
"Zeus" (José Ames)

Este filme, que vem precedido do grande crédito que merece o seu autor e dos encómios dirigidos à sua beleza formal, não me parece à altura da "Marquesa de O..." ou de "A Inglesa e o Duque".
O tema é, claro, um grande desafio pelo seu anacronismo, por já não termos a chave para compreender as formas cavaleirescas do amor.
O risco de cair no bonitinho nesta evocação bucólica dos amores de improváveis pastores e pastoras por terras dos Druídas, seguindo a prolixa narrativa de Honoré d' Urfé, um autor do século XVII que lançou a moda deste tipo de retórica amorosa, não foi sempre evitado.
Salva-se o malicioso desfecho que nos transporta para a atmosfera dos "Contos Morais". Astrée, de facto, trai abertamente Céladon com o seu travesti. E estes afagos entre mulheres deveriam despertar no nosso pastor os ciúmes que o narrador proustiano sentia por imaginá-los entre Albertine e as suas amigas em flor.

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)
Esta descrição por Proust da visão de um aeroplano, objecto ainda raro na altura, não é apenas a do espanto que provocaria o encontro com um centauro.
A emoção irrompe na narrativa criando um outro híbrido, não mitológico este, que anuncia o futuro do narrador e o fim da obra. Todos os pormenores, desde as lágrimas ao movimento do cavalo, são significativos e nenhum se compreenderia sem todas as dimensões do tempo reunidas.
Agostinelli, o muito amado secretário de Proust tinha desaparecido, ao largo das Antibes, em 1914, num desastre de avião. E Albertine, o avatar de Agostinelli no romance, irá morrer dois volumes à frente duma queda do cavalo.
A célebre evocação da taça de chá e da "madeleine", lâmpada de Aladino de onde sai Combrai, Guermantes e tudo o resto, tem neste episódio do passeio solitário pelas falésias o seu ponto de retorno (o génio volta à lâmpada).
Depois da morte da avó (na realidade, da mãe), a morte do amor.
A ampulheta pode ser virada.

"Há apenas alguns isolados que, assumindo o desafio lançado à Europa monárquica, ousarão dizer como Danton: 'Nós não queremos condenar o Rei, queremos matá-lo.' Mesmo Saint-Just, preocupado sobretudo em inculcar à nação um sentimento sólido dos seus direitos, afirma que se trata menos de julgar o rei do que combatê-lo como inimigo, porque não se pode reinar inocentemente."
"Sade, meu próximo" (Pierre Klossowski)
São posições como estas que, apesar de tudo, nos abrem o abismo que nos separa desses tempos teológicos que a Revolução francesa veio esgotar no seu paroxismo. Ela não é ainda o novo princípio, visto que depende do seu inimigo para existir.
A sentença de Danton e a do "anjo da morte" do Nièvre relevam duma teologia contra Deus.
Isto parece ilustrar a tese de Comte dos três estados, porque o estado metafísico que sucede ao teológico está ainda desencarnado na sua negação abstracta.
Mas duzentos anos não foram suficientes para fazer desaparecer o "instinto" teológico. Ele sobrevive nas modernas revoluções e em conceitos como a justiça de classe ou o juízo da História.
De resto, é muito provável que a lei de Comte se deva aplicar à formação do espírito. Porque a infância, com os seus deuses, é sempre teológica e a adolescência e a juventude metafísicas, pela sua necessidade de se demarcarem das gerações anteriores.

"Com efeito, o que a mentalidade popular, ou antes, burguesa, não seria capaz de admitir nem compreender é que aqueles que ela considerava como os guardiões da ordem social pudessem, pela sua degradação voluntária, pôr em questão a ordem social e, desse modo, derrubar todos os valores sociais."
"Sade, meu próximo" (Pierre Klossowski)
Será preciso recorrer à pulsão de morte sugerida por Freud na sua fase de maturidade para explicar o comportamento dos libertinos que, como Sade, escavaram o próprio terreno em que assentavam os seus privilégios?
As chamadas forças conservadoras dependem menos dos esforços individuais do que dum adequado funcionamento do sistema social de que fazem parte, sendo a ideia que o grupo faz de si próprio uma das principais variáveis.
O ataque dos filósofos das Luzes às ideias tradicionais, muitos dos quais foram acolhidos e celebrados pela aristocracia, como foi o caso de Rousseau, introduziu nesse meio a má-consciência e os comportamentos paradoxais.
O erro da opinião burguesa foi, como sempre é, o de desvalorizar a importância das ideias e de confundir a forma (as conversas de salão) com o conteúdo (as ideias revolucionárias).

"Não houve no processo nenhuma hipocrisia. Todo a gente viu que o que estava em causa era simplesmente matar. Passou-se por cima de todas as formalidades, nesta época ainda usuais no Tribunal Revolucionário. Nenhumas provas comunicadas. Os acusadores (Hébert e Chaumette) foram recebidos como testemunhas. Nenhuma defesa por parte do advogado. Vários dos acusados não puderam falar, coisa bem necessária num processo em que eram colocados lado a lado homens acusados de crimes muito diferentes, uns de factos, outros de palavras, alguns de opinião."
"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)
O processo dos Girondinos é o exemplo acabado da "máquina" montada pelos homens que se volta contra os seus criadores, impotentes para se libertarem da sua engrenagem.
Não era suficiente a consciência clara por parte de todos do que estava em causa. O processo havia sete dias que não andava nem para trás nem para a frente. Michelet diz que "Era preciso guilhotinar literalmente o processo para se poder guilhotinar em seguida os acusados".
Como o júri não se tivesse ainda pronunciado, os Jacobinos obtêm da Convenção que decrete "que no terceiro dia o júri pode declarar-se esclarecido." É o que nas assembleias sindicais se chama de "lei da rolha". O requerimento para passar à votação. Mas há mais. Este decreto, da mão de Robespierre, como que "absolve" os jurados, endossando a sua responsabilidade. E com isso, de facto, corta a dificuldade como uma espada.
Ninguém, como se viu, engana ninguém, mas todos obedecem a uma necessidade exterior, com as vítimas, os fundadores da República, sacrificando-se sem revolta e entoando os cânticos revolucionários.
Tal como nos processos de Moscovo, nos anos trinta do século passado, mas sem chegarem à confirmação surreal das invenções da polícia, Vergniaud e os seus companheiros estão prontos a morrer pela grande causa e, perante o zelo terrível do que consideram a Virtude, não andam longe de se considerarem, de facto, culpados.
É um pouco académica a questão de saber em que é que a democracia poderia alterar esta situação. Faz sentido julgar este processo pelos seus critérios?
Não é precisamente o consentimento consciente de todos que se busca, finalmente, através da democracia?

"Não é provável, pergunto, que toda a economia do universo seja conduzida por uma semelhante necessidade, apesar de nenhuma álgebra humana poder fornecer a chave que resolve tamanha dificuldade? E em vez de se admirar a ordem das coisas naturais, não pode acontecer que, pudéssemos nós penetrar na natureza íntima dos corpos, veríamos claramente porque é que era absolutamente impossível que eles pudessem alguma vez admitir qualquer outra disposição?"
"Diálogos sobre a religião natural" (David Hume)
Este argumento nasce duma analogia com a aritmética e de algumas das suas leis, como a dos produtos de 9. "Para um observador superficial, uma regularidade tão maravilhosa pode ser admirada como o efeito do acaso, ou do desígnio, mas um algebrista hábil e competente conclui imediatamente que isso é obra da necessidade e demonstra que tal deverá sempre resultar da natureza destes números."
Acreditar que uma mesma necessidade se encontra nos números e em todo o universo permite menos a Fílon, personagem deste Diálogo, prescindir da hipótese de Deus ou de uma causa primeira do que libertar o seu espírito do espanto (thaumazein, origem da filosofia, segundo Aristóteles).
É a atitude de Lucrécio que decide expulsar os deuses da Natureza.
E a analogia é pertinente por isto: o universo está de facto presente no nosso cérebro sob a forma de relações espaciais que a matemática traduz sem falha alguma.
Podemos, portanto, conceber um espírito capaz de ir muito mais longe, graças a qualquer coisa como um cérebro mais desenvolvido. Não podemos, contudo, afirmar que exista uma necessidade como a das leis da matemática fora dos processos cerebrais.

"La ragazza di Bube" (1963-Luigi Comencini). Naquele genitivo está resumida a história de Mara (Claudia Cardinale), uma moça de dezasseis anos, namorada de um partigiano (George Chakiris), que se conserva fiel durante um exílio silencioso, até encontrar o homem certo, um jovem da cidade que se enamora dela.
Bube é preso ao regressar a Volterra e é condenado a 14 anos de prisão pelo assassinato de um maresciallo e do filho deste. Mara decide sacrificar-se pelo prisioneiro, apesar da família, a ter aconselhado a pensar na sua vida.
É excelente a interpretação da Cardinale (que não é só uma das mais belas mulheres da tela), dando-nos todos os registos desse debate interior entre o amor e o dever, dos deslizes sucessivos da piedade e dos compromissos para o sacrifício final.