quinta-feira, 23 de junho de 2011

(José Ames)

A BORBULHA




“Ninguém é tão susceptível, nem mesmo uma mulher bonita que se levanta com uma borbulha no nariz, quanto um autor ameaçado de sobreviver à sua reputação.”


“Le neveu de Rameau” (Denis Diderot)


A consciência de que perdemos o talento ou de que uma borbulha se apresenta antes de nós pode causar mau humor a mais do que um Cyrano. Mas o herói de Rostand “pega o toiro pelos cornos” e faz uma glosa em vários tons do seu nariz. Nenhuma mulher bonita poderia fazer o mesmo sem se tornar pedante e sem renunciar à graça para sempre, porque uma beleza tão dependente da opinião não merece o nome que tem.

Ora, no cinema, a sobrevivência à reputação da beleza é uma questão de tempo, e eu não tenho conhecimento de actores ou actrizes a quem isso dê mau humor. Ou conheço casos extremos como o da Garbo que se recusou a lidar com o problema, exilando-se.

É que ao contrário da beleza que se alimenta da memória dos outros, essas estrelas brilham sempre no nosso ecrã, por isso as sobreviventes não envelhecem como nós. Têm o halo que nos impede de ver numa velha carcaça o final da história.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Lisboa (José Ames)

HARPIAS E HEROÍNAS

"The Remorse of Orestes" ( William Bouguereau)


“A Resistência fez-me compreender o que eram as mulheres. Tinha conhecido algumas, mas não me dava conta até que ponto elas têm, mais do que nós, formas de coragem e de espírito de resistência. Não cedem. Têm uma capacidade de se agarrar, absolutamente extraordinária. Se não houvesse mulheres, não o teríamos conseguido.”

(Entrevista de Jean-Pierre Vernant ao “Nouvel Observateur”)



Na mesma entrevista, Vernant refere-se à réplica de Aquiles a Agamémnon:  “- Tu és um poltrão, porque não estás pronto a cada instante a dar a tua alma (psyché).”

Há valores que são mundanos e que se podem trocar, mas a própria vida não se negoceia nem se recupera. “É o que diz Aquiles a Agamémnon. E  porque ela é o que há de mais precioso, há nela qualquer coisa que a transcende. Quer dizer, não pode ser aviltada por compromissos. Há momentos em que não há escolha, em que não há compromisso possível, nem meias-medidas. É tudo ou nada.”

É esse irredutível que as mulheres compreendem melhor do que os homens. Mas, como em tudo, há as duas faces. A mulher pode ser também a harpia a cavalo do canhão, como se viu em certas fases da Revolução Francesa.

terça-feira, 21 de junho de 2011

(José Ames)

A HIPOCRISIA



“Já Gregório o Grande tinha reconhecido que o hipócrita serve os interesses do século porque, mesmo que não faça mais do que simular uma intenção recta, ele realiza efectivamente a acção que esta intenção implica.”

(Benoît Timmermans)



Apesar do papa pensar assim sobre a hipocrisia, não deixou de remeter para o Índex o tratado de Castiglione sobre a arte do parecer, pela qual se devia guiar o cortesão.

Mas a questão é bem mais profunda do que o simples fingimento porque, na verdade, só não seriam “hipócritas”, só não se esconderiam sob a máscara, os que resistissem com a fé dos crentes às dúvidas que os pudessem assaltar, sobretudo quando se encontram em posições que pressupõem determinadas “certezas”. Ou no caso extremo de Jean Meslier (1664/1729), que foi padre durante quarenta anos nas Ardenas e que deixou, na sua morte, um testamento contra todas as religiões e que Voltaire publicitou.

Gregório o Grande não podia, como papa, advogar a hipocrisia, o que quer que pensasse da sua utilidade, mas casos como o de Jean Meslier dão-lhe razão.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Praia da Ursa (José Ames)

AS FLORES DA TERRA

"Fleurs dans un vase" (Renoir)



“Pra minha imperfeição está suspenso
Em cada flor da terra um tédio imenso.”

Sophia (“O Dia do Mar”)



Não vamos de maravilha em maravilha, nem podíamos. Não é o sono a melhor prova de que a presença está ligada por um cordão secreto à pura ausência?

Nem a infância está livre do tédio, apesar de, para ela, tudo ser novo. É no reino das palavras que a criança é imperfeita, mas a natureza também não a salva do tédio.

Se calhar, é só por causa da simetria e da lógica, e por contraste com a alegria, que inventámos o tédio.

No poema, o tédio vem-nos de não sermos deuses, como se o Olimpo fosse um modelo de vivacidade...

domingo, 19 de junho de 2011

(José Ames)

ESCREVER



“Segundo Barthes, no prefácio à ‘Vie de Rancé’, ‘a anamnese é uma operação exaltante e lancinante; esta paixão da memória só se sacia num acto que confira finalmente à recordação uma estabilidade própria da essência: escrever.’”


(Sarah Vadja in “Chateaubriand: o Enchanteur contra os Panfletários – uma estética do desgosto”)



A psicanálise recorre à anamnese para dar um contexto narrativo aos sintomas do neurótico. Se pudermos contar a nossa história, podemos seguir em frente, porque encontramos o sujeito da acção.

Barthes refere-se a uma paixão da memória que significa, no fundo, um desejo de salvação. Quando essa paixão se converte em escrita, é para salvar o passado da anulação e do esquecimento, o que não faz ainda o escritor. Para este, nesse sentido, tudo é passado e a vida confunde-se com a sua (re)produção. Mais do que a “estabilidade da essência” o que ele procura é o fantasma da ubiquidade e da acção ilimitada.

sábado, 18 de junho de 2011

Aveiro (José Ames)

OS PEDREIROS




Nos “Pedreiros” de Courbet (de 1849, destruído durante os bombardeamentos de Dresden, na última guerra mundial), há uma luz igual e os homens têm  a cor da pedra. Não lhes vemos os corpos, coisa que seria exótica, ainda um ou dois séculos antes, quando aquelas atitudes seria um pretexto para o gosto do classicismo tardio. Veríamos, então, estátuas convertidas ao plano da pintura, só havendo que transformar a pedreira num contexto mitológico.

A nova estética de Courbet, em comparação, chamou-se de realista. Para trás ficaram, também, os efeitos dramáticos do “chiaroscuro”. Aqui não se representa nada, nem sequer aparecem vestígios de psicologia. Os rostos não são visíveis, não nos é pedida a menor identificação emocional. Não é o trabalho, nem a “questão social” que vemos neste quadro. Os homens confundem-se com a paisagem mineral. O desenho é nítido e pormenorizado segundo a ética descritiva do realismo.

Se há um destino nestas duas figuras, ele parece inexorável e confundido com as forças da natureza. Parece que estamos muito longe da crítica social. No entanto, uns meses antes fora publicado o “Manifesto Comunista”.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

(José Ames)

GODOT

Samuel Beckett (1906/1989)



“Vladimir – Sim, tu conhece-los.
Estragon – Não, não os conheço.
Vladimir – Nós conhecemo-los, digo-to eu. Tu esqueces tudo. (Pausa. Para si mesmo) A menos que não sejam os mesmos…
Estragon – Por que é que eles não nos reconheceram então?
Vladimir – Isso não quer dizer nada. Eu também fingi não os reconhecer. Além disso, nunca ninguém nos reconhece.”

(“À espera de Godot”, de Samuel Beckett)



As pessoas quando se zangam, também não se “reconhecem”, conhecendo-se muito bem. E é como se perdêssemos uma parte do mundo. Não é possível ir ali ou por ali. Nada revela melhor a utopia dum mundo de relações cortadas. Não tínhamos para onde ir.

No entanto, o indivíduo parece continuar inteiro, com o seu “mundo interior”, com um ídolo no lugar de Deus.

Alguém assim, só pode começar, por exemplo, a descrever a sua experiência quando se reconciliar, nem que não seja na actualidade.

Godot é o que permite aos dois vagabundos falarem. Pelo menos com ele estão de bem.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Toledo (José Ames)