diz Luhmann, podem achar preferível a não-comunicação ao erro de comunicação.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008


Tróia (José Ames)

O FUTURO DOS SISTEMAS


Les structures nerveuses impliquées dans la régulation du sommeil,

se situent essentiellement à la base du cerveau, dans le tronc cérébral.

http://www.museum-marseille.org/marseille_cerveau_sommeil.htm



"Uma investigação histórica descobre tais afinidades mais rapidamente, ao demonstrar como um sistema existente ou uma semântica consistentemente ordenada e completamente formulada predetermina o seu próprio futuro (mesmo se em princípio deva ser pensado como indeterminado). Isto é mais evidente na história da ciência: dificilmente pode ser puro acaso que as descobertas científicas sejam espoletadas e que subsequentemente se prove serem verdadeiras. A verdade torna-se manifesta dentro do processo."

"Love as Passion" (Niklas Luhmann)


Ocorre-me aquela situação, tão comum mesmo fora do mundo dos cientistas, em que, à volta com um problema, nos entregamos à corrente dos afazeres e, à noite, adormecemos sem pensar mais no assunto, para acordarmos, de manhã, com uma solução.

É também evidente aqui que não foi por acaso que a ideia nos surgiu. O trabalho da vigília como que montou a semântica do problema, e o back office inconsciente apenas a desenvolveu (o sistema predetermina o seu próprio futuro).

terça-feira, 5 de agosto de 2008


"Aleixo" (José Ames)

INTERSTÍCIO


http://www.futura-sciences.com


Quando nos envolvemos numa acção cujas consequências futuras não prevemos, mas que podem ser drásticas, a que é que chamamos realidade?

Ao presente e à cadeia de efeitos que temos diante dos olhos ou a todo o invisível desenvolvimento disso?

Parece-me que a irrealidade é considerarmos o que somos agora, sem o passado e sem o futuro que já pusemos em marcha. Não podemos, então, apreender algo de real sem o tempo.

E o realista é aquele que sabe que apenas vislumbra um interstício entre o passado e o futuro.

O oposto disso é o absolutismo do aqui e agora.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008


S. Lourenço (José Ames)

A FLAUTA MÁGICA



Manet ("Le joueur du fifre")


"Assim, o prosador é um homem que escolheu um certo modo de acção secundária que se poderia chamar acção de desvelamento. É portanto legítimo colocar-lhe esta segunda questão: que aspecto do mundo queres tu desvelar, que mudança queres trazer ao mundo por esse desvelamento? O escritor "engagé" sabe que a palavra é acção: ele sabe que desvelar é mudar e que só se pode desvelar projectando a mudança."

"Situations II" (Jean-Paul Sartre)


Era um tempo heróico esse em que se podia escrever à vista do "horizonte inultrapassável" do nosso tempo (o marxismo, na definição do próprio Sartre).

Poucos hoje terão a veleidade de pensar que a sua palavra é acção e projecto de mudança, porque para o ser de algum modo teria que ser afastado por qualquer tocador de flauta, como no conto de Andersen, o enxame inflacionário das palavras e das mensagens e a própria sociedade teria que deixar de ser "publicitária".

É curioso pensar que este conceito de desvelamento foi empregue por Heidegger a propósito da técnica. Segundo o "filósofo da Floresta Negra", a técnica é uma acção desveladora. O que se desvela é o mundo ou a natureza através das nossas construções e manipulações.

Portanto, o escritor "engagé", para Sartre, era uma espécie de técnico da Revolução, um ajudante da célebre parteira.

Mas isto evoca ainda a técnica socrática para descobrir a verdade. E surge-nos assim um fio condutor que explica também o Cristianismo. Fio condutor e linhas ocupadas com a mesma mensagem.

domingo, 3 de agosto de 2008

O DIA DO GAFANHOTO


"The Day of the Locust" (1975-John Schlesinger)


"Os Estados Unidos da América foram o único país moderno a não ter enveredado pelo caminho que leva ao Estado de prevenção e de seguros, com a consequência de que, nele, a religião ou, em termos mais gerais, a "disposição fundamentalista" conservaria uma significação atípica da modernidade - opuseram-se às Luzes, que desagregaram a religião, como a todas as tentativas de retirar aos cidadãos as suas armas de fogo."

"Palácio de Cristal" (Peter Sloterdijk)


Um europeu não pode deixar de ter sob os Americanos um olhar "etnológico".

John Schlesinger, por exemplo, ao filmar langorosamente a fauna crepuscular de Hollywood, que se junta nas orgias de álcool e de sexo, como que à procura do antídoto para as horas dedicadas a simular emoções e ao fazer de conta, oferece-nos, sem solução de continuidade, uma sequência de histerismo religioso, com uma Geraldine Page extática, guiando o seu rebanho de alucinados para as verdes pastagens da outra vida, numa outra vertente da indústria do espectáculo.

Para fazer jus ao título bíblico do filme, "O Dia do Gafanhoto", o final é um vórtice de violência que absorve as estrelas e o seu público de fãs, a que se vêm juntar as personagens desta história de fracasso anunciado.

O espectáculo não é a vida, verdade de La Palisse. A violência espectacular é ainda a suspensão da verdadeira violência.

Talvez que a função catártica que Aristóteles via no teatro possa explicar a necessidade cada vez maior duma violência encenada em todos os media para controlar o maelström que ruge sob a fachada da normalidade e das convenções.

sábado, 2 de agosto de 2008

O HOMEM NOVO


Niklas Luhmann (1927/1998)


"No dealbar dos tempos modernos este problema tornou-se mais agudo até o ponto em que, com a invenção da palavra impressa, maior e mais improvável foi a procura de media de comunicação. Surgiram entre os media códigos que tinham conotações marcadamente "associais", ou pelo menos, metamorais - por exemplo raison d'état na esfera do poder, lucro na esfera da propriedade e do dinheiro ou até a paixão quase patológica no campo do amor."

"Love as Passion" (Niklas Luhmann)


A abordagem de Luhmann permite-nos ver como as ideias se podem estender para além de certos grupos e de certas elites só pela procura de um medium e como, durante o processo, essas ideias podem mesmo mudar de sentido.

Se a imprensa é um meio de redestribuir as palavras e de influenciar as mentalidades em grande escala, dum modo tanto mais eficaz quanto mais insensível, temos de nos perguntar, perante a avassaladora tecnologia dos tempos de hoje, com alguns media, como a televisão, que ainda não foram conclusivamente estudados e já perderam grande parte do seu predomínio, enquanto novos e mais "integrais" meios de comunicação invadem as nossas vidas, se sobrará algum vestígio do homem do passado ainda recente e se aquilo que vagamente chamamos de crise de valores não é já o primeiro efeito da reeducação pelo sistema dos media.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008


(José Ames)

A ORDEM INTERIOR


David Hume (1711/1776)


"Não possuímos a mesma razão para reconstruir aquele mundo ideal a partir de um outro mundo ideal ou de um novo princípio inteligente? Mas se paramos e não vamos mais além, porquê ir tão longe? Porque não parar no mundo material? Como é que podemos ficar satisfeitos sem continuarmos in infinitum? E além do mais, que satisfação há nessa progressão infinita?

"Diálogos sobre a Religião Natural" (David Hume)


Não podemos satisfazer-nos com o presbitismo ideal e a "progressão infinita", nem com a miopia do "sistema mundano".

Quando Fílon diz que esta é a melhor opção, porque o mundo material deve conter "o principio da sua ordem no seu interior" e essa pesquisa podemos fazê-la, ao contrário da pesquisa do mundo ideal, é preciso responder-lhe que, pelo mesmo princípio, estamos ainda mais próximos de nós mesmos do que do mundo material. Por que não procurar então dentro de nós o princípio da ordem universal que "afirmamos justamente que é Deus"? Por quê ir tão longe quanto o "sistema mundano"?