segunda-feira, 15 de setembro de 2008


"Zeus" (José Ames)

REQUINTADOS PASTOREIOS


"Les Amours d'Astrée et de Céladon" (2007-Erich Rohmer)


Este filme, que vem precedido do grande crédito que merece o seu autor e dos encómios dirigidos à sua beleza formal, não me parece à altura da "Marquesa de O..." ou de "A Inglesa e o Duque".

O tema é, claro, um grande desafio pelo seu anacronismo, por já não termos a chave para compreender as formas cavaleirescas do amor.

O risco de cair no bonitinho nesta evocação bucólica dos amores de improváveis pastores e pastoras por terras dos Druídas, seguindo a prolixa narrativa de Honoré d' Urfé, um autor do século XVII que lançou a moda deste tipo de retórica amorosa, não foi sempre evitado.

Salva-se o malicioso desfecho que nos transporta para a atmosfera dos "Contos Morais". Astrée, de facto, trai abertamente Céladon com o seu travesti. E estes afagos entre mulheres deveriam despertar no nosso pastor os ciúmes que o narrador proustiano sentia por imaginá-los entre Albertine e as suas amigas em flor.

sábado, 13 de setembro de 2008


Oxburgh (José Ames)

ENCONTRO COM O CENTAURO




"De repente o meu cavalo empinou; tinha ouvido um ruído singular, foi a custo que o dominei e que consegui não ser lançado por terra, depois levantei para o ponto de onde parecia vir o ruído os meus olhos cheios de lágrimas, e vi a uma cinquentena de metros por cima de mim, contra o sol, entre duas grandes asas de aço cintilante que o levavam, um ser cuja figura pouco distinta me pareceu semelhante a um homem. Fiquei tão emocionado como podia ter ficado um Grego que visse pela primeira vez um semideus."

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)


Esta descrição por Proust da visão de um aeroplano, objecto ainda raro na altura, não é apenas a do espanto que provocaria o encontro com um centauro.

A emoção irrompe na narrativa criando um outro híbrido, não mitológico este, que anuncia o futuro do narrador e o fim da obra. Todos os pormenores, desde as lágrimas ao movimento do cavalo, são significativos e nenhum se compreenderia sem todas as dimensões do tempo reunidas.

Agostinelli, o muito amado secretário de Proust tinha desaparecido, ao largo das Antibes, em 1914, num desastre de avião. E Albertine, o avatar de Agostinelli no romance, irá morrer dois volumes à frente duma queda do cavalo.

A célebre evocação da taça de chá e da "madeleine", lâmpada de Aladino de onde sai Combrai, Guermantes e tudo o resto, tem neste episódio do passeio solitário pelas falésias o seu ponto de retorno (o génio volta à lâmpada).

Depois da morte da avó (na realidade, da mãe), a morte do amor.

A ampulheta pode ser virada.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008


"Turnerando" (José Ames)

DA TEOLOGIA À METAFÍSICA





"Há apenas alguns isolados que, assumindo o desafio lançado à Europa monárquica, ousarão dizer como Danton: 'Nós não queremos condenar o Rei, queremos matá-lo.' Mesmo Saint-Just, preocupado sobretudo em inculcar à nação um sentimento sólido dos seus direitos, afirma que se trata menos de julgar o rei do que combatê-lo como inimigo, porque não se pode reinar inocentemente."

"Sade, meu próximo" (Pierre Klossowski)


São posições como estas que, apesar de tudo, nos abrem o abismo que nos separa desses tempos teológicos que a Revolução francesa veio esgotar no seu paroxismo. Ela não é ainda o novo princípio, visto que depende do seu inimigo para existir.

A sentença de Danton e a do "anjo da morte" do Nièvre relevam duma teologia contra Deus.

Isto parece ilustrar a tese de Comte dos três estados, porque o estado metafísico que sucede ao teológico está ainda desencarnado na sua negação abstracta.

Mas duzentos anos não foram suficientes para fazer desaparecer o "instinto" teológico. Ele sobrevive nas modernas revoluções e em conceitos como a justiça de classe ou o juízo da História.

De resto, é muito provável que a lei de Comte se deva aplicar à formação do espírito. Porque a infância, com os seus deuses, é sempre teológica e a adolescência e a juventude metafísicas, pela sua necessidade de se demarcarem das gerações anteriores.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

POEMA




Olha, nós vamos resvalando,
sem saber quando, do nosso progresso
para qualquer coisa que nunca pensámos, e na qual
nos emaranhamos como num sonho,
e na qual morremos sem acordar.



"Para uma amiga" (Rainer Maria Rilke, tradução de Paulo Quintela)

Stratford-upon-Avon (José Ames)

LIBERTINOS E FILÓSOFOS


Rousseau chez milord maréchal

"Com efeito, o que a mentalidade popular, ou antes, burguesa, não seria capaz de admitir nem compreender é que aqueles que ela considerava como os guardiões da ordem social pudessem, pela sua degradação voluntária, pôr em questão a ordem social e, desse modo, derrubar todos os valores sociais."

"Sade, meu próximo" (Pierre Klossowski)


Será preciso recorrer à pulsão de morte sugerida por Freud na sua fase de maturidade para explicar o comportamento dos libertinos que, como Sade, escavaram o próprio terreno em que assentavam os seus privilégios?

As chamadas forças conservadoras dependem menos dos esforços individuais do que dum adequado funcionamento do sistema social de que fazem parte, sendo a ideia que o grupo faz de si próprio uma das principais variáveis.

O ataque dos filósofos das Luzes às ideias tradicionais, muitos dos quais foram acolhidos e celebrados pela aristocracia, como foi o caso de Rousseau, introduziu nesse meio a má-consciência e os comportamentos paradoxais.

O erro da opinião burguesa foi, como sempre é, o de desvalorizar a importância das ideias e de confundir a forma (as conversas de salão) com o conteúdo (as ideias revolucionárias).

quarta-feira, 10 de setembro de 2008


"Woods" (José Ames)

ALLONS, ENFANTS


A guilhotina

"Não houve no processo nenhuma hipocrisia. Todo a gente viu que o que estava em causa era simplesmente matar. Passou-se por cima de todas as formalidades, nesta época ainda usuais no Tribunal Revolucionário. Nenhumas provas comunicadas. Os acusadores (Hébert e Chaumette) foram recebidos como testemunhas. Nenhuma defesa por parte do advogado. Vários dos acusados não puderam falar, coisa bem necessária num processo em que eram colocados lado a lado homens acusados de crimes muito diferentes, uns de factos, outros de palavras, alguns de opinião."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)



O processo dos Girondinos é o exemplo acabado da "máquina" montada pelos homens que se volta contra os seus criadores, impotentes para se libertarem da sua engrenagem.

Não era suficiente a consciência clara por parte de todos do que estava em causa. O processo havia sete dias que não andava nem para trás nem para a frente. Michelet diz que "Era preciso guilhotinar literalmente o processo para se poder guilhotinar em seguida os acusados".

Como o júri não se tivesse ainda pronunciado, os Jacobinos obtêm da Convenção que decrete "que no terceiro dia o júri pode declarar-se esclarecido." É o que nas assembleias sindicais se chama de "lei da rolha". O requerimento para passar à votação. Mas há mais. Este decreto, da mão de Robespierre, como que "absolve" os jurados, endossando a sua responsabilidade. E com isso, de facto, corta a dificuldade como uma espada.

Ninguém, como se viu, engana ninguém, mas todos obedecem a uma necessidade exterior, com as vítimas, os fundadores da República, sacrificando-se sem revolta e entoando os cânticos revolucionários.

Tal como nos processos de Moscovo, nos anos trinta do século passado, mas sem chegarem à confirmação surreal das invenções da polícia, Vergniaud e os seus companheiros estão prontos a morrer pela grande causa e, perante o zelo terrível do que consideram a Virtude, não andam longe de se considerarem, de facto, culpados.

É um pouco académica a questão de saber em que é que a democracia poderia alterar esta situação. Faz sentido julgar este processo pelos seus critérios?

Não é precisamente o consentimento consciente de todos que se busca, finalmente, através da democracia?

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A NECESSIDADE MATEMÁTICA


"Não é provável, pergunto, que toda a economia do universo seja conduzida por uma semelhante necessidade, apesar de nenhuma álgebra humana poder fornecer a chave que resolve tamanha dificuldade? E em vez de se admirar a ordem das coisas naturais, não pode acontecer que, pudéssemos nós penetrar na natureza íntima dos corpos, veríamos claramente porque é que era absolutamente impossível que eles pudessem alguma vez admitir qualquer outra disposição?"

"Diálogos sobre a religião natural" (David Hume)


Este argumento nasce duma analogia com a aritmética e de algumas das suas leis, como a dos produtos de 9. "Para um observador superficial, uma regularidade tão maravilhosa pode ser admirada como o efeito do acaso, ou do desígnio, mas um algebrista hábil e competente conclui imediatamente que isso é obra da necessidade e demonstra que tal deverá sempre resultar da natureza destes números."

Acreditar que uma mesma necessidade se encontra nos números e em todo o universo permite menos a Fílon, personagem deste Diálogo, prescindir da hipótese de Deus ou de uma causa primeira do que libertar o seu espírito do espanto (thaumazein, origem da filosofia, segundo Aristóteles).

É a atitude de Lucrécio que decide expulsar os deuses da Natureza.

E a analogia é pertinente por isto: o universo está de facto presente no nosso cérebro sob a forma de relações espaciais que a matemática traduz sem falha alguma.

Podemos, portanto, conceber um espírito capaz de ir muito mais longe, graças a qualquer coisa como um cérebro mais desenvolvido. Não podemos, contudo, afirmar que exista uma necessidade como a das leis da matemática fora dos processos cerebrais.


Brighton (José Ames)

UMA DIVA COM TALENTO


"La ragazza di Bube" (1963-Luigi Comencini). Naquele genitivo está resumida a história de Mara (Claudia Cardinale), uma moça de dezasseis anos, namorada de um partigiano (George Chakiris), que se conserva fiel durante um exílio silencioso, até encontrar o homem certo, um jovem da cidade que se enamora dela.

Bube é preso ao regressar a Volterra e é condenado a 14 anos de prisão pelo assassinato de um maresciallo e do filho deste. Mara decide sacrificar-se pelo prisioneiro, apesar da família, a ter aconselhado a pensar na sua vida.

É excelente a interpretação da Cardinale (que não é só uma das mais belas mulheres da tela), dando-nos todos os registos desse debate interior entre o amor e o dever, dos deslizes sucessivos da piedade e dos compromissos para o sacrifício final.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008


"The truth" (José Ames)