terça-feira, 8 de junho de 2010

A ÉTICA RECLINADA


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As nuvens adensam-se sobre o futuro da educação. Apesar da "levée de boucliers" contra o "eduquês" e o behaviourismo duma maçonaria sem rosto, todos os dias nos assaltam novos motivos de preocupação. Mas não é o sinal de que isso é, para essas luminárias, uma coisa tão óbvia, um tal imperativo dos tempos, que faz de quem se lhes opõe outros "velhos do Restelo"?

João Lopes dizia no "De Rerum Natura" que a imagem da escola (lúdica) se deteriora aos olhos dos próprios alunos "levando-os a apresentar comportamentos que não são de esperar naquele contexto, embora o pudessem ser em contextos de diversão ou de tempos livres."

Depois do "salto de ano" para gáudio da preguiça e desfeita dos que trabalham, agora é a famigerada Parque Escolar a querer revolucionar o ensino através da arquitectura (mas cabe a uma empresa um desígnio desses?). A coberto de palavras como modernização, flexibilidade e descentramento, a ideia é modelar o aluno novo (sequela do falido homem novo) e injectar a partir do ambiente a motivação para brincar, já que o ensino a sério foi condenado pelo "progresso" da nova pedagogia ( e lá se foram os autoritários estrados dos professores e chega a plena informalidade propícia, ao que parece, à vontade de aprender).

Faz-me lembrar aqueles anúncios de ginástica passiva ou os de musculação sem esforço, em que o candidato a um tórax apolíneo só tem que deixar a máquina levantar os pesos por ele.

segunda-feira, 7 de junho de 2010


(José Ames)

O ANTI-DEMAGOGO



"He was a kind of nothing, titleless, till he had forg'd himself a name a' th' fire of burning Rome."

"Coriolanus" (Shakespeare)


A paixão de Coriolano contra Roma é ainda amor da pátria. Alguém disse que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. É o que ele julga ser a ingratidão do povo que transtorna a sua lealdade.

Porque se recusa os meios da política ( a demagogia ), quer que só as feridas ganhas em combate falem por si e desde o princípio da peça que ele é empurrado para a traição. E já que o povo não o ama pelo que ele realmente é e preferia que se rebaixasse à vil lisonja de um soberano de mil bocas em discussão umas com as outras, resta-lhe marcar o seu nome com o ferro em brasa na carne viva da cidade.

É a paixão luciferina do orgulho que move Caius Martius. Como se as suas feridas de guerra estabelecessem um preço inegociável.

domingo, 6 de junho de 2010


(José Ames)

O VALOR DO MU


"Nada"

"Tu próprio deves ter o rosto do Bodhidharma para o ver. Um só relance bastará. Mas se dizes que o encontraste, então nunca o vistes."

(comentário de Mumon em "The Gateless Gate")


Diz um outro koan que no mesmo instante em que falamos duma coisa falhamos o alvo. Não devemos recorrer à linguagem se queremos ter a "experiência directa".

Tudo quanto acreditamos no Ocidente é desfeito por este pensamento. A separação do corpo e do espírito, o domínio das paixões, tudo isso é atingido por uma via estranha ao cânone grego ou judeo-cristão. Nós temos de fazer para desfazer. Concentrar a realidade no indivíduo para a jogar no fracasso das nossas ilusões.

O Oriente do Zen não é fanático (como o de Pessoa), pois começa por onde nós acabamos, desfazendo. É, em todos os sentidos, uma dieta de baixo teor calórico. A negação deste espírito não tem nada de dialéctico. Parte-se do princípio que a vida é ilusão. Mas a ilusão é para nós uma bênção dos deuses. Só a rejeitamos quando não nos podemos iludir, nem, do mesmo passo, agir.

A acção é o que nos separa do outro "hemisfério".

sábado, 5 de junho de 2010


Porto (José Ames)

UM SÍMBOLO DO INFINITO


Proust: O olhar invisível do vértice da pirâmide


A propósito do verbo proustificar (Fernand Gregh) e da interminável e desconcertante delicadeza de Proust. Se desviamos o olhar da obra, impressionante, sem tentar explicar a vida por ela ou o contrário (cavalo de batalha do escritor contra Sainte-Beuve), são pequenos apontamentos como aquele que insinuam, indiciam apenas, o mistério irredutível que é a existência de cada um de nós. E, assim, a correspondência não é entre a estrutura e os temas dum romance psicológico em oito volumes e a vida do seu autor, mas entre a linguagem e o ser, termos irredutíveis um ao outro, numa relação que torna a obra-prima da literatura em não mais do que um símbolo do que não tem forma nem limite.

sexta-feira, 4 de junho de 2010


(José Ames)

TENTADO PELA INQUIETAÇÃO


"Tentação" (Salvador Dali)


"Os admiradores da beleza das coisas exteriores: não guardam para ti a sua fortaleza (…) malgastam-na em trabalhos voluptuosos. (…) Fracassam, mas ao fazê-lo não deixam de dar-se egocentricamente uma importância falsa, posando como gozadores e entendidos nestas coisas, ao mesmo tempo que fazem como se estivessem em contacto íntimo e fraterno com o sentido do mundo e com os mistérios da vida."


(Agostinho in "Estudos sobre mística medieval" de Martin Heidegger)



Agostinho refere-se àqueles que vivem numa posição falsa, pois têm de mentir-se a si próprios ao assumir uma pose perante os outros. Aquele "como se" é uma máscara com que se significa a profundidade da existência naquilo que ela tem de mais superficial. Isto é negar a autenticidade da própria volúpia no momento mesmo em que parece esgotar o sentido da vida.

O espírito de Agostinho é a negação do que existe, tanto mais "encarniçada" quanto ele pretende reformar a sua vida e cortar radicalmente com o passado.

Com isto, o santo cede completamente à tentação da inquietação (tentatio tribulatonis), tornando-se "um problema para si mesmo". Nesta agonia, o que é que fica para Deus?

quinta-feira, 3 de junho de 2010


Vila Franca de Xira (José Ames)

O CÁRCERE DA LIBERDADE



"A igualdade de que não se pode sair é um cárcere horrível. O despotismo da igualdade é o mais insuportável e o mais feroz dos despotismos, porque tem a sua origem na vontade dos impotentes, dos estúpidos, dos insignificantes."


(Camilo Castelo Branco)



Camilo é tudo menos um democrata. Na citação confronta duas grandes ideias da Revolução Francesa, a liberdade e a igualdade, como princípios inconciliáveis, numa antecipação do grande dilema vivido pelas experiências sociais revolucionárias do século XX.

Ele não diz que é toda a igualdade que é liberticida, mas apenas aquela "de que não se pode sair". Ora, a igualdade que tem um sentido para os homens livres e que não pode ser violada é a da dignidade humana. Daí não podemos "sair" sob pena de tornarmos a liberdade um crime.

É claro que um aristocrata tem de repudiar por princípio essa igualdade, e sabemos quanto Camilo prezava o seu novo título de visconde.

O que não se vê muitas vezes é que a diferença entre pobres e ricos é menos fatal para a dignidade humana do que o poder incontrolado, especialmente aquele que se exerce em nome da igualdade, de Deus, da Verdade ou do Povo. Porque todo o poder suspende a igualdade num certo sentido, mas o poder que só obedece à sua própria lei suspende-a em todos os sentidos, até o completo esmagamento da dignidade humana.

quarta-feira, 2 de junho de 2010


(José Ames)

A HEGEMONIA NEGATIVA



"Se um grupo detentor do poder perpetua a ideia de que o seu poder é natural, aceitável e preferível – especialmente se tais ideias são aceites pelos desapossados do poder – diríamos que esse grupo tem hegemonia. A hegemonia é criada e perpetuada por uma retórica do senso comum, uma retórica do natural."

"Uncovering hidden rhetorics" (Barry Brummett)


Bem, devemos também admitir que existe uma hegemonia de facto, apesar do poder do grupo que a exerce não ser considerado natural, nem aceitável, nem preferível. Mas, nesse caso, claro que a retórica deverá ser outra: a da mudança permanente, da mobilidade geral e da precariedade de todos os vínculos, mais complexa do que o simples "struggle for life", de sabor darwiniano.

O sistema em que vivemos parece-se muito com isso, e esse sistema só sobrevive às suas enormes tensões e aos seus desconcertantes paradoxos graças a uma superior engenharia de tubos de escape, que vão desde o jogo do consumismo, com a sua cláusula de permanente frustração, às explosões controladas do "social".

terça-feira, 1 de junho de 2010


Sintra (José Ames)

A CRIAÇÃO DA DIFERENÇA


Honoré Daumier


"Uma resposta possível é a de que o racismo e a retórica ambos exploram a capacidade da linguagem para criar diferença."

Lisa Parks ("The evil albino")


Quando percebemos que o sistema dos partidos tem de ter uma solução para o problema da diferenciação entre eles e que a lei da demarcação mútua se confunde com a lei da sobrevivência, entendemos a importância da retórica parlamentar.

A retórica não é um luxo, nem um empolamento artificial, mas a apropriação da linguagem para os fins estruturais de cada partido. A reversão é, por isso, menos um fenómeno que revela uma incoerência (quando a posição de hoje é precisamente o contrário da de ontem), do que o sinal de que o "espectro partidário" se deslocou como um todo.

Embora a verdade seja aqui um problema de retórica, faz parte da "semântica" de cada partido protestar, neste caso, o contrário da evidência.