domingo, 8 de novembro de 2015

O PROFUNDO SEM ESPESSURA

O túmulo de Virgílio

"Conseguiremos alcançar, com o nosso trabalho voltado para a terra, essa profundidade infinita entre todas, bem mais profunda do que o mundo subterrâneo, essa profundidade que é ao mesmo tempo a dos mais altos céus?"
"A morte de Virgílio" (Hermann Broch)

Há quem diga que é na superfície que está todo o profundo.
Não por se ter abdicado de procurar um sentido para lá da aparência, mas porque se acredita que o nosso mundo não é mais do que relação de relações.

Para isto coincidir com o kantismo, só falta supor que o nosso mundo não é a realidade das coisas.

Virgílio quer destruir o poema porque vai contra a revelação da sua morte. Porque testemunha contra a verdade para além da beleza e da arte.

É Augusto, no romance, que se ergue contra: "A tua obra é Roma, e por isso um bem do povo romano e do Estado romano, que tu serves, como todos nós temos de o servir... somente o que não está feito nos pertence individualmente, talvez também o acto falhado e infrutífero; mas o que foi de facto realizado pertence a todos, pertence ao mundo." (ibidem)

sábado, 7 de novembro de 2015

Alentejo (José Ames)

NO SERVO TUDO SE APROVEITA

Nicolai Gogol (1809/1852)


Ao reler Gogol, muitas vezes penso em como este humor corrosivo se aparenta ao do nosso Eça.

A ideia estapafúrdia de comprar almas mortas ( a riqueza dos senhores da terra, na Rússia, contava-se em almas de servos do sexo masculino), que lhe terá, aparentemente, sido inspirada pelo seu amigo Pushkin, é daqueles absurdos que denuncia a lógica profunda de certos sistemas racionais.

Afinal, se a alma é o que temos de mais precioso, e se é, justamente, a medida da riqueza dos proprietários, por que é que um pormenor como a morte há-de impedir Sobakevitch, para regatear o preço das suas almas, de exaltar as qualidades morais do defunto, como se ele ainda pudesse servir para alguma coisa?

É caso para dizer que no servo tudo se aproveita, e até a alma, depois de morto, pode ter o seu rendimento.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

(Braga)

AS BOAS INTENÇÕES




"O grande canal de entrada da opressão no mundo é um homem pretender determinar a felicidade de outro."
(Edmund Burke)

Mais um exemplo da capacidade da virtude de fazer o mal. Porque não há dúvida que o preceito cristão de 'amar o próximo como a si mesmo' pode naturalmente inspirar a tentativa de fazer a felicidade do outro. O melhor seria que o 'beneficiado' nada soubesse do seu benfeitor (todos preferimos que um benefício inesperado seja atribuído à sorte). Mas não acontece que tantas vezes nós próprios não sabemos o que nos convém, a felicidade que coroaria um pequeno gesto de intrepidez, ou de loucura? Porque, sabemo-lo bem, a razão é dada ao 'sono dogmático'. Poupa-se um novo esforço quando as coisas parecem iguais, mesmo quando são diferentes...

Porém, Burke, que escreveu contra a Revolução Francesa, acha que esse é o caminho mais fácil para a opressão. As grandes palavras aplanam o caminho do opressor porque lhe conquistam adeptos. Muitos, no seu entusiasmo, abraçaram o tríptico das virtudes republicanas, entusiasmo que no fundo não é muito diferente do 'amai-vos uns aos outros'.

E tudo falha? Tudo acaba no inferno das 'boas intenções'? E, se é assim, seria melhor apostar no vício, ou nos 'hábitos do consumidor' como faz o mercado? Adoptar, talvez, outras virtudes, aquelas que são mais apropriadas a quem não sabe o que é o homem e o que é a felicidade do outro?

Mas serão virtudes de velho. Quem erra, quem arrisca a opressão e outros males, jogando ao 'aprendiz de feiticeiro', é tão necessário ao mundo como o sábio na sua montanha e a abençoada multidão do bom senso e da prudência. Fazem também parte desta desarmonia os que não querem saber da felicidade dos outros para nada.



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

(José Ames)

RICOEUR E O TRÁGICO

A Arca de Noé



"Por meio do mito da queda compreender-se-á que o mal não é o simétrico do bem, a maldade o substituto da bondade do homem, mas o murchar, o obscurecer, o "tornar feio" duma inocência, duma luz e duma bondade que permanecem. Por mais radical que seja o mal, não poderia ser tão originário como a bondade."

"La Symbolique du Mal" (Paul Ricoeur)


Esta ideia dum mal que não é retribuição da nossa culpa, que pode ser desencadeado por mim, mas apesar de mim, com a minha inadvertência, a minha ignorância - e conhecer a proibição não implica conhecer tudo das consequências, cedendo a uma força, a uma sedução, a algo que já existe desde a "origem", que não é o reverso do bem, porque é a contingência que escapa à totalidade é, segundo Ricoeur, a essência do trágico.

"(...) a tragédia evidencia o carácter constitutivamente aporético do mal ao mesmo tempo que desoculta a incomensurabilidade entre a vocação expressiva da linguagem e a intencionalidade ontológica que a habita."

("O mal como escândalo: Pierre Ricoeur e a dimensão trágica da existência" de Fernanda Henriques)

Na medida em que não podemos ter sucesso na racionalização do mundo que não fizemos, a tragédia é o símbolo da infinidade que sempre ficará de fora.

E, assim, poderíamos compreender o mal não ético como o princípio daquilo que nos confronta e que temos de "compreender" para não sermos submergidos por um absurdo exterior.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

(Lisboa)

O ANJO COMPLACENTE


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"Então Alguém apareceu que lutou com ele até ao despontar da aurora. Vendo que não o conseguia vencer, atingiu-o na articulação da anca e a perna de Jacob paralisou-se durante a luta. E Ele disse a Jacob: "Larga-me, pois já nasce a madrugada." Mas Jacob respondeu-lhe: "Não te largarei enquanto não me tiveres abençoado!" Perguntou-lhe o Outro. "Qual é o teu nome?", "Jacob", respondeu ele. E disse o Outro: "Não mais te chamarás Jacob, mas Israel, porque foste forte contra Deus e vencerás todos os homens."

(João Bénard da Costa, sobre o episódio bíblico da luta de Jacob com o Anjo)

A estranheza da cena já foi motivo de inúmeras glosas. A beleza literária alia-se aos recursos inesgotáveis do conto e da alegoria. Como assinala Frederico Lourenço no seu recente comentário sobre a Bíblia em grego, o Anjo poderia ser, com mais lógica, o próprio Satã, ou uma das suas metamorfoses. Afinal por que lutaria Deus com o 'escolhido', numa prova física absurda?

Parece que o Anjo queria vencer, de facto, o seu antagonista, mas segundo as regras de uma espécie de 'gentlemanship' que não chegava a conclusão nenhuma. Daí que se tenha aplicado, descendo na proporção adequada o nível dos seus golpes. E atingiu o nervo ciático do futuro fundador de Israel.

Tanto protocolo não teria embaraçado o 'Anjo Caído' e Jacob seria vencido em três tempos. A história, porém, não teria interesse nenhum. A superioridade da força não tem mistério.

Assim, o Anjo que aparece (que podia ser o próprio Jeová) mantém a ilusão de um equilíbrio de forças com Jacob 'até de madrugada' ( altura de Cinderela correr para a carruagem-abóbora e perder um dos sapatos de cristal). Depois passa rapidamente às cláusulas finais e paralisa o patriarca com uma joelhada portentosa.

Tal desfecho permite-lhe distinguir Jacob. Não venceu (porque isso seria impossível), mas foi 'forte contra Deus'.

Não admira que os paradoxos deste verdadeiro poema tivessem inspirado tantos artistas.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

(José Ames)

VIRTUDES ORFÃS



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"O mundo moderno não é mau; em certos aspectos é até demasiado bom. Está cheio de virtudes bravias e desperdiçadas. Quando um esquema religioso é abalado (como o Cristianismo foi abalado pela Reforma), não são apenas os vícios que se soltam. Os vícios, com efeito, soltam-se e vagueiam causando estragos. As virtudes também se soltam; e as virtudes causam estragos ainda mais terríveis. O mundo moderno está repleto de velhas virtudes cristãs que enlouqueceram. As virtudes enlouqueceram porque foram isoladas umas das outras e andam à sorte, solitárias. Assim, alguns cientistas se preocupam com a verdade; mas a sua verdade é impiedosa."

"Orthodoxy" (G.K.Chesterton)

Outra maneira de representar este 'estado do mundo' é dizer que o homem se perdeu de vista e que mundo segue em frente segundo um plano imperscrutável. Sim, abandonemos, à partida, a ideia de que este mundo é caótico. Todos os esforços humanos tendem para lhe dar um sentido. O problema é que as possibilidades são infinitas e convivem num mar de contradições e de antagonismos. Só agora, na era da tecnologia, nos damos conta da sua extensão e da confusão dos deuses.

Tínhamos de encontrar no nosso caminho os vários disfarces do relativismo, mas também a expressão das diferenças de cultura e do desfasamento científico-tecnológico. Imaginemos só que espécie de monstro resultará da adopção da nossa ciência e da nossa técnica por culturas arcaicas ou ainda correspondendo à nossa Idade Média.

Ora, o choque de todas essas diferenças tem uma força incomparavelmente maior do que a da Reforma para o Cristianismo. E, como diz GKC, vícios e virtudes andam num torvelinho, "fora da mãe". E é verdade que o vício nunca levará ao heroísmo, porque degrada o homem, e não é raro ver-se a virtude sacrificar-se pelo deus da tribo. De facto, a virtude já tem um pé no 'outro mundo'.


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Gramido 

A PAZ PELO DIREITO




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"Alain denuncia a fórmula 'A paz pelo direito' como um grito de guerra, porque o direito é o que se quiser. A verdadeira paz é pela arbitragem. [...] O homem perigoso é aquele que quer a paz pelo direito, dizendo que não usará de força, e que o jura, desde que o seu direito seja reconhecido. Isso promete belos tempos. [...] O acto jurídico essencial consiste nisto: que se renuncia a sustentar o seu direito pela força." 

("Alain", André Sernin) 


Richelieu mandou gravar nos seus canhões a fórmula: "Supremo argumento dos reis" (ibidem), o que seria demasiado cândido fazer hoje. Para o Cardeal, grande obreiro do poder do Estado, em França, isso fazia parte das condições da paz. Mas podíamos dizer que, apenas três Bourbons adiante, a violência imposta nessa construção fez saltar a mola de uma Revolução como nunca se tinha visto. 

Freud inventou a expressão 'retorno do recalcado', que é uma ideia da Física. Nenhuma força comprimida desaparece sem deixar rasto. O triunfo do direito, historicamente, confundiu-se demasiadas vezes com a opinião do mais forte. Como aconteceu na Europa do século passado, as condições humilhantes impostas pelos vencedores só duram o tempo que os vencidos levarem a recompor-se. 

O direito, nos nossos tempos, expandiu-se por toda a sociedade civil, desde o trabalho à família, num movimento inseparável da ideia do progresso social. É, assim, talvez ingénuo supor que há ainda lugar, por exemplo, para a família 'natural', livre ainda da 'relação de forças' que o direito consagra. A religião 'perdeu aqui a guerra'. 

As Nações Unidas foram, na sua concepção, uma nobre tentativa de consagrar a arbitragem como forma de atenuar a conflitualidade do mundo. Depressa chegaram à necessidade (como chegaram os pacifistas na segunda Grande Guerra Mundial), de se servirem dos 'canhões de Richelieu', nos seus esforços de paz. Não é que uma assembleia de nações seja a mais 'avisada' para julgar de um conflito que envolve um ou alguns dos seus membros. Como a própria democracia, é apenas 'um encosto' contra o fracasso, a 'menos má das soluções'.

domingo, 1 de novembro de 2015

(José Ames)

ORGULHOSA FRAQUEZA

Hipócrates


"O orgulho que os doentes têm na doença só é ultrapassado pela vaidade dos médicos em curar."

Estas palavras, postas por Hermann Broch na boca do médico que atende o poeta moribundo, não serão subscritas pela maior parte dos doentes.

Que orgulho se pode tirar do que nos diminui e fragiliza, às vezes ao ponto de se perder o gosto de viver?

Mas é preciso não esquecer o que pode haver de orgulho no desespero. E quando a sorte parece perseguir-nos é quando a própria maldição nos tenta.

É afinal comum ver um homem, perante a censura geral, revestir-se dos próprios vícios, como se de troféus se tratasse.
Não prescindimos duma imagem, mesmo negativa, e até o corpo doente pode proporcioná-la.