
Lamas de Mouro (José Ames)

"Um código ideal por contraste não deixa praticamente espaço para variantes, e a individualização é só possível como desvio. Só as figuras negativas podem ser graficamente retratadas, tal como só existe uma saúde, enquanto existem numerosas doenças que por sua vez determinam diferentes destinos individuais."
"Love as Passion" (Niklas Luhmann)
Quando as contradições invadem o ideal este pode ser, aparentemente, uma coisa e o seu contrário. É aquilo a que Luhmann chama de paradoxalização do ideal.
Se esse é o caso nas nossas sociedades mediáticas, tolerantes e "politicamente correctas", podemos também perceber como o entusiasmo e a fé militante dependem da fortificação do ideal através de uma interpretação independente do mundo e da lógica, com alguns traços paranóides.
Enquanto vontade, a inspiração num ideal imune ao paradoxo (e ao confronto com a realidade) é uma força de problematização política incomparável.
A esperança dos "laicos", infelizmente presas do paradoxo, é que, a longo prazo, não só estaremos todos mortos (como dizia Lord Keynes), mas também essas ilusões se queimarão no vidro da experiência.

"Digamos numa palavra que Mme Verdurin, mesmo fora das mudanças inevitáveis da idade, não se parecia já com aquela que tinha sido no tempo em que Swann e Odette escutavam em sua casa a frasezinha. Até quando a tocavam, ela já não era obrigada ao ar extenuado de admiração que ela tomava outrora, porque este se tinha tornado o seu rosto."
"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)
Tal como o vício toma conta do corpo e se estampa no rosto, a tensão permanente causada por uma afectação de sensibilidade tinha-se tornado a máscara da "patronne".
Ao abrigo dessa máscara, o pensamento de Mme Verdurin podia alhear-se completamente da música.
A deformação da sua fronte (como a dos membros pelo reumatismo, diz Proust) fora esculpida pelo esforço da vaidade, ideia que nos faz irresistivelmente evocar o romance de Wilde.
Se o retrato se corrompe na tela enquanto Dorian Gray permanece afrontosamente jovem, o espírito musical de Mme Verdurin, liberto de todas as convenções, entrega-se a orgias de sensibilidade imaginárias enquanto a máscara esconde a devastação da sua alma.

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"Este problema do arbitrário político no topo da hierarquia deixa aparecer um estado de facto que se pode formular de maneira geral: na medida em que os sistemas adquirem a sua própria autonomia pela perdiferenciação, tornam-se igualmente as causas (ou pelo menos uma parte das causas) dos seus próprios problemas."
"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)
Luhmann conclui que o problema próprio do sistema político é, então, que o sistema tornado arbitrário não precisa menos de ser controlável.
E cita entre os paradoxos que uma tal situação favorece a teoria da "Mão Invisível" de Adam Smith. Aqui, a contradição entre o interesse egoísta dos indivíduos e o bem público, no sistema económico, seria resolvida por uma instância de autocontrole do sistema, uma espécie de termostato automático.
É evidente que uma tal função seria de todo o interesse do "arbitrário político", pois que é a condição de ele se manter, enquanto sistema. Daí que a famosa "Mão Invisível" se possa traduzir por aquilo que Luhmann chama de auto-descrição do sistema e que se parece realmente muito com o que Marx definiu como ideologia, mas que aqui é não apenas uma visão interessada do mundo, mas um processo regulador.

"O mesmo acontece com o nosso passado. É trabalho baldado procurarmos evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência são inúteis." Por isso Proust não hesita em afirmar, em síntese, que o passado "está escondido, fora do domínio e do alcance da nossa inteligência, em algum objecto material [...] de que não suspeitamos. Depende do acaso encontrarmos esse objecto antes de morrermos, ou não o encontrarmos."
"Proust, citado por Walter Benjamin in "A Modernidade"
Faz tanto sentido esta espacialização da memória que nos espanta termos tido que esperar pelo século XX para podermos colher a sua ideia nas páginas do grande romance sobre o tempo.
A nossa inteligência não tem acesso a esses "arquivos" porque é eminentemente prática. A menos que, como Proust, dedicássemos a nossa vida à busca do passado real (que se prolonga no presente e explica as nossas inclinações mais secretas), a lenda, a poesia do tempo não chegam à consciência.
A utopia deste pensamento é a dumas águas-furtadas contendo todo o passado sob a forma dos mais diversos objectos que tiveram algum significado para nós. Bastaria abrir o baú para a infância regressar na sua inocência e virgindade.
Mas é claro que abdicamos de toda a ideia de acção, nessa cerimónia. E é por isso que a inteligência nunca nos dará a chave dessas águas-furtadas.

"(...) Para usar uma variante de uma expressão de Bruno Bauer: só pode descobrir quem conheça melhor a sua presa do que ela se conhece a si própria, e é capaz de a sujeitar com base numa superioridade da educação e do saber."
Carl Shmitt (in "Der Nomos der Erde", citado por Peter Sloterdijk)
Isto, no contexto dos descobrimentos marítimos dos séculos XV e XVI e dos nomes com que os europeus crismaram os povos e as terras incógnitas.
É evidente que a dita superioridade não assenta no conhecimento da "presa", embora ela também não se conheça a si própria.
A lei da guerra e da conquista impõe, pelo contrário, o desconhecimento.
É a paz que precisa de se justificar. Mas a propósito da antropologia da conquista só podemos parafrasear Clausewitz, que é a continuação da guerra por outros meios.

"Mesmo a intuição de que há formas de informação em cada um dos nossos humores, em cada uma das nossas especulações e particularmente no modo como vemos a outra pessoa, as quais a outra pessoa não suportaria ouvir, não chegaria ao fundo do nosso problema. O problema em questão é muito mais radical e centra-se em saber se não há sentido - especialmente nas relações íntimas - que é destruído em virtude de se falar nele."
"Love as Passion" (Niklas Luhmann)
A incomunicabilidade no amor teria sido, segundo este autor, uma das descobertas que o século XVIII deixou à posteridade.
O problema não residia numa falta de habilidade, mas na "falta de capacidade para a sinceridade."
Aquele século levou a retórica ao extremo de se perder a fé nas palavras. Se houve um tempo em que duas pessoas pensavam comunicar através de formas convencionais, o excesso do artifício despertou as consciências para o "erro de comunicação".
Podemos entender essa situação tanto melhor quanto a retórica da publicidade invadiu todo o espaço da comunicação.
Não há situação real que não encontre um modelo virtual nos mass media, e se o romance foi responsável, um século atrás, por uma certa ideia do amor, percebemos quanto a comunicação (da sinceridade) depende de se evitar ser "rastreado" pelo código dos media.
Quando isso se torna impossível ou demasiado difícil, ambos os parceiros, como diz Luhmann, podem achar preferível a não-comunicação ao erro de comunicação.

Les structures nerveuses impliquées dans la régulation du sommeil,
se situent essentiellement à la base du cerveau, dans le tronc cérébral.
http://www.museum-marseille.org/marseille_cerveau_sommeil.htm
"Uma investigação histórica descobre tais afinidades mais rapidamente, ao demonstrar como um sistema existente ou uma semântica consistentemente ordenada e completamente formulada predetermina o seu próprio futuro (mesmo se em princípio deva ser pensado como indeterminado). Isto é mais evidente na história da ciência: dificilmente pode ser puro acaso que as descobertas científicas sejam espoletadas e que subsequentemente se prove serem verdadeiras. A verdade torna-se manifesta dentro do processo."
"Love as Passion" (Niklas Luhmann)
Ocorre-me aquela situação, tão comum mesmo fora do mundo dos cientistas, em que, à volta com um problema, nos entregamos à corrente dos afazeres e, à noite, adormecemos sem pensar mais no assunto, para acordarmos, de manhã, com uma solução.
É também evidente aqui que não foi por acaso que a ideia nos surgiu. O trabalho da vigília como que montou a semântica do problema, e o back office inconsciente apenas a desenvolveu (o sistema predetermina o seu próprio futuro).
Quando nos envolvemos numa acção cujas consequências futuras não prevemos, mas que podem ser drásticas, a que é que chamamos realidade?
Ao presente e à cadeia de efeitos que temos diante dos olhos ou a todo o invisível desenvolvimento disso?
Parece-me que a irrealidade é considerarmos o que somos agora, sem o passado e sem o futuro que já pusemos em marcha. Não podemos, então, apreender algo de real sem o tempo.
E o realista é aquele que sabe que apenas vislumbra um interstício entre o passado e o futuro.
O oposto disso é o absolutismo do aqui e agora.