
(José Ames)

"O observador, surpreendido pela convergência de todos os pensamentos para o problema político, é de imediato surpreendido, e mais vivamente ainda, pela ausência de agitação, de discussões apaixonadas nas ruas ou no metro, de leitores lançando-se ansiosamente sobre o seu jornal, de acções esboçadas ou apenas concertadas. Esta contradição aparente constitui o carácter essencial da situação. O povo alemão não está nem desencorajado, nem adormecido; não se desvia da acção; e, no entanto, não age; espera."
Simone Weil decide passar o verão de 1932 na Alemanha "para tentar compreender sobre o que repousava a força do fascismo."
Em Janeiro do ano seguinte, Hitler é chamado à chancelaria.
Nesta tranquilidade ameaçadora, tudo se encontra suspenso e em equilíbrio instável. Os sinais da crise social são omnipresentes, desde os desempregados "atraídos sobretudo pelo alojamento, a alimentação e o dinheiro que encontram nas tropas de assalto" aos mendigos de colarinho falso e chapéu de coco "que toda a vida exerceram uma profissão liberal".
E em relação aos jovens: "Quanto a eles próprios fundarem uma família, a casarem-se, a terem filhos, os jovens alemães em geral nem sequer podem pensar nisso. O pensamento dos anos por vir não está para eles preenchido por conteúdo algum."
É esta mesma falta de perspectiva que hoje deixou de ser preocupante e passou a definição da cultura democrática com o trabalho precário e desregulamentado. Dizem-nos, outros, que esse é o preço exigido pela retoma económica e pelo mercado global. Mas, contrariamente à situação alemã de 1932, em tudo diferente, no essencial, da actualidade, esse não parece ser um problema que dependa duma solução política.
A espera de que fala Simone é apaixonadamente interessada, mas também disponível, como se viu a seguir, por qualquer precipitado da força. Como naquelas situações insustentáveis de que é preciso sair de qualquer maneira.

"O dito espirituoso era o que se chamava um "à-peu-près", mas que tinha mudado de forma porque há uma evolução para os trocadilhos como para os géneros literários, as epidemias, que desaparecem substituídos por outros, etc. Outrora a forma do "à-peu-près" era o "cúmulo". Mas estava fora de moda e só alguém como Cottard podia dizer às vezes no meio de uma partida de "piquet": Sabeis qual é o cúmulo da distracção? É tomar o édito de Nantes por uma Inglesa."
"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)
Édito e Edite não se pronunciam da mesma maneira em português, por isso esse trocadilho não existe entre nós, que somos tão dados a esse género de espírito.
É um recurso inesgotável a que se presta a nossa língua e de que tanto o teatro de revista como as comédias de António Silva fizeram largo uso.
O salão da patroa Verdurin, dado às artes de vanguarda e ao bom tom, não desdenha, como vemos, o trocadilho plebeu, e mais de um dos fidelizados ou de um iniciado retribuía assim a honra de fazer parte ou a amabilidade do convite.
Isso em nada diminuía os créditos de elegância do salão.
Marcel, que tinha uma opinião muito severa sobre tudo que o desviasse da obra, incluída a amizade, estava nesta altura em pleno trabalho de recolha de material.

"Não foi por acaso que se compararam as fotografias de Atget com as de um local do crime. Mas não será cada canto das nossas cidades um local do crime?"
"Pequena história da fotografia" (Walter Benjamin)
Ao ler estas linhas, penso imediatamente em "Blow up", o filme de Antonioni.
Qual o nível de ampliação a que devemos submeter um instantâneo fotográfico para ler o texto subjacente, como um palimpsesto?
É claro que por limitações técnicas não é possível ir muito longe nessa ampliação. Podemos imaginar, contudo, uma impressão da luz "em profundidade", que não apenas tornasse perto o distante, mas que abrisse os abismos da proximidade.
Poderíamos, talvez, "ver" assim o futuro, como o médico, através dos raios X, a evolução da doença.
A fotografia cria um espaço cénico onde antes existia o movimento do corpo e a profundidade cinestésica.
Todo o crime, na medida em que precisa de ser representado, ocupa a cena criada pelos media.

"Que a violência muitas vezes irrompa da cólera é um lugar-comum, e a cólera pode ser de facto irracional e patológica, mas todo o afecto humano o pode ser. É sem dúvida possível criar condições sob as quais os homens são desumanizados - tais como campos de concentração, tortura, fome -, mas isso não quer dizer que eles se tornem como animais; e sob tais condições, não é a cólera e a violência, mas a sua conspícua ausência que é o mais claro sinal de desumanização."
"On violence" (Hannah Arendt)
Só num mundo perfeito não nos confrontávamos nunca com situações que suscitam a nossa cólera, seja por ofenderem o nosso sentido de justiça, seja por nos sentirmos pessoalmente ofendidos.
Por isso é que quando os ditadores se convencem que podem promover o bem dos cidadãos sem o empenho deles ou mesmo contra a sua vontade, nunca se esquecem de, por todos os meios, abafarem a sua cólera.
A violência, não é, assim, um mal em todas as circunstâncias. E talvez seja de todos os excessos de que somos capazes aquele que tem mais valor para a política.
Uma comunidade sedada pelas drogas ou pela demasiada exposição aos media é o contrário duma sociedade política.
"Só a transformação das máquinas pode impedir o tempo dos operários de se assemelhar ao dos relógios; mas isso não basta; é preciso que o futuro se abra diante do operário por uma certa possibilidade de previsão, a fim de que ele tenha o sentimento de avançar no tempo, de em cada esforço se encaminhar para um certo acabamento. Actualmente, o esforço que exerce não leva a parte nenhuma, a não ser à hora da saída, mas como a um dia de trabalho sucede sempre um outro, o acabamento não é outra coisa que a morte;"
"La Condition Ouvrière" (Simone Weil)
A influência de Marx nesta análise da alienação do trabalho em cadeia é evidente. Assim como na solução de "um certo conhecimento do funcionamento do conjunto da fábrica", do lugar que aí ocupa aquilo que se faz e do papel da própria fábrica na vida social.
Mais original é a importância que concede ao ritmo "natural" contra o tempo uniforme dos relógios. Ritmo que permite "atravessar o tempo, com esforço, minuto após minuto."
Perguntamo-nos, em relação àquele conceito de alienação, se o sentido daquilo que se faz pode ser apanágio do trabalho moderno, não só nas fábricas, mas igualmente nos serviços e se a complexidade, inimaginável no tempo de Marx, a que chegou a técnica nos vários domínios é compatível com essa ética do conhecimento e da valoração daquilo que se faz.
É preciso, talvez, ver nessa ambição do trabalho "consciente" o correlato duma ideia do sujeito colectivo que impõe o seu domínio à Natureza e que é o autor da sua própria história.
Foi porventura essa ingénua noção que permitiu conceber o domínio da sociedade e toda a gesta da "transformação do mundo".
A 11ª tese sobre Feuerbach é esse momento de exaltação heróica, antes do crepúsculo.

"Os que conhecem os retratos de Danton, especialmente os esboços que David surpreendeu nas noites da Convenção, não ignoram como o homem pode descer do leão ao touro, ou melhor, cair no javali, tipo sombrio, baixo e desolador de sensualidade selvagem.
Eis uma nova força que vai reinar todo-poderosa na época sanguinária que devemos narrar; força mole, força terrível, que dissolve, que destrói o nervo da Revolução. Sob a aparente austeridade dos costumes republicanos, entre o terror e as tragédias do cadafalso, a mulher e o amor físico são os reis de 93."
"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)
No perigo mais extremo, depois de abatida a Gironda e ninguém já se sentir seguro, quando mesmo o frenético Marat se vê forçado a constituir-se "guardião da sociedade", Danton decide casar, quatro meses depois de enterrar a mulher da sua vida, com uma menina aristocrata de 16 anos, cuja família o obriga à humilhação de se ajoelhar diante de um padre refractário. Espantoso volte-face que expunha todo o seu passado à censura do fanatismo que via nisso o sinal da duplicidade e da traição.
Michelet descreve a imagem da época: "Ali se vêem os condenados na carroça, descuidados e com uma rosa na boca.", para concluir que, de facto, o Amor é o irmão da Morte.
Mais do que à volúpia, aquilo a que aspiram estes homens extenuados pelos perigos da acção revolucionária é ao sono eterno. Mas Lenine, estendido no soalho do Smolny, entre as reuniões e os decretos, julga medir as suas forças com o fardo esmagador de começar tudo de novo.

"Em Itália, um inglês é um amigo; na China, um europeu; e talvez amássemos um homem, enquanto homem, se o encontrássemos na lua. Mas isto provém apenas duma relação connosco mesmos e, nos diferentes casos, esta relação adquire força quando se limita a um pequeno número de pessoas."
"Tratado da Natureza Humana" (David Hume)
O amor da humanidade não é natural e depende da cultura e das boas instituições.
Mas se estas condições "artificiais" respondem pela sobrevivência da espécie, temos de considerá-las como uma segunda natureza.
As instituições, porém, degradam-se e a cultura pode ser atacada por "vírus" de diferentes espécies.
Assim, podemos regressar à natureza, através da sofisticação.

"Tal como as equipas de perfuração do petróleo têm de chegar, hoje, a incríveis extremidades, também os baleeiros experimentavam grandes dificuldades à medida que a indústria do óleo de baleia atingia o seu ponto de ruptura. As viagens chegavam a durar quatro anos, e prometiam tédio, trabalho extenuante, tempo rigoroso, maus tratos, má comida, alojamentos superlotados e maus cheiros."
"A Thousand Barrels a Second" (Peter Tertzakian)
O óleo de baleia já iluminou o mundo, antes da electricidade. Antes de se extinguir o bíblico mamífero, apareceu, providencialmente, o petróleo barato.
Mas agora é preciso furar mais longe e em piores condições geográficas e políticas, para obter um crude de menor qualidade.
O autor fala num incrível milhar de barris por segundo, sem nada à vista que possa assegurar a mudança para outro tipo de energia à medida da urgência da nossa "sede".
Mas isso é o que caracteriza o futuro. Só o poderíamos prever se a realidade se revisse nas simulações dos nossos modelos.
Faz parte dos imprevistos desse futuro o resultado das decisões de homens que acreditam nessas projecções e actuam consequentemente e de homens que continuam a viver como se tudo isso não fosse com eles, ou como se se pudesse sempre contar com uma descoberta da maravilhosa ciência que nos permita aterrar sem sobressaltos num ponto além da ruptura.

É inesquecível o grande plano de Lorenzo (Jacques Perrin), enquanto Aida (Claudia Cardinale) dança com o grisalho bon-vivant que lhe pagou o jantar. Sentimos toda a sua revolta e impotência perante a poluição da beleza.
O filme aborda com grande delicadeza a paixão de um rapaz de 16 anos pela stronza que o irmão mais velho enganou.
Mais complexa é a atitude de Aida que não consegue defender perante o sacerdote a ideia da amizade. No entanto, em nenhum momento sentimos que corresponda à paixão que desperta.
E depois da cena final na praia e da manhã seguinte, quando Lorenzo regressa a Parma, percebemos que se ela cedeu ao desejo do adolescente foi como a aceitação do destino que todos lhe queriam impor e perdendo-se aos olhos dele.
O dinheiro que Lorenzo lhe deixa num envelope, como se fosse uma última mensagem, sela esse destino.
O esplendor físico de Claudia dá a este sacrifício, a esta maldição que a extrema beleza parece trazer consigo, toda uma pungência que o retrato psicológico sabe de resto exaltar.