
Lisboa (José Ames)

"As imagens dispensam o comentário e acompanham-se de longos momentos de silêncio pouco comuns na televisão. A surpresa manifesta-se quando alguma coisa interrompe um curso de existência, abrindo abismos de incerteza. Corresponde aqui à distância incomensurável entre o acto de filmar tarefas que têm a ver com a banalidade quotidiana e a irrupção de um facto decididamente insensato. Ainda não se trata de um acontecimento, uma vez que o acontecimento é obra de um discurso que só se revela a posteriori, mas de factos brutos, que abrem o abismo de uma indeterminação completa. Nesse momento, o acontecimento 'que nunca se dá em presença' não está consumado, está ainda em suspenso."
"O mito de Pandora revisitado" (Jocelyne Arquembourg)
As primeiras testemunhas do "11 de Setembro" encontram-se como que fora da protecção da linguagem e a sua única reacção é, tal como nos filmes-catástrofe, o inevitável: Oh, my God!, espécie de mnemónica instintiva.
A televisão vai levar algum tempo a "enquadrar" o que se está a passar. À medida que surgem os comentários e as interpretações, o "facto bruto" torna-se objecto de discurso e pode ser dominado.
Diferentemente dos pesadelos, em que por mais emotivos que sejam, nada acontece realmente, no mundo inter-subjectivo tudo acontece, mas na linguagem.
"Longe de se propagar de forma desordenada para fora da caixa de Pandora, o sentido do acontecimento é assim contido na definição da situação de urgência que os factos engendraram. A informação funciona então como um cicatrizante, quer-se tranquilizadora, unificadora, oscila entre a mostração/demonstrações (as ameaças e, depois. o envio de tropas para o Afeganistão) e a ocultação aceite de maneira consensual (os corpos das vítimas dos atentados, os combates no território afegão)." (ibidem)

"O futuro das máquinas inteligentes, creio eu, reside menos nos peritos ou nos filósofos da inteligência artificial do que nos engenheiros informáticos e cientistas - hardware e software designers - que, ignorando o debate, irão onde quer que a compreensão tecnológica e científica os possa levar."
"The Dreams of Reason" (Heinz Pagels)
Se o debate tivesse alguma importância no futuro científico e tecnológico, poderíamos esperar que as considerações éticas jogassem nesse futuro algum papel, poderíamos esperar alguma espécie de controlo e de compreensão sobre uma questão tão crucial para a humanidade.
Mas a perspectiva de Pagels, com a qual, infelizmente, tenho de concordar, pois é a repetição dum processo conhecido, sobretudo desde que deixámos para trás a física clássica, é duma crescente independência do sistema técnico-científico, o qual descolou de quaisquer objectivos "antropológicos" em favor dos do universo da lógica e corresponde, cada vez mais, à definição do que, por exemplo, Niklas Luhmann caracterizava como um sistema autónomo face ao ambiente humano.
A questão parece insolúvel, visto que o primado da filosofia e da ética interromperiam o processo revolucionário do desenvolvimento técnico-científico.

"Recorrendo à maravilha dos poetas gregos que tanto amava; recorrendo, como vimos, embora talvez inconscientemente, à linguagem dos profetas, Marx fala, e volto a citar, da 'infância social da humanidade, onde a humanidade se manifesta em completa beleza.' E quando voltamos a perguntar, com impaciência crescente, em que consiste a queda do homem? Que pecado cometemos?, o marxismo não consegue responder."
"Nostalgia do Absoluto" (George Steiner)
Se não tivéssemos atrás de nós, na infância ou numa qualquer idade de oiro, a fonte da inspiração, poderíamos reconhecer a imperfeição do presente?
Como diz Simone Weil, não pode ser o futuro a inspirar-nos porque ele nada é ainda. Mas também não recorremos a um passado abstracto, a uma tradição em que não nos sintamos incarnados.
Talvez que a infância, a sua maravilhosa ausência de lastro, a sua leveza seja mais um lugar do que uma idade do homem. Um lugar que não pode existir em lado nenhum porque já prescreveu. E essa é uma definição da utopia.

"A natureza daquilo que aconteceu pode transformar-se brutalmente. Segundo Lotman (*), com efeito, o objecto observado é totalmente modificado conforme seja observado do passado para o futuro, ou do futuro para o passado. Visto a partir do passado e na direcção do futuro, o presente mostra-se como o conjunto complexo de toda uma série de possíveis, todos igualmente dotados de probabilidade. Pelo contrário, visto na direcção do passado, o real passa a adquirir um estatuto factual. Tornou-se o único possível. Quanto aos possíveis não realizados, tornam-se possíveis que nunca se poderiam ter realizado. Retrospectivamente, tornam-se quimeras."
"Semiótica do Acontecimento e Explosão?" (Jorge Lozano)
O "Iluminado" ou o "Grande Educador" vêem já todos os possíveis do futuro no passado como consequência do seu único possível.
Quanto maior é a sua fé, mais quiméricas lhes parecem as alternativas e, na verdade, impossíveis.
Em que espécie de tempo vivem pois estes sumo-projectistas?
Nalguns casos, os que chegam a ter alguma importância histórica, parece que, de certa maneira, afunilaram o tempo, o seu e o dos outros.
Porque o futuro, e não só o futuro anterior (o da psicanálise, por exemplo), pode realmente moldar o presente.
(*) Yuri M. Lotman, Cultura y explosion

"'Não é necessário um choc revolucionário como na revolução francesa ou russa. Cada país tem uma rotura revolucionária diferente segundo a sua história, a sua realidade.' O senador Fortunati é um homem de cultura, e até o melhor cérebro do comunismo bolonhês. Pergunto-lhe se depois da rotura revolucionária, por ele perspectivada, a ciência e a arte permaneceriam livres. 'Libérrimas', responde,' com uma única restrição: a nova sociedade terá o direito de se defender contra as formas de arte que têm como substracto uma realidade económico-social superada'. Por exemplo? pergunto. Responde: 'A pornografia.' e aqui estamos de acordo. Depois, acrescenta: 'A evasão.' Ai de mim! abrem-se fúnebres perspectivas."
"Viaggio in Italia" ( Guido Piovene)
Piovene percorreu o seu país de 1953 a 1956 e deixou-nos no relato dessa viagem páginas cheias de observações curiosas como estas.
E a resposta do senador Fortunati não é assim tão anacrónica quanto isso, em relação ao que se passa ainda hoje em Portugal.
Continua-se a pensar em termos de causa e efeito as relações da arte e da ciência com a sociedade, como se tivessem a simplicidade da mecânica.
Claro que a influência da arte "não alinhada" (que Goebbels, por exemplo, discriminava como decadente) não parece, na inactualidade da "rotura revolucionária" uma prioridade da defesa. Mas é outra a ideia do senador. Ele acredita que tanto a arte quanto a ciência fazem parte da luta ideológica contra os inimigos de classe. É esta maneira de pensar que explica os impasses do academismo oficial na arte e as teorias estapafúrdias dum Lyssenko no campo da genética.
Mas aqui o argumento procura a maior base de apoio possível e por isso apela ao moralismo burguês, incluindo nas restrições a pornografia e a evasão (evidentemente a definir pelo ministério do interior).

"E assistimos a este paradoxo: enquanto que as imagens da Guerra do Golfo pareciam irreais, isoladas do terreno, o espectáculo de 11 jovens fechados num estúdio dava a sensação de abarcar o real!"
"O Terror Espectáculo" (Daniel Dayan, dir.)
O programa de televisão "Big Brother" era em tudo artificial (conforme a obra citada, os participantes comunicavam com o exterior, os votos eram manipulados e, pior de tudo, o directo era falso), mas assentava na "promessa dum mundo autêntico mostrado tal e qual por 25 câmaras e 50 microfones."
Os espectadores, contudo, talvez não reagissem de maneira diferente se soubessem desde o princípio que tudo se iria passar como se passou. A conversão da propalada realidade no espectáculo que realmente era não importava muito. Seria uma espécie de telenovela sem guião, com suficientes atractivos para o voyeurista médio.
Mentiu-se, é certo, mas como mente a publicidade.
As pessoas já devem saber que a televisão tem horror ao real. Mesmo as imagens da guerra têm de ser desformatadas e reintrepretadas.
Por isso, na era da televisão, a situação da belle âme de que fala Hegel é muito de lastimar. Sofre inutilmente pelo que nem sequer é o que pensa.

"Bohr, de um certo modo, afirmava que a mecânica quântica não era compreensível; que só a física clássica o era e que nós tínhamos de nos resignar com o facto da mecânica quântica apenas ser parcialmente compreensível, e mesmo assim apenas através da física clássica. (...) Eu suspeitava que a teoria de Bohr estava baseada numa visão muita estreita do que a 'compreensão' podia conseguir. Bohr, assim parecia, pensava a compreensão em termos de imagens e modelos - em termos duma espécie de visualização."
"The Unended Quest" (Karl Popper)
Popper nega que a teoria quântica especificamente represente um argumento contra o determinismo.
"O que é peculiar à teoria quântica é (fase-dependente) a interferência da probabilidade" e os "problemas de interpretação da mecânica quântica podem todos ser convertidos em problemas de interpretação do cálculo de probabilidades."
O filósofo põe igualmente em causa o chamado princípio de indeterminação de Heisenberg: "errada interpretação de certas fórmulas que certificam uma dispersão estatística."
A aparente indeterminação das leis que regem a matéria poderia, assim, ser imputada ao condicionamento a que sujeitamos a medida dos nossos instrumentos e à leitura que fazemos dos seus resultados, tudo fundamentado num contexto sensorial, perceptivo e cultural. Por outras palavras, não desantropologizamos o bastante para poder captar as regularidades e os períodos mais longos ao nível da microfísica, por exemplo, pois tudo isto ultrapassa em muito a "escala humana". A incerteza pode esconder a "certeza" se ampliarmos o suficiente.
Esta situação não seria possível sem a potência e a velocidade de cálculo dos computadores. Estarão eles a impor-nos a passagem dum limiar absoluto, para lá do qual já não tem sentido falar em humanidade?
O computador não é uma prótese, como o telescópio, por exemplo. Ele amplia a régie das próteses que é o cérebro humano. Se admitirmos que a máquina não pode compreender, o que resulta do acoplamento humano com o computador é um acréscimo de poder e não de compreensão. Com efeito, a quem pertence a inteligência estratégica nesse híbrido de cérebro e máquina?
A profecia de Hal 9000 ("A Space Odissey") é uma das respostas.