segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A ADAPTAÇÃO DO ESQUELETO

http://www.osteopathie-france.net

"Por outro lado, existem aqui também organizações autónomas apresentando resistências à adaptação, em particular sob a forma da burocracia estatal e das suas extremas necessidades securitárias, mas também sob a forma de partidos políticos, de sindicatos ou de outros grupos de interesses que se fixaram numa imagem interna do seu próprio sucesso organizacional - e isto muitas vezes sem se quererem dar conta do facto que as condições externas se modificaram grandemente. Nenhuma destas organizações é, no entanto, capaz de realmente testar as condições ambientais do seu êxito, e cada uma se atem antes de tudo à sua própria redundância."

"Politique et Complexité" (Niklas Luhmann)

"As condições ambientais do seu êxito" significaria o quê? Simular até que ponto uma organização está dependente de certas trocas de informação com os outros sistemas e das relações com o seu meio ambiente?

Isso não é, evidentemente, possível, quer dizer que o teste é a experiência real que força à adaptação, a bem ou a mal. Por isso, toda a retórica a favor da flexibilidade e da adaptação soa a parti-pris ideológico; como se as organizações e os indivíduos pudessem preparar-se para a mudança de que não se sabe o sentido, e quando se desconhece até que ponto a flexibilidade compromete a outra face do sucesso: a duma estabilidade mínima das organizações.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

(José Ames)

ONDE ESTÁ O PROFANO?


Claes Oldenburg, Colher de Jardineiro, Serralves


"Mas na realidade, a introdução de certos objectos profanos no contexto da memória cultural torna difícil dar-lhe um outro uso cultural. Nenhum museu tem necessidade de outro urinol virado do avesso se já possui um. Se se quiser reintroduzir uma coisa profana na tradição valorizada, deve-se começar por mostrar a realidade do seu carácter profano, quer dizer, o que a diferencia de todas as coisas que antes foram valorizadas."
"Du Nouveau" (Boris Groys)

Devia ser fácil dizer: isto não é arte! Uma cena de praia, uma paragem de autocarro com a sua fila de passageiros à espera, uma lata de refrigerante.

Mas, na verdade, alguém andou a mudar as etiquetas no nosso mundo de todos os dias. A começar pela fotografia, que transforma a vida em imagem. E quando, diante de um "motivo", lamentamos não ter trazido a câmara, é porque aquilo a que Groys chama de profano já não está lá.

Virtualmente, já é tudo ready-made e instalação interactiva.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

(Alentejo)

A UTOPIA

http://www4.ncsu.edu


"A maior das infâmias é abandonar as fileiras, jogar fora as armas e incorrer por covardia em qualquer outra falta desse tipo. O guerreiro que a comete, castiga-o Platão degradando-o para o escalão dos indivíduos dedicados ao lucro e converte-o em artífice ou camponês."

"Paidéia" (Werner Jaeger)

Se Platão fala da política da cidade, não admira que a sua utopia nunca tivesse sido muito popular. E mesmo na aristocracia não ganhou adeptos, por recusar a todos a inclinação natural.

Mas para aquela sociedade que fazia precisamente da negação da natureza a sua regra essencial, ele foi a grande inspiração. Tal como os guerreiros da "República", a Igreja exigiu o celibato nas suas fileiras e há muito de platónico no cristianismo, como se sabe.

Mas se fala da alma e só dela, não há ali nada que qualquer de nós não possa verificar em si próprio. Porque o espírito é uma pura aristocracia, se é espírito. E o castigo da degradação, quando se falta a si próprio, é justiça.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

(José Ames)

CONTRASTARIA


(Um retrato do Fayoum)


"Assim, se o vanguardista do princípio do século não foi aceite pelo grande público, foi em primeiro lugar porque ele elevava ao nível dos valores culturais os elementos do meio ambiente quotidiano que este público, que o manipulava todos os dias, considerava como "não culturais", e aos quais por isso procurava ultrapassar."

Esse artista priva, deste modo, o público da "ilusão que se lhe tinha tornado mais cara, aquela que lhe fazia crer que se podia aproximar da cultura valorizada, tal como ela é procurada, e nesta via põe claramente em evidência o seu fracasso."

"Du Nouveau" (Boris Groys)

Este processo deve ter-se verificado em todos os passos dados pela arte fora do sagrado. Do hieratismo das figuras egípcias aos retratos do Fayoum, ou do esquematismo dos primitivos italianos aos padrões clássicos do Renascimento e destes ao realismo trágico de um Caravaggio.

Emprestar as feições dos contemporâneos à representação de uma passagem bíblica ou fazer figurar um animal doméstico junto à perna duma mesa, na "Última Ceia", não era já abrir o caminho à tematização do quotidiano e a essa essência do profano que é a "natureza morta"?

O que é novo, mais do que a perda da aura de que fala Benjamim, talvez seja o desaparecimento do artista criador e a sua metamorfose num agente de contrastaria, especialista na demarcação do que deve e do que não deve ser valorizado.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

(Lamego)

METAMORFOSE

[Índios Terena, Cachoeirinha, RS, 1955].

"Assim, as diferentes teorias da intertextualidade mostraram que o novo é sempre constituído de antigo, de citações, de referências à tradição, de modificações e de interpretações do que já existe. Mas tirou-se muitas vezes a conclusão que na cultura em geral não há nada de novo e que não existe criador. Uma vez que a cultura se ocupa exclusivamente de variações do que já existe, não é necessário para a explicar nada que lhe seja exterior, nem a fortiori do homem como seu criador."

"Du Nouveau" (Boris Groys)

O que é dizer que o radicalmente novo é uma espécie de utopia.

Mesmo duas culturas que se encontrassem, sem quaisquer contactos anteriores, como terá sido o caso da descoberta do Novo Mundo, só poderiam avaliar-se mutuamente a partir do que já conheciam. As naves e as armaduras do homem branco ou a gráfica nudez dos índios foram objecto de diferentes níveis de racionalização tendo como base os mitos já existentes.

Mas prescindir do homem como criador é admitir que as coisas encontram por si mesmas um sentido. E isso é absurdo. Quando valorizamos determinada obra, porque através dela se adaptam as fronteiras da nossa percepção dum mundo em metamorfose, é como se a arrancássemos da imanência e do espaço profano ( para dizer como Groys).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017


(José Ames)

PARAPEITOS

Joseph Turner (1775/1851)

"A marinha de Turner não revela nem "o ser" nem a essência de uma marinha: abre o olhar sobre o infinito do movimento das forças que nos "religam" a uma marinha (não a esta marinha-real-referente ou à sua ideia, mas àquilo mesmo, às próprias formas pictóricas que Turner criou na tela). O objecto de arte desencadeia e liberta nas suas formas um jogo de forças num plano infinito de movimento: liberta o infinito, e oferece-lhe um "médium" onde desdobrar-se e desenrolar-se. É isto uma obra de arte."

"A imagem-nua e as pequenas percepções" (José Gil)

É muito interessante esta ideia de uma física subliminar que a arte põe em movimento pela desorganização momentânea das nossas percepções.

Até se afirmar como um novo cânone estético, a obra de arte original desafia as nossas coordenadas espaciais e a nossa relação com o tempo, tanto quanto os nossos preconceitos.

Esse tremor que as novas formas trazem à consistência do mundo abre, de facto, a profundidade do abismo. E cada adaptação que recentra e ajusta as nossas coordenadas não é mais do que um parapeito, a que temporariamente colocamos persianas ou os frescos de uma nova criação do mundo.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Vila do Conde 

A CABEÇA DA MEDUSA


A Medusa de Caravaggio



"Quando, algumas horas mais tarde, entrei no quarto da minha avó, presas à sua nuca, às suas têmporas, às suas orelhas, as pequenas serpentes negras retorciam-se na sua cabeleira ensanguentada, como na de Medusa. Mas na sua face pálida e pacificada, inteiramente imóvel, eu vi completamente abertos, luminosos e calmos, os seus belos olhos de outrora (talvez ainda mais carregados de inteligência do que antes da sua doença, porque, como ela não podia falar, nem devia mexer-se, era aos seus olhos só que confiava o seu pensamento, pensamento que tão depressa tem em nós um lugar imenso, oferecendo-nos tesouros insuspeitados, como parece reduzido a nada, pois pode renascer como que por geração espontânea, graças a algumas gotas de sangue que se tira.)"
"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Toda a descrição da doença e agonia da avó, em "Le côté de Guermantes", que se supõe basear-se nas da mãe do autor, é um lugar cimeiro da literatura mundial.

Fiel a uma ética do olhar "inocente", o mais possível calcando aos pés todo o preconceito, como ao dragão o S. Jorge da iconografia, nem a memória clássica da cabeça de medusa parece trazer aqui um desmentido. A cabeça da avó coberta de sanguessugas (para, segundo o médico Cottard, lhe descongestionarem o cérebro atacado pela uremia) é uma imagem a que um autor como Proust não podia escapar, como, de resto, a ninguém que conhecesse o mito. E é esta espécie de necessidade que devolve a inocência à descrição.

E não sentimos nesta dependência e inquietante proximidade do pensamento em relação ao verme, que lhe parece ser o mais oposto na cadeia da existência, a prefiguração de um outro tipo de contacto no metabolismo funerário dos vermes da terra?

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Varsóvia 

ALÉM DO DARWINISMO

Charles Darwin (1809/1882)

"Este problema do arbitrário político no cume da hierarquia deixa aparecer então um estado de facto que se pode formular de uma maneira geral: na medida em que os sistemas adquirem a sua própria autonomia através da sua perdiferenciação, tornam-se igualmente causas (ou pelo menos uma parte das causas) dos seus próprios problemas. É assim que o paradoxo de um poder político que é necessariamente arbitrário, devendo ao mesmo tempo ser controlável, se torna o problema próprio do sistema político. Com a descoberta de tais situações, a Europa começa por verdadeiramente se enamorar do paradoxo ou da metáfora paradoxal (...)"
"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)

E cita, na política, o período de 1650 a 1750 (que a frase: "O Estado sou eu." resume), na religião, a figura de Pascal e o oportunismo do seu "pari", o amor-paixão e, em economia, a célebre teoria de Adam Smith da "mão invisível".

O percurso do arbitrário, produto de uma crescente autonomia dos sistemas dentro do sistema, passa pelo momento do absolutismo, no século XVII, que evoluiu, pela necessidade de "organizar o controle deste uso arbitrário do poder político pelos próprios meios do sistema político", para o "Estado constitucional".

À medida que as relações do poder se tornam mais reflexivas e se impõe a "inclusão do público na perdiferenciação do sistema político", chegamos à democracia. Já não estamos aqui perante uma evolução do tipo darwiniano, de que o materialismo histórico nos dá uma ideia. O conceito chave é o de organização. Quanto mais complexa ( e as consequências da inovação tecnológica em todos os campos, nomeadamente, na demografia, contribuem especialmente para essa complexidade) for a sociedade, mais a questão da organização sobreleva todas as outras considerações, mesmo as que se referem às chamadas estruturas.