quarta-feira, 16 de setembro de 2009

UMA PEQUENA IGREJA


Julius Schmid, Schubertiáda


"Como todo o poder eclesiástico, ela julgava as fraquezas humanas menos graves do que aquilo que pudesse enfraquecer o princípio de autoridade, prejudicar a ortodoxia, modificar o antigo credo, na sua pequena Igreja."

"La Prisonnière" (Marcel Proust)


O "charlismo" não põe em perigo a disciplina do pequeno clã nem a indisputada autoridade da Patroa. Já os gostos musicais do barão e a sua pretensão a ser o árbitro, não só nessa matéria, mas, sobretudo, sobre quem os Verdurin deviam ou não convidar, eram uma verdadeira heresia.

Mesmo admitindo que o pathos melómano de Mme Verdurin era sincero e o seu critério realmente seguro, a melhor arte não servia menos de código social para preservar o sentimento de se pertencer ao "fin du fin".

Noutras igrejas, infelizmente, o que desempenha o papel que a música desempenha neste caso, não sobrevive à ruptura dos laços.

terça-feira, 15 de setembro de 2009


Orléans (José Ames)

DEMAGOGIAS


http://josephros.blogspot.com


"Os demagogos – 'muitos grandes homens que adularam o povo, que nunca o amaram'(Shakespeare) – tornaram-se cada vez mais difíceis de identificar quando a popularidade, o apelo directo aos sentimentos do público, se tornaram a principal avenida para o poder."

"Cleopatra's nose" (Daniel Boorstin)


A opinião da maioria é hoje a suprema instância e uma realidade omnipresente, graças ao "aumento da literacia, à educação pública, aos jornais diários e à impressão rápida, ao ascenso do voto secreto e ao alargamento do sufrágio, ao ascenso dos estudos de mercado e das sondagens eleitorais (…), a par do desenvolvimento das emissões de rádio e de televisão". O chamado "bom senso" é não só a coisa do mundo melhor distribuída (Descartes), como a mais influente. Mesmo se essa opinião tem muito de auto-reprodução e de efeitos de espelho, ela apresenta-se na política com a consistência da realidade objectiva. Não são precisos intérpretes para traduzi-la em discurso eleitoral. De certa maneira, a "adulação" tornou-se a exigência de um realismo incontornável. Não se podem ganhar eleições sem a demagogia que consiste em identificar a verdade com a opinião maioritária plasmada na medioesfera.

A antiga acepção da demagogia, nunca era a ir ao encontro do senso-comum, mas favorecer os desejos e os "instintos" populares contraprodutivos. Ora, no reino da doxa mediatizada, aqueles não se podem confundir com a opinião maioritária "estabelecida". Os falsos amigos do povo não ousam assim a verdadeira demagogia.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009


(José Ames)

O RISO DE RABELAIS


François Rabelais (1483/1553)


"Elle en mourut, la noble Badebec,

Du mal d'enfant, que tant me sembloit nice;

Car elle avait visage de rebec,

Corps d'Espagnole, et ventre de Souyce.

Priez à Dieu qu'à elle soit propice,

Luy perdonnant, s'en riens oultrepassa.

Cy gist son corps, lequel vesquit sans vice,

Et mourut l'an et jour que trespassa."


(Epitáfio escrito por Gargântua para o túmulo de sua mulher, Badebec, segundo Rabelais)


Badebec, para além de ter morrido no ano e no dia em que se finou, de ter cara de rabeca, de ser magra como uma espanhola e de ter o ventre gordo duma suíça, tinha uma capacidade vulvária que o epitafista media em sesteiros (correspondente a 3 ou 4 alqueires – mas o sétier de Paris chegava aos 152 litros).

O gigantismo em Rabelais é uma máquina de comicidade, num tempo em que os gigantes abundavam ainda na literatura (como em Ariosto) e não tinham sido averbados definitivamente à loucura de um Dom Quixote. Os gigantes não eram mais espantosos, de facto, do que os mil anos de Matusalém e a longevidade dos patriarcas bíblicos.

Antes do Renascimento e o Humanismo se imporem, era preciso a terraplanagem da hipocrisia religiosa por um riso homérico como este. Por outro lado, não se compreenderia a liberdade deste ataque contra os "sorbonnagres", sem um clima de extraordinária tolerância (falsa tolerância, se pensarmos que estamos a menos de cinquenta anos do massacre de La Saint-Barthélémy).

domingo, 13 de setembro de 2009


Gaia (José Ames)

OS MISTÉRIOS DO "HUMANISMO"



“O mistério do universo é a sua compreensibilidade”.

Aquela frase de Einstein é um aparente paradoxo, porque o que a mente vai compreendendo é o universo da Física, e entre o homem e essa totalidade há apenas uma diferença de grandeza.

Só encontramos a matemática e a cosmometria que procuramos. Isso, portanto, compreendemos, e assim conseguimos os espectaculares avanços da humanidade, numa certa direcção.

O mistério da adequação do que pensamos ao mundo, tal como o fazemos, não é o verdadeiro mistério. E era preciso que aquilo a que chamamos matéria tivesse uma vontade para não nos dar razão, ou, como diria Descartes, que por detrás dela estivesse um génio maligno.

Por isso uma nova ordem se pode sempre impor às coisas desde que haja uma lógica no espaço e uma vontade para impô-la.

Mas o que é que se impõe a quê?

sábado, 12 de setembro de 2009


(José Ames)

O MECANISMO SECRETO


Leonardo da Vinci ("Estudo da última Ceia")


"Mas o espanto ultrapassa tudo, quando se apercebe que o autor, na imensa maioria dos casos, é incapaz de responder ele próprio pelos caminhos seguidos e que é detentor de um poder do qual ignora os mecanismos."

"O instinto é um impulso cuja causa e cuja finalidade se encontram no infinito, admitindo que causa e fim significam alguma coisa nesta espécie."

"Introduction à la méthode de Léonard de Vinci" "Paul Valéry)


Por muito que admiremos a inteligência, sabemos que ela é, sobretudo, uma questão de lógica e de velocidade de raciocínio, características que a tornam mais ou menos previsível.

Mas podemos imaginar um computador que além de associar à lógica e à rapidez uma capacidade de memória monumental, complicasse as suas decisões (um pouco como os incidentes de uma vida interferem nas associações mentais), de tal forma que a própria máquina fosse incapaz de fazer uma previsão.

E talvez que a capacidade de resolver este tipo de problemas artificiais e de encontrar soluções formais inesperadas se aproxime do instinto de que fala Valéry, mas há uma grande diferença: nenhum sistema fechado pode imitar a complexidade das relações com o mundo exterior. É caso, por isso, para dizer que o "instinto" reflecte um mundo sempre incomparavelmente mais vasto do que aquele que podemos pensar, ou simular através da máquina. O infinito é a metáfora apropriada.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009


Alcobaça (José Ames)

DESCONCERTO



Luigi Malerba (1927/2008)


"Todos os sonhos são um pouco misteriosos, e é nisso que reside a sua beleza; mas alguns são muito misteriosos, ou seja, não se percebe nada; são como os enigmas. Mas enquanto os enigmas têm solução, os sonhos não têm. Podemos atribuir-lhes uma centena de significados diferentes, cada um deles tão bom como o outro."


"Il serpente" (Luigi Malerba, citado por George Steiner)


O enigma tem um autor, homem ou ser mitológico, e é por isso que existe, em princípio, uma solução para o seu mistério. Sonhos há, classificados por Freud como "Träumt von Oben", "cujas fontes se encontram muito próximas da superfície do consciente e das preocupações alimentadas enquanto acordado, pelo indivíduo que sonha".

Mas de onde vêm os sonhos sem solução, que não têm a coerência dum ego por detrás da sua semântica?

A hierarquia psíquica proposta pelo autor da psicanálise (ego, id e super-ego) não parece ser a única possível. Uma hierarquia pode impor à mensagem uma distorção ou uma camuflagem, mas de um desconcerto a várias vozes não se pode deduzir um sentido único.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009


(José Ames)

A LUZ BRILHANTE


Platão (429–347 AC)


"Porque a função original das ideias não era a de governar ou de outra maneira determinar o caos dos negócios humanos, mas, numa 'luz brilhante', iluminar as suas trevas. Enquanto tais, as ideias não têm nada a ver com a política, a experiência política e o problema da acção, mas dizem respeito exclusivamente à filosofia, à experiência da contemplação e à busca do 'ser verdadeiro das coisas'".

"La crise de la culture" (Hannah Arendt)


A ideia suprema em Platão é a do Belo, a única que corresponde ao que se diz acima. Para Hannah Arendt, a ideia do Bem, introduzida exclusivamente no "contexto político de 'A República'", terá sido a solução encontrada pelo filósofo para a "não-pertinência" política da teoria original das ideias: "(…) a utilidade só pode ser salva pela ideia do bem, pois que 'bem' quer sempre dizer, no vocabulário grego, 'bom para' ou 'apto a'.

Há aqui o passo decisivo duma mudança de foco e de natureza dessa "luz brilhante" do exterior, do universo visível, para o interior da mente humana e dentro dela, graças ao conceito de utilidade e de adaptação, para a supremacia da Razão.

O Belo, como manifestação da harmonia cósmica e do acordo da alma com o Grande Ser, não é, evidentemente, utilizável em política. Vejam-se as prevenções de Oulianov contra a música que, precisamente, o tornavam inapto para a acção.

Mas a Razão, sobretudo depois da requalificação kantiana, é um pobre e falível substituto daquela "luz brilhante".

quarta-feira, 9 de setembro de 2009


Wroclav (José Ames)

O ESPÍRITO PRÁTICO


Thomas Edison (1847/1831)



"O inventor – o Edison nas fronteiras do quarto reino - não está limitado pelas seguras inibições do conhecimento científico. De facto, é até enganador falar de uma 'fronteira' – um limite exterior para o quarto reino. Isso sugere uma linha clara entre o conhecido e o desconhecido. Aquele que procura no reino das máquinas não anda atrás de conhecimento, mas da novidade cujas fronteiras estão em todo o lado. 'Na altura em que fiz experiências com a lâmpada incandescente', confessou, ou antes vangloriou-se Edison, 'eu não compreendia a lei de Ohm. Para além disso, eu não quero compreender a lei de Ohm. Isso impedir-me-ia de fazer experiências.'"

"Cleopatra's nose" (Daniel Boorstin)


Inventores como Edison parecem ser os Abencerragens da teoria da indução, tão cabalmente criticada por Karl Popper.

Edison, que foi "um prodigioso inventor", depois de uma longa vida, "não acrescentou quase nada ao conhecimento científico" (ibidem).

A teoria de que é a experiência que, através de inúmeras tentativas, nos sugere as ideias não corresponde à verdade, e é preciso admitir que o próprio Edison, sempre atento à utilidade e à popularidade das suas descobertas, partia também ele de uma hipótese.

Se o conhecimento científico "estabelecido" (apesar de tudo) pode inibir a formulação de hipóteses verdadeiramente novas e revolucionárias, o "espírito prático" de um Edison encontra no seu próprio método um limite que não pode ser ultrapassado.