
(José Ames)

"A 22 de Outubro, a Assembleia declarou que ninguém seria eleitor se não pagasse em imposição directa, como proprietário ou locatário, o valor de três dias de trabalho (ou seja, no máximo, três francos).
Com esta linha, tirou das mãos da aristocracia um milhão de eleitores dos campos."
"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)
Robespierre e outros "objectaram inutilmente que os homens eram iguais, e portanto todos deveriam votar, nos termos do direito natural.
(...) Na crise em que se estava, nada mais vão, mais funesto que esta tese do direito natural. Os utopistas, em nome da igualdade, davam um milhão de eleitores aos inimigos da igualdade." (ibidem)
Não sei se os então utopistas poderiam hoje ser chamados de democratas.
Eles lutavam por um princípio que, na época, era revolucionário, mas que podia ser prejudicado pela lógica da Revolução.
Para Michelet, intuitivo e pragmático, não havia dúvida que o princípio devia ser protegido de si mesmo e que a Revolução traria na ponta dos chuços a almejada igualdade.
Este tacticismo provou ser a melhor demonstração da fórmula saliniana: é preciso que tudo mude, para tudo ficar na mesma,
Mas não podemos ignorar que se ainda hoje a igualdade é uma utopia, já não o é como em 1789.
E talvez devêssemos distinguir as utopias, conforme elas se situam no futuro e inspiram a acção dos homens, ou no passado e, presas das contradições resultantes de experiências históricas negativas, são incapazes de dar asas às palavras e às ideias.

Em "A lenda da Fortaleza de Surami", de Sergei Paradjanov (1984), um jovem deixa-se emparedar na muralha para a manter de pé, contra os inimigos do seu país. E reza a moral da história que é invencível o povo que é capaz de tal sacrifício.
Não há, claro, qualquer relação física entre essa imolação e a consistência da fortaleza.
O gesto do jovem Zourab é, no entanto, o maior desafio que se pode fazer à imaginação. E se a ideia lhe é inspirada pela Pítia (ela própria emparedada na sua vidência) e é imediatamente eficaz, é porque opera aqui o realismo dos símbolos.

"Então Diogeniano declarou que muitas vezes se admirava com a pobreza e simplicidade dos versos nos quais se exprimem os oráculos. "E, contudo, o deus é o chefe das Musas, e não devia importar-se menos com chamada elegância de expressão do que com a beleza do ritmo e musicalidade do canto, e com exceder em muito, na excelência da sua poesia, a Hesíodo e a Homero. Todavia, o que nós vemos é que a maior parte dos oráculos trasbordam de erros de métrica e de estilo, e estão repletos de banalidades.""
"Por Que Razão a Pítia Já Não Dá Oráculos em Verso" (Plutarco)
Plutarco (50/125 DC) escreveu estas linhas politicamente incorrectas, apesar de ter exercido as funções de sacerdote de Apolo em Delfos.
Deve ter sido uma decisão difícil de tomar pelos servidores do Oráculo essa da passagem do verso à prosa.
A poesia permitia a ambiguidade e uma certa obscuridade, deixando a interpretação ao gosto de cada um:
"De facto, não era um qualquer que ia lá consultar o Oráculo sobre a compra de um escravo, ou sobre a sua ocupação, mas sim cidadãos poderosos, reis e tiranos, cujos pensamentos nada tinham de moderado, que iam procurar o deus para regular o seu procedimento. Ora não era vantajoso para os que se encontravam no santuário contrariá-los e irritá-los com respostas alheias aos seus desígnios." (ibidem)
Sabemos, além disso, do risco que correu o astrólogo de Tibério, quando as suas profecias lhe desagradavam.
Por outro lado, a poesia deixa muito melhor transparecer uma origem não "inspirada" e a sua incompetência formal.
Nunca saberemos qual teria sido a influência das parábolas do Evangelho despidas da sua beleza formal, mas é muito provável que sem a admiração universal que as acompanha não tivessem sobrevivido às primeiras dentadas da razão crítica. E que deus escaparia ao ridículo de não se saber exprimir?
De prudência em prudência, o Oráculo de Delfos extinguiu-se na redundância da sua prosa.

"Os grandes físicos do Renascimento - Copérnico, Galileu, Kepler, Gilbert - que se viraram de Aristóteles para Platão, pretendiam com esse gesto substituir as substâncias ou potencialidades qualitativas de Aristóteles por um método geométrico para o estudo da cosmologia. Foi isso, na verdade, o que o Renascimento (na ciência) em ampla medida significou: um renascimento do método geométrico, que foi a base das obras de Euclides, Aristarco, Arquimedes, Copérnico, Kepler, Galileu, Descartes, e que se tornaria igualmente o alicerce das obras de Newton, Maxwell e Einstein."
"Conjecturas e Refutações" (Karl Popper)
Para Popper o grande feito filosófico de Platão foi o da geometrização do mundo.
Se pensarmos que a palavra platónico passou ao uso comum, geralmente aplicada ao amor, como designando um sentimento ideal e sem concretização física, não podemos deixar de encontrar aqui uma ironia da História.
A geometria são as ideias aplicadas à matéria e ao espaço, segundo Popper, como uma solução para a crise provocada pelos números irracionais no método aritmético dos pitagóricos.
E o elemento ideal no amor é também uma espécie de solução para a ambivalência de Eros. O tudo físico, se isso for possível na nossa espécie, contém a negação do amor (como se vê no imaginário associado ao acto de comer).
Por isso, todo o amor é, de algum modo, platónico, ou não é. E tal como no mundo da Física, porque o mundo é pensado ou não é.

"As pessoas que sentem orgulho em serem práticas incomodam-me tanto quanto aquelas que têm orgulho em não o serem. Ambas podem sofrer de falta de visão."
Ian Stewart ("Cartas a Uma Jovem Matemática")
A mim sempre me pareceu que os orgulhosamente práticos simplificam demasiado apenas por preguiça intelectual.
Por não gostar de viver num mundo "plano" e por pensar que o critério da eficácia é perfeitamente compatível com a falta de realidade e com as ilusões da "tribo", para dizer como Bacon, tenho tendência para ter mais apreço pelos que parecem não ter "os pés assentes na terra", por estarem demasiado ocupados a sonhar ou com questões para as quais não se vê utilidade nenhuma.
Mas talvez se tenha de aplicar aqui uma versão modificada da fórmula de Lavoisier. Não há teorias úteis nem inúteis, só a prática pode ser uma coisa ou outra.
Para alguns, a escolástica da Idade Média foi um grande desperdício intelectual, mas esse longo período sem realizações técnicas pode tê-las preparado como o sono ou o subconsciente preparam as nossas melhores ideias.

A primeira impressão perante um rosto destes é a da sua intensidade.
O actor, neste e em outros papéis, tinha uma representação tão veemente, tão absurdamente enfática era a sua fala, que sou levado a explicar por uma qualquer qualidade "consumptiva" o facto dos seus olhos, em "Venus", terem perdido o brilho e o cansaço do seu corpo estar numa espécie de "fading in".

"Eu acho que a matemática humana está mais intimamente ligada às nossas fisiologias, experiências e preferências psicológicas específicas do que nós imaginamos. É paroquial e não universal. Os pontos e linhas da geometria podem parecer a base natural para uma teoria das formas, mas são também as características segundo as quais o nosso sistema visual, por qualquer razão, disseca o mundo."
"Cartas a Uma Jovem Matemática" (Ian Stewart)
Mas como seria concebível que a nossa razão, o nosso aparelho conceptual, fossem independentes da fisiologia do cérebro, da história da evolução da espécie?
Os produtos dessa razão podem tornar-se o Mundo 3 de Karl Popper, mundo ao mesmo tempo ideal e objectivo, mas a menos que se acredite numa espécie de inoculação do transcendente, durante o processo, a própria razão deverá ter a nossa forma e a linguagem matemática é a nossa linguagem e não o "esperanto" do universo.
Se não tivéssemos uma mão com cinco dedos, poderíamos chegar à teoria dos números e aos sistemas digitais?

O mal-estar do corpo, a imprudência no trabalho que faz seguir um gesto a galope chamam a tristeza. E é próprio do homem triste empalidecer o sol e fazer dum passeio um beco sem saída. O pensamento não nos socorre com nenhuma ideia grata. É o corpo que elimina mal ou se desequilibra que nos pensa. E o melhor é mudar de posição e despedir a voz pretensiosa que nos condena. Nesse momento, a moratória pode salvar-nos.
Diz-se bem que não há problema que o tempo não resolva; mas para tal é preciso julgar sempre contra a tristeza. O homem caído não tem perspectivas. E a verdadeira riqueza é ser pobre em espírito, como reza o evangelho. Quem se afunda num estado contrário à vida sobretudo busca justificar-se. A ideia mais intolerável é a de termos cedido a uma força que não controlamos, mas que está à nossa guarda. O homem apaixonado tornará então o que é do corpo numa verdade metafísica. Ele obstina-se em permanecer no chão dizendo a si mesmo: fui eu quem o quis.
É verdade que não basta lutar contra essa tendência para espiritualizar o mal. Deixar passar a nuvem sombria pode ser superior às forças duma pessoa. Porque pressupõe que esse excesso de energia destruidora desapareça sem acção, nem mudança de objectivo. O trabalho desvia a atenção, mas a companheira trágica não se foi embora. Se não se abriu energicamente a cortina, a criatura da noite persegue-nos a todas as horas como num sonho. Essa companhia pode fazer um carácter e a obra poética dum condenado ao suicídio. Contra esse espírito que não crê em si, a coragem. Atravessar o túnel, apesar de tudo. A ideia de que o carrasco está em mim. E que o universo pelo contrário me deixa livre.
Tudo é misterioso e no entanto claro, se nos decidirmos a viver a perfeição que nos é própria. Tudo isso que nos foi dado nos ultrapassa imensamente, se tirarmos a venda das paixões. É o erro que limita. Que nos fecha no túmulo sonoro da vaidade. Quem se abandona descobre que o perdão é fácil, e é sempre a si mesmo. Mas não é só o que o homem nos diz na sua falsa solidão que acalenta os pensamentos negros. Há outras formas subtis de fazer mal ao espírito; em nome do sacrifício ao dever e à causa dos outros, somos às vezes uma engrenagem que a máquina não reconhece. A todo o momento, a vigília do corpo ganha o seu repouso. É verdadeiramente o templo da vida tornado metáfora da máquina, o corpo que perde o sentimento dos seus limites e da forma humana.
O trabalho para mim não raro é uma queda na dimensão mecânica, donde saio destrambelhado e gasto. Tão diferente é esse esforço, que nos desapossa, da acção livre, sempre consciente da fronteira e do poder da decisão. Uma outra maneira de ceder à tristeza sob o título do dever cumprido. É então surpreendente o efeito produzido pela leitura dum texto denso que nos descobre pouco a pouco a luz, no que é talvez o movimento da alegria.
Teimando em decifrar as linhas do esoterismo magnífico, regresso às ruas com a alma ligeira dum inspirado dos deuses.

Morreu Jean Baudrillard. Desde o "Sistema dos Objectos" que o sortilégio das suas profecias me tem acompanhado.
Mas o que ele diz do simulacro que já substituiu a realidade pode ser vivido?
A nossa razão revolta-se perante esta ficção teórica ao jeito de um John Carpenter. É como se, com esta leitura, dispuséssemos de óculos para ver que tudo está do avesso.
Mas é talvez fazer uma injustiça ao que, no seu excesso, nos aponta, apesar de tudo, uma tendência real.
Em "L'Échange symbolique et la Mort", pode ler-se "No quadro "neo-capitalista" (tecno- e semiocrático), esta forma sistematiza-se a expensas da referência "objectiva": significados e valores de uso desaparecem progressivamente em exclusivo proveito do funcionamento do código e do valor de troca."
Isto, escrito em 1976, antes da Internet e da realidade virtual, na sua abstracção, não deixa de ser o caminho de uma crítica ainda possível, depois da derrocada dos mundos "alternativos".
Mas é uma voz que clama no deserto.

"Não existe nada de tão aborrecido na vida, muito menos no cinema, como o aborrecimento de estar excitado o tempo todo."
Anthony Lowe
Somos feitos de tal maneira que a obsessão pelo prazer é o meio mais seguro de nunca o alcançarmos.
Precisamos dos contrastes, das diferenças de humor e de regime para que as próprias sensações tenham alguma vivacidade.
No sentimento, já há algo de incondicional, constitutivo da personalidade, como se, mesmo sem termos consciência disso, tivéssemos feito um juramento.
O hedonismo tem, pois, que estar acima da pura perseguição do prazer, sendo uma estratégia que procura, também, necessariamente, a distracção, a mudança de objecto, o táctico desinteresse, o repouso e o sono.
Há toda uma economia das forças e do tempo que aproxima o verdadeiro hedonismo da sageza.
E os escravos do aborrecimento são, na verdade, os que confundem o prazer com a dependência do seu cérebro duma permanente excitação.
De facto, não podemos desconhecer a gravidade do prazer, quanto mais não fosse, por conduzir os homens aos fins da Natureza melhor do que a força ou a razão.