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| Salamanca |
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| http://religiaodavida.blogspot.pt |
Sobre a vida da criança, Alain dizia que pedir é o meio e que saber pedir é o primeiro saber.
Assim, nenhum de nós começa pela física, nem pela série comtiana, mas pela magia das palavras e pela mímica. Só o homem racional de alguns filósofos e os Econs de alguns economistas não começaram por esta absoluta dependência da família e do mundo humano.
É preciso reconhecer que este começo condiciona fortemente as tentativas futuras, noutra idade, para ir ao encontro da chamada natureza. A Mãe-Natureza e a Mãe dos Céus são um vestígio disso.
Conforme as profissões e o papel social, cada um é mais ou menos influenciado pelo poder da palavra. O mesmo filósofo definia o burguês por aquele que vive de persuasão (que 'sabe pedir'), enquanto o 'operário' é materialista e sabe que o ferro não verga se não puser mãos à obra.
É muito interessante verificar no 'irrealismo' da nossa esquerda a marca tão vincada da magia das palavras que todos já experimentámos na infância. Não é, porém, como já se viu na história dos povos, um verdadeiro anacronismo. A magia das palavras influencia-nos a todos, como não podia deixar de ser. Todos lhe cedemos constantemente. São as tradições e as ideias que nos seguram.
Mas já houve um tempo em que o 'Reino do Céu' (ou o regresso ao Paraíso) estava ao virar da esquina e era esperado para esses dias. Só depois a Igreja moderou essa expectativa, com um adiamento 'sine dia'.
A parusia de partido continua viva e, na verdade, poupa-nos maiores desordens.
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| Huesca la Magia |
"O conceito de fraternidade proposto pelos revolucionários de 1789 inspirava-se, de facto, consciente ou inconscientemente, no modelo monástico e religioso da Idade Média ocidental."
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| "The Emperor" (2012, Petter Webber) |
No filme, o governo americano dá 10 dias a MacArthur (Tommy Lee Jones) para decidir se Hirohito, o imperador do Japão, é responsável pelo ataque a Pearl Harbour (1941) e pela Guerra do Pacífico.
O general confia essa tarefa a um 'expert', Bonners Fellers (Mathew Fox), que conhecia o país antes da guerra por causa duma estudante que conhecera nos States e seguira depois até Tokyo.
Depois de ouvir as reluctantes deposições de altas personagens do regime, Bonners conclui, num primeiro momento, que não existe nenhum indício que ilibe Hirohito.
Todos lhe falam na 'devoção' dos japoneses ao seu líder espiritual, e um conselheiro do imperador menciona a coragem deste ao usar de uma metáfora poética para exprimir os seus sentimentos em relação à guerra. Mas tudo isso é incompreensível para o 'expert' ocidental.
A posição do imperador não chega a ser uma posição, contudo, pode considerar-se 'corajosa' porque implica o abandono, momentâneo embora, do puro cerimonial. O imperador, de facto, não governa, e a política mais militarista podia impor a sua via sem qualquer 'gesto' de apoio ou de rejeição de Hirohito. A ordem de rendição, aliás, pode considerar-se, não um acto de governo, mas provinda da instância mais sagrada da nação.
MacArthur acaba por seguir a recomendação, mais pensada, de Fellers e exige um encontro com o imperador 'para a fotografia', apesar de todos os obstáculos 'religiosos' e protocolares. No encontro, Hirohito 'assume' toda a responsabilidade pela guerra, que o general declina, dizendo o contrário da verdade: que não se tratava de encontrar um responsável...
Os Americanos exigiam cabeças e algumas rolaram depois, mas já não é assunto do filme.
Aqui, o que está em causa é o abismo que separa as duas culturas, a grande 'justificaçāo' do racismo de parte a parte, e que levou o governo dos EUA a colocar a própria questão da responsabilidade do imperador.
E indo mais longe, são as nações responsáveis pelos seus governos, independentemente do regime, e o que é que então substitui o 'imperador'?
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| Edward Said |
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| Alfred Sauvy (1898/1990) |
Alfred Sauvy, conhecido antropologista falecido em 1990, dispôs-se, nos anos setenta, a calcular o custo e o valor da vida humana ("Coût et valeur de la vie humaine"), o que em si era já uma espécie de basfémia: pois não são, ao contrário, a vida e o espírito humanos que conferem o valor?
Na empresa isola-se, como em nenhum outro lado, a contradição que é essencial à nossa cultura.
Os direitos dos indivíduos, os valores da liberdade e da democracia têm uma insistente presença na linguagem, mas a correspondência prática esbarra sempre com uma lógica mais forte, no entanto, sujeita a denegações e ocultações, ou travestida nos termos da especialidade económica ou gestionária. Essa lógica é a da acção colectiva dirigida a um fim, que está sempre para além da própria empresa e que só um meio mais amplo explica.
Essa realidade está encoberta pela permanência da empresa e dos seus agentes no espaço público que nos permite considerá-la como objecto dum regime de propriedade e uma comunidade de trabalho.
A precaridade do emprego e o accionariato especulativo, por outro lado, contribuem para a desmaterialização e o desocultamento da empresa, revelando e pondo em xeque a sua natureza instrumental.
Ao mesmo tempo, ficam a descoberto o desperdício e a irracionalidade da organização, como se nos seus genes, estivesse sempre uma coacção essencial.
Como se lê em “O crepúsculo dos deveres”, de Gilles Lipovetsky:
"É por isso que o conteúdo particular do projecto (empresarial) conta muito mais do que a participação e a comunicação internas que permitem a sua realização. Mas esta finalidade é inconfessável, não pode ser reivindicada sem a anulação do processo participativo, o qual requer um objectivo superior a si próprio. Impossível admitir oficialmente que apenas conta o efeito de participação; a gestão que visa pragmaticamente a mobilização dos homens é obrigada a sacrificar o sentido. Daí o carácter parcialmente “manipulatório” da gestão pelos valores.”
A Antiga Roma e o seu peculiar sistema político, em que a plebe residente gozava de um poder exorbitante face aos restantes habitantes da República e do Império, através da pressão permanente da rua, é o exemplo histórico que mais se parece com o moderníssimo fenómeno das 'flash mobs' e das massas instantâneas convocadas na 'Rede'.
As chamadas primaveras árabes são outro exemplo de irrupção da tecnologia num mundo quase medieval que se presumia imóvel e ao abrigo da contaminação cultural do Ocidente. O meio é aqui inequivocamente a 'mensagem'.
Fala-se em 14 milhões de turcos nas ruas, contra a sociedade imobilizada e o fechamento ao mundo defendido pelos islamistas tradicionais. O parque de Taksim tornou-se o símbolo desse anseio da juventude turca pela modernização do seu país. É evidente que o grande contraste entre a vida numa cidade como Istambul, mais populosa do que Portugal, com as zonas rurais da Turquia, coloca um problema difícil à democracia. Por que carga de água deviam os cidadãos de Istambul ou Ancara viver segundo a vontade do eleitorado rural, aquele em quem Erdogan confia para afogar o voto laico no oceano islâmico?
Este caso e outros, como o do Egipto, um pouco mais ambíguo, dado o papel dos mlitares, onde já se chegou ao ponto de prender o primeiro-ministro eleito há um ano, por causa da sua agenda islamizante, corresponde a um processo de ruptura cultural e de aceleração das desigualdades por via da tecnologia que tem muitas analogias com as tácticas da plebe romana. Na antiga capital, a multidão podia encher as ruas facilmente, com a 'técnica' da 'boca-à-orelha', estava sempre 'mobilizada', fazendo o que hoje chamaríamos de pressão lobística, porque esse era de facto um poder 'impressionante' (e impressionável, como se vê no discurso de Marco António, em Shakespeare).
Sabemos como os patrícios 'moderaram' essa plebe insaciável com a instituição tribunícia. Mais tarde, os césares e as campanhas militares impuseram outra espécie de ordem.
Não sabemos qual será o futuro das 'massas instantâneas'. Mas uma das soluções possíveis é tornar o voto universal e igualmente instantâneo ou... consagrar a singularidade da grande cidade.