sexta-feira, 15 de maio de 2009


Lisboa (José Ames)

DISCURSO CONTRA PANDORA



"As imagens dispensam o comentário e acompanham-se de longos momentos de silêncio pouco comuns na televisão. A surpresa manifesta-se quando alguma coisa interrompe um curso de existência, abrindo abismos de incerteza. Corresponde aqui à distância incomensurável entre o acto de filmar tarefas que têm a ver com a banalidade quotidiana e a irrupção de um facto decididamente insensato. Ainda não se trata de um acontecimento, uma vez que o acontecimento é obra de um discurso que só se revela a posteriori, mas de factos brutos, que abrem o abismo de uma indeterminação completa. Nesse momento, o acontecimento 'que nunca se dá em presença' não está consumado, está ainda em suspenso."

"O mito de Pandora revisitado" (Jocelyne Arquembourg)


As primeiras testemunhas do "11 de Setembro" encontram-se como que fora da protecção da linguagem e a sua única reacção é, tal como nos filmes-catástrofe, o inevitável: Oh, my God!, espécie de mnemónica instintiva.

A televisão vai levar algum tempo a "enquadrar" o que se está a passar. À medida que surgem os comentários e as interpretações, o "facto bruto" torna-se objecto de discurso e pode ser dominado.

Diferentemente dos pesadelos, em que por mais emotivos que sejam, nada acontece realmente, no mundo inter-subjectivo tudo acontece, mas na linguagem.

"Longe de se propagar de forma desordenada para fora da caixa de Pandora, o sentido do acontecimento é assim contido na definição da situação de urgência que os factos engendraram. A informação funciona então como um cicatrizante, quer-se tranquilizadora, unificadora, oscila entre a mostração/demonstrações (as ameaças e, depois. o envio de tropas para o Afeganistão) e a ocultação aceite de maneira consensual (os corpos das vítimas dos atentados, os combates no território afegão)." (ibidem)

quinta-feira, 14 de maio de 2009


(José Ames)

O PROCESSO SEM FIM



http://antonioribeirolopes.no.sapo.pt


"O futuro das máquinas inteligentes, creio eu, reside menos nos peritos ou nos filósofos da inteligência artificial do que nos engenheiros informáticos e cientistas - hardware e software designers - que, ignorando o debate, irão onde quer que a compreensão tecnológica e científica os possa levar."

"The Dreams of Reason" (Heinz Pagels)


Se o debate tivesse alguma importância no futuro científico e tecnológico, poderíamos esperar que as considerações éticas jogassem nesse futuro algum papel, poderíamos esperar alguma espécie de controlo e de compreensão sobre uma questão tão crucial para a humanidade.

Mas a perspectiva de Pagels, com a qual, infelizmente, tenho de concordar, pois é a repetição dum processo conhecido, sobretudo desde que deixámos para trás a física clássica, é duma crescente independência do sistema técnico-científico, o qual descolou de quaisquer objectivos "antropológicos" em favor dos do universo da lógica e corresponde, cada vez mais, à definição do que, por exemplo, Niklas Luhmann caracterizava como um sistema autónomo face ao ambiente humano.

A questão parece insolúvel, visto que o primado da filosofia e da ética interromperiam o processo revolucionário do desenvolvimento técnico-científico.

quarta-feira, 13 de maio de 2009


Lisboa (José Ames)

A INFÂNCIA DA HUMANIDADE


Marx & Engels Internet Archive


"Recorrendo à maravilha dos poetas gregos que tanto amava; recorrendo, como vimos, embora talvez inconscientemente, à linguagem dos profetas, Marx fala, e volto a citar, da 'infância social da humanidade, onde a humanidade se manifesta em completa beleza.' E quando voltamos a perguntar, com impaciência crescente, em que consiste a queda do homem? Que pecado cometemos?, o marxismo não consegue responder."

"Nostalgia do Absoluto" (George Steiner)


Se não tivéssemos atrás de nós, na infância ou numa qualquer idade de oiro, a fonte da inspiração, poderíamos reconhecer a imperfeição do presente?

Como diz Simone Weil, não pode ser o futuro a inspirar-nos porque ele nada é ainda. Mas também não recorremos a um passado abstracto, a uma tradição em que não nos sintamos incarnados.

Talvez que a infância, a sua maravilhosa ausência de lastro, a sua leveza seja mais um lugar do que uma idade do homem. Um lugar que não pode existir em lado nenhum porque já prescreveu. E essa é uma definição da utopia.

terça-feira, 12 de maio de 2009


(José Ames)

O FUTURO NO PASSADO


Yuri Lotman (1922/1993)


"A natureza daquilo que aconteceu pode transformar-se brutalmente. Segundo Lotman (*), com efeito, o objecto observado é totalmente modificado conforme seja observado do passado para o futuro, ou do futuro para o passado. Visto a partir do passado e na direcção do futuro, o presente mostra-se como o conjunto complexo de toda uma série de possíveis, todos igualmente dotados de probabilidade. Pelo contrário, visto na direcção do passado, o real passa a adquirir um estatuto factual. Tornou-se o único possível. Quanto aos possíveis não realizados, tornam-se possíveis que nunca se poderiam ter realizado. Retrospectivamente, tornam-se quimeras."

"Semiótica do Acontecimento e Explosão?" (Jorge Lozano)


O "Iluminado" ou o "Grande Educador" vêem já todos os possíveis do futuro no passado como consequência do seu único possível.

Quanto maior é a sua fé, mais quiméricas lhes parecem as alternativas e, na verdade, impossíveis.

Em que espécie de tempo vivem pois estes sumo-projectistas?

Nalguns casos, os que chegam a ter alguma importância histórica, parece que, de certa maneira, afunilaram o tempo, o seu e o dos outros.

Porque o futuro, e não só o futuro anterior (o da psicanálise, por exemplo), pode realmente moldar o presente.


(*) Yuri M. Lotman, Cultura y explosion

segunda-feira, 11 de maio de 2009


Lourinhã (José Ames)

OS MALEFÍCIOS DA ARTE


Guido Piovene (1907/1974)


"'Não é necessário um choc revolucionário como na revolução francesa ou russa. Cada país tem uma rotura revolucionária diferente segundo a sua história, a sua realidade.' O senador Fortunati é um homem de cultura, e até o melhor cérebro do comunismo bolonhês. Pergunto-lhe se depois da rotura revolucionária, por ele perspectivada, a ciência e a arte permaneceriam livres. 'Libérrimas', responde,' com uma única restrição: a nova sociedade terá o direito de se defender contra as formas de arte que têm como substracto uma realidade económico-social superada'. Por exemplo? pergunto. Responde: 'A pornografia.' e aqui estamos de acordo. Depois, acrescenta: 'A evasão.' Ai de mim! abrem-se fúnebres perspectivas."

"Viaggio in Italia" ( Guido Piovene)


Piovene percorreu o seu país de 1953 a 1956 e deixou-nos no relato dessa viagem páginas cheias de observações curiosas como estas.

E a resposta do senador Fortunati não é assim tão anacrónica quanto isso, em relação ao que se passa ainda hoje em Portugal.

Continua-se a pensar em termos de causa e efeito as relações da arte e da ciência com a sociedade, como se tivessem a simplicidade da mecânica.

Claro que a influência da arte "não alinhada" (que Goebbels, por exemplo, discriminava como decadente) não parece, na inactualidade da "rotura revolucionária" uma prioridade da defesa. Mas é outra a ideia do senador. Ele acredita que tanto a arte quanto a ciência fazem parte da luta ideológica contra os inimigos de classe. É esta maneira de pensar que explica os impasses do academismo oficial na arte e as teorias estapafúrdias dum Lyssenko no campo da genética.

Mas aqui o argumento procura a maior base de apoio possível e por isso apela ao moralismo burguês, incluindo nas restrições a pornografia e a evasão (evidentemente a definir pelo ministério do interior).

domingo, 10 de maio de 2009


(José Ames)

A GUERRA DAS IMAGENS


Guerra do Golfo


"E assistimos a este paradoxo: enquanto que as imagens da Guerra do Golfo pareciam irreais, isoladas do terreno, o espectáculo de 11 jovens fechados num estúdio dava a sensação de abarcar o real!"

"O Terror Espectáculo" (Daniel Dayan, dir.)


O programa de televisão "Big Brother" era em tudo artificial (conforme a obra citada, os participantes comunicavam com o exterior, os votos eram manipulados e, pior de tudo, o directo era falso), mas assentava na "promessa dum mundo autêntico mostrado tal e qual por 25 câmaras e 50 microfones."

Os espectadores, contudo, talvez não reagissem de maneira diferente se soubessem desde o princípio que tudo se iria passar como se passou. A conversão da propalada realidade no espectáculo que realmente era não importava muito. Seria uma espécie de telenovela sem guião, com suficientes atractivos para o voyeurista médio.

Mentiu-se, é certo, mas como mente a publicidade.

As pessoas já devem saber que a televisão tem horror ao real. Mesmo as imagens da guerra têm de ser desformatadas e reintrepretadas.

Por isso, na era da televisão, a situação da belle âme de que fala Hegel é muito de lastimar. Sofre inutilmente pelo que nem sequer é o que pensa.

sábado, 9 de maio de 2009


Lisboa (José Ames)

A INTELIGÊNCIA QUE NÃO COMPREENDE


"A Space Odissey" (Stanley Kubrick)


"Bohr, de um certo modo, afirmava que a mecânica quântica não era compreensível; que só a física clássica o era e que nós tínhamos de nos resignar com o facto da mecânica quântica apenas ser parcialmente compreensível, e mesmo assim apenas através da física clássica. (...) Eu suspeitava que a teoria de Bohr estava baseada numa visão muita estreita do que a 'compreensão' podia conseguir. Bohr, assim parecia, pensava a compreensão em termos de imagens e modelos - em termos duma espécie de visualização."

"The Unended Quest" (Karl Popper)


Popper nega que a teoria quântica especificamente represente um argumento contra o determinismo.

"O que é peculiar à teoria quântica é (fase-dependente) a interferência da probabilidade" e os "problemas de interpretação da mecânica quântica podem todos ser convertidos em problemas de interpretação do cálculo de probabilidades."

O filósofo põe igualmente em causa o chamado princípio de indeterminação de Heisenberg: "errada interpretação de certas fórmulas que certificam uma dispersão estatística."

A aparente indeterminação das leis que regem a matéria poderia, assim, ser imputada ao condicionamento a que sujeitamos a medida dos nossos instrumentos e à leitura que fazemos dos seus resultados, tudo fundamentado num contexto sensorial, perceptivo e cultural. Por outras palavras, não desantropologizamos o bastante para poder captar as regularidades e os períodos mais longos ao nível da microfísica, por exemplo, pois tudo isto ultrapassa em muito a "escala humana". A incerteza pode esconder a "certeza" se ampliarmos o suficiente.

Esta situação não seria possível sem a potência e a velocidade de cálculo dos computadores. Estarão eles a impor-nos a passagem dum limiar absoluto, para lá do qual já não tem sentido falar em humanidade?

O computador não é uma prótese, como o telescópio, por exemplo. Ele amplia a régie das próteses que é o cérebro humano. Se admitirmos que a máquina não pode compreender, o que resulta do acoplamento humano com o computador é um acréscimo de poder e não de compreensão. Com efeito, a quem pertence a inteligência estratégica nesse híbrido de cérebro e máquina?

A profecia de Hal 9000 ("A Space Odissey") é uma das respostas.

sexta-feira, 8 de maio de 2009


(José Ames)