sábado, 5 de dezembro de 2009


(José Ames)

A POLÍTICA EPIDÉRMICA


Julián Marías (1914/2005)


"Como se se pudesse atribuir a um regime, para o bem e para o mal, a substância profunda do que num país acontece; como se não fosse a política um fenómeno relativamente superficial e epidérmico, cuja acção, por perturbadora que seja, é transitória e deixa além disso intactos os estratos mais profundos duma sociedade."

(Julián Marías, citado por Agustina Bessa-Luís)


Talvez a substância profunda do que é uma nação seja uma espécie de microfísica a que nenhum instrumento conhecido dá acesso. Alguém que pudesse representar-se e sentir "por dentro" o grande ser de que é feita uma colectividade, abrangendo as gerações sucessivas e os vivos e os mortos, não estaria mais habilitado a agir como indivíduo no único plano que se oferece à acção e que é, precisamente, o da política.

A política é superficial, mas da mesma maneira que a linguagem o é. Não poderíamos compreender-nos a nós próprios sem ela e, no entanto, é verdade que tudo isso representa uma ténue ondulação no grande ser.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009


Angra do Heroísmo (José Ames)

PROUSTIFICANDO


(1873/1960)


"Criámos entre nós o verbo proustificar para exprimir uma atitude de genialidade demasiado consciente, juntamente com o que vulgarmente seria apelidado de afectações intermináveis e deliciosas."

(Fernand Gregh, citado por Alain de Botton)


A delicadeza mundana de Proust é proverbial. Por nada deste mundo daria o desgosto de ser objectivo na apreciação dum poema feito por um amigo. Também, com as mulheres, a cortesia nunca descia dos superlativos, o quer que estivesse a ser avaliado, desde uma toilette ao espírito da conversação.

Era amável, mas dum maneirismo tão precioso que só podia significar o que Pascal dizia dos chapéus. Um cumprimento não é um juízo.

Por outro lado, basta abrir o romance em qualquer página e travar com o dedo o texto serpentino para encontrar a verdade do pensamento de Proust. Só um fabulista como La Fontaine, por exemplo, podia ter ido mais longe na caracterização das misérias e dos vícios do "beau monde".

Alain diz que Proust via os homens como se fossem peixes num aquário. Isto não deve ser entendido como uma crítica, pelo contrário. Tirando a deformação provocada pelo vidro, a evolução das personagens é seguida com o espanto e a liberdade poética dum observador duma outra espécie.

Proustifiquemos, pois, se queremos ser bons observadores.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


(José Ames)

EROS NIMBADO



"Em termos formais, o poema irrompe igualmente com o seu quê de inesperado dentro do quadro bíblico. O nome de Deus aparece uma única vez nomeado (Ct 8,6), e, ainda assim, numa passagem um pouco obscura. Tudo o mais é dominado 'pelo realismo das evocações e descrições da relação amorosa' (Y. Simoens). Coloca-se entre parêntesis a sobriedade da antropologia bíblica, e exalta-se demoradamente a beleza, o aspecto, os detalhes das figuras feminina e masculina. As palavras como que se tornam de seda. Há aqui um extraordinário trabalho de construção verbal que nos obriga a concluir que o autor anónimo seria um grande poeta (ou uma grande poeta, como hoje se tem por provável)."

"A Leitura Infinita" (José Tolentino Mendonça)


Não se pode, decerto, atribuir à ambiguidade das pessoas envolvidas no amor do Cântico dos Cânticos ("O teu nome é um perfume que se espalha; eis por que as jovens te amam." Falaria assim uma jovem apaixonada?), a "anomalia" deste poema no conjunto dos livros do cânone bíblico. Sem dúvida, terá permitido que a tradição rabínica e eclesial pudesse ver nele um símbolo do amor entre Deus e o povo eleito ou a Igreja. Para não falar da inspiração que foi para místicos como Santa Teresa de Ávila.

Não se esqueça, também, que o outro nome por que é conhecido o poema é O de "Cânticos de Salomão", rei que foi, como se sabe, um expoente da sabedoria antiga. Mas o nome de Salomão parece aqui mais uma caução, um atestado anti-sensualista, do que designando o espírito do autor.

De qualquer modo, o "Cântico dos Cânticos" é o texto mais próximo do erotismo a que a Bíblia chegou, e os problemas de interpretação de que foi objecto obrigaram homens como Calvino a uma espécie de confissão do género do "creio porque é absurdo" (Tertuliano).

É provável que o poema seja um "Cavalo de Tróia" virtual (apesar de toda uma corrente mística) do paganismo helénico (que não corresponde à imagem sensualista que alguma escultura pode levar a supor). Na recente polémica provocada pelas declarações de Saramago, não foi este livro da Bíblia um dos que ele "salvou"?

Tolentino, contra a interpretação alegórica e simbólica propõe, na esteira de Paul Beauchamps, a leitura do que está escrito: "O Cântico não é uma narração enigmática, cuja interpretação precise necessariamente duma chave". E o que é legível é o amor sensual e "profundamente espiritual" entre um homem e uma mulher.

Será essa a solução "salomónica" para o aparente erro de contexto do "Cântico dos Cânticos"?

Mesmo que reconheçamos a espiritualidade do amor natural, estamos ainda no território de Eros e não no de Jeová, o Deus ciumento que "sonda os rins" do crente, nem no do amor crístico que vai até à radical negação do corpo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


Santiago de Compostela (José Ames)

ESPECTADORES


A arena de Verona


"Um espectáculo exerce sempre esta influência de vizinhança e entendimento mútuo; diante dum palco ou duma arena, quando o homem se torna público, a sua consciência volatiliza-se, e resta uma emoção capaz de provocar simpatias rápidas e mundanas. Já não se trata de emitir opiniões nem de representar uma sociedade – mas simplesmente de participar como multidão na cena que se desenrola aos seus olhos. Alguma coisa que é tomada como espectáculo deixa de exigir responsabilidade, é algo de irreal e que se passa, apesar da sua exactidão, fora do âmbito do ser."

"Embaixada a Calígula" (Agustina Bessa-Luís)


Nestas palavras de incontestável verdade, há duas ideias que revelam a raça da escritora, o seu jeito de filosofar, com propriedade, a propósito dos factos mais comezinhos. Uma delas é falar de exactidão em relação a um espectáculo. É verdade que mais ou menos exactidão (a ética ou a objectividade jornalísticas, por exemplo) não afecta a natureza da coisa.

Por isso, todo o nosso critério de espectador é impotente para fazer o espectáculo passar ao domínio do ser. E esta é a outra ideia muito pertinente de Agustina. O que é "estar fora do âmbito do ser"? Alguma vez deixamos de "ser", mesmo quando nos sentimos irresponsáveis (ou impossivelmente responsáveis) diante da televisão, por exemplo?

Está na expressão implícita uma ética da acção, hoje, cada vez mais utópica.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009


(José Ames)

PUZZLES



"Uma das coisas que nesses dias (1946) eu tinha dificuldade em compreender era a tendência dos filósofos ingleses de flirtar com epistemologias não realistas: fenomenalismo, positivismo, idealismo Berkeleyano, Humeano ou Machiano ('monismo neutral'), sensacionalismo, pragmatismo – estes brinquedos de filósofos eram nesses dias ainda mais populares do que o realismo. Depois de uma cruel guerra que durara seis anos, essa atitude era surpreendente (…)"

"The unended quest" (Karl Popper)


Popper conta o episódio, durante uma conferência em Cambridge, quando conseguiu enfurecer Wittgenstein que o interpelava brandindo um atiçador (estava junto da lareira), em jeito de ponteiro magistral, levando-o a abandonar a sala batendo com a porta. Wittgenstein tinha-o desafiado a apresentar um exemplo de regra moral, ao que Popper respondeu: "não ameaçar os conferencistas convidados com atiçadores". Estava em questão a negação por parte de Wittgenstein da existência de problemas filosóficos (só existiriam puzzles linguísticos) e a crença do autor da "Sociedade Aberta" de que existem verdadeiros problemas filosóficos e que "o facto de muitas pessoas, senão todas as pessoas, impensadamente adoptarem insustentáveis soluções para muitos, ou talvez todos os problemas filosóficos proporcionava a única justificação para ser filósofo."

A fúria de Wittgenstein resultou, evidentemente, de ver a sua vaidade intelectual desfeiteada por uma réplica oportuna e não por ter de reconhecer a razão de um argumento contrário à sua tese.

A filosofia da linguagem teve o seu tempo e faz parte de outro puzzle que é a relativa falta de popularidade do realismo, pelo menos, segundo Popper, junto dos filósofos ingleses, logo a seguir à segunda grande guerra.

Mas a surpresa de Popper é que é de admirar, porque o realismo nunca se deu com as grandes crises do espírito.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009


Moura (José Ames)

ELA USAVA UMA FITA AMARELA



A filha do comandante do forte (Joanne Dru) pôs uma fita amarela, mas não se sabe por qual dos pretendentes se vai decidir. Há pelo caminho muitos amuos e equívocos. O velho capitão (John Wayne) conta os dias para a reforma, mas ninguém acredita que lhe agrade a sua nova vida na Califórnia. No último dia de serviço, conduz a sua patrulha numa manobra nocturna que deixa sem cavalos os jovens guerreiros das tribos aliadas desde o desastre de Custer. Ele sabe que esses homens se sentiriam humilhados por combaterem a pé. Poupam-se os mortos de um lado e do outro e a paz ganha mais um dia, talvez decisivo. É a sabedoria da experiência. No dia seguinte ruma para o Oeste. É interceptado pelo sargento Tyree (Ben Johnson) ao pôr-do-sol, com uma mensagem das chefias militares a nomeá-lo batedor com o posto de tenente-coronel. Era o melhor happy-end que se podia imaginar. Mas nenhum casamento pode prometer a felicidade, nem nenhuma promoção, na idade do capitão Brittles, pode prometer uma longa vida.

As catedrais do Monument Valley estão sempre presentes, por muitos quilómetros que faça a cavalaria. Eterno anfiteatro da tragédia, elas perfilam-se nos momentos de perigo, quando as caravanas são perseguidas pelos índios, ou nas cenas de religioso recolhimento junto à campa da desaparecida. A emoção está constantemente à flor da pele, sem nunca ser piegas, como quando Brittles saca timidamente dos óculos ou dá uma palmadinha de conforto quase imperceptível. De resto, é uma sensibilidade temperada pela truculência duma personagem como a representada pelo inenarrável Victor McLaglen.

A paisagem é poesia pura. Como a via láctea levantada do chão pelos cavalos, a silhueta das tendas, a coreografia dos homens e dos animais no deserto.

Chega-se ao fim com o sentimento de que a utopia afinal existe… nos filmes de Ford.

domingo, 29 de novembro de 2009


(José Ames)

A DIETA


http://setimodia.files.wordpress.com


"A inspiração literária helénica deve ser conjugada com o importante substracto judaico. Ainda hoje se diz que 'o judaísmo se aprende comendo' (S.Di Segni). Partindo do que está escrito na Lei (Lev 11;Dt 14) e na tradição, pode dizer-se que as escolhas alimentares de um membro do povo de Deus deviam ser consideradas como fundamentos da sua identidade cultural e religiosa. De facto, não podemos esquecer que o primeiro mandato que Deus estabeleceu para Adão e Eva, no relato do jardim, foi de categoria alimentar ('Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer.')."

"A Leitura Infinita" (José Tolentino Mendonça)


Desde a língua que se aprende com o leite materno, tudo o que passa a fazer parte da nossa substância deve ser "comido". Isto é, não deve seguir o caminho das ideias, mesmo quando "calam" fundo, convencendo primeiro a nossa razão, mas o da necessidade do corpo (que, evidentemente, aqui, não é o contrário da alma). Não é por acaso que se fala em fome para exprimir o desejo do outro. Como dizia Comte, é o inferior que explica o superior.

Não são os tabus alimentares do "Levítico" a mais perfeita separação das outras religiões?

A interdição de Jeová que atinge a "árvore do conhecimento" assume também a forma alimentar. Trata-se de um fruto particular. Por um lado, essa proibição é igual à que atinge os animais que não têm o casco fendido. Por outro, todavia, é uma manifestação do característico zelo do Deus dos Hebreus, porque o conhecimento significa considerar os outros deuses.

sábado, 28 de novembro de 2009


Portalegre (José Ames)