terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

CLARAVAL

Abadia de Clairvaux


"E foi também, aquilo que ele dizia de si próprio: a 'chimera saeculi', um estranho ser ansioso de contemplação e constantemente arrastado para a acção."
(José Mattoso sobre Bernardo de Claraval) 

A ânsia de S. Bernardo pela contemplação podia ser comparada com o oposto dela que é o tédio e o terror do claustro interior a que, por um instante, não têm acesso os ruídos do mundo.

Anna Gerschenfeld, nas páginas do 'Público' de ontem, fala-nos de experiências levadas a cabo por neurocientistas americanos. "Estes surpreendentes resultados foram revelados, em 2014, num estudo publicado na revista Science pelo psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA), e colegas. Mais precisamente: 12 dos 18 homens (67%) e seis das 24 mulheres (25%) testados preferiram receber choques eléctricos a não ter nada para fazer (a não ser pensar) durante a sua curta permanência em isolamento forçado."

É claro que a frustração do reformador da ordem cisterciense é muito relativa. Por um lado, a entrega total à contemplação seria fatal às suas intenções reformadoras, por outro, a acção para que se sente continuamente arrastado impede-o de conhecer o verdadeiro tédio.

S. Bernardo, apesar dessa divisão um tanto retórica, deve ter sido um homem feliz, e 'sem estados de alma', como se diz.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

(Ĺisboa)

INTELIGÍVEL E VERIFICÁVEL

(Paul Valéry)



"A ciência, no sentido moderno da palavra, consiste em fazer depender o saber do poder; e vai até subordinar o inteligível ao verificável."
(Paul Valéry)

A teoria da relatividade se tivesse sido formulada no tempo dos grandes filósofos da Grécia Antiga (por um extraterrestre, digamos), não seria considerada 'científica', mas, provavelmente, ter-se-ia olhado para ela como um hieróglifo mais ou menos sagrado, como diz a palavra.

Nesta fase, teria havido já uma apropriação por um poder 'sacerdotal' afim do que existiu no Antigo Egipto.

A parte moderna da frase valeriana é a que nos diz que a sociedade grega de então não subordinaria, como nós, o 'inteligível ao verificável'.

Se o tivesse feito, não haveria um começo grego da ciência. Porque, como disse Comte, a série do conhecimento, começou pela a astronomia que só podia 'considerar' os astros de longe, sem poder 'verificar' o que quer que fosse. Isto é, deu-se todo o valor à explicação inteligível, sem se pensar que a falta de 'verificação' fosse tão 'desastrosa', como pensamos hoje.

E aqui entra a subordinação ao poder. É que o indivíduo muito raramente tem os recursos necessários para provar. É preciso todo um sistema de 'verificação' que, só esse, confere o estatuto científico. O inteligível não basta. O seu principal defeito é a impotência junto da colectividade.


domingo, 7 de fevereiro de 2016

(José Ames)

A DIÁFANA NUDEZ


Santo André (José de Ribera)




A expressão verdade nua tem um sentido no Santo André de José de Ribera, que representa cruamente o apóstolo, não disfarçando as rugas da idade nem o desenho das suas costelas, tão próximo da ideia de que a verdade se encontra escondida, como o esqueleto o está sob a pele e a morte sob a aparência da vida, e tem outro sentido, por exemplo, nas representações em que uma bela mulher não parece ter nada que esconder.

Assim, na estátua do Largo do Barão de Quintela (em tempos, tradicionalmente mutilada), de Eça com a Verdade, o escritor seduz-nos com a alegoria, mais do que nos abre os olhos. E a nudez feminina é uma imagem paradoxal da verdade, pois nos desvia de facto da realidade, e é quando se encontra mais despida que é mais secreta.

Retirado o "manto diáfano da fantasia", encontramos o verdadeiro véu.
(Berlim)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O MODO DE PRODUÇÃO

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Há uns anos, Agustina disse, numa entrevista a Clara Ferreira Alves, que era impensável que dalí a dois mil anos o ser humano ainda se preocupasse com o sexo.

A verdade é que em algumas espécies o acasalamento ocorre uma única vez, e o macho pode aí perder a vida, como se esse fosse o real objectivo da sua existência, a sua perfeita consumação.

E, no caso dos humanos, talvez que só relativamente há pouco tempo, dada a história da espécie, começássemos a nos 'preocupar' com a sexualidade. O que sabemos é que, existindo várias representações do corpo desde que há registo histórico, o sexo teve sempre um lugar eminente (pela negativa, como no Cristianismo, ou pela exaltante afirmação, como no hinduísmo) em todas as religiões.

Não sabemos até que ponto a nossa concepção do mundo e a própria linguagem assentam nas ideias de cada sociedade sobre o facto da sexualidade.

Agustina emprega o termo 'preocupação', referindo-se, provavelmente, a um desequilíbrio característico da nossa época, em que o sexo se tornou 'estranho' e separado da natureza. Não é a obsessão ateísta dos libertinos do século XVIII, mas a da produção e a da mercantilização tão glosadas politicamente.

O que acaba por ser, em Agustina, uma esperança quase revolucionária...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

(José Ames)

A MALDIÇÃO DO ANEL



A notícia chamava de bom samaritano ao homem que entregou na polícia a mala perdida com um tesouro.

Dificilmente o caso se adequa à passagem bíblica. A simples honestidade e até a prudência podem estar na origem desse gesto.

Há uma diferença, na verdade, entre o roubo, mesmo "oferecido" por uma oportunidade excepcional e o achado de que nos apropriamos.

A culpa no primeiro caso resulta da acção, mas no segundo temos a ilusão da passividade.

Aquilo que vulgarmente se chama de o sistema permite-nos também esse tipo de ilusão e que nunca nos ponhamos as questões verdadeiramente incómodas.

Suponho que aqui se aplica plenamente a história de Gigés e do anel de oiro que lhe permitia ser invisível, como se pode ler em Platão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

(Bolonha)

GUIA PARA CEGOS


(Michel Houellebecque)

"Os homens e as mulheres que frequentam as 'boîtes' aos pares renunciam rapidamente à procura do prazer (que exige finura, sensibilidade, lentidão), em proveito de uma actividade fantasmática bastante insincera no seu princípio, de facto, decalcada das cenas de 'gang bang' dos pornos 'mode' difundidos pelo Canal +."
(Michel Houellebecque)

É sabido que a luxúria é considerada pela teologia católica como um pecado capital que consiste em procurar os 'prazeres da carne', e os 'anjos maus' foram os responsáveis pela sua introdução no mundo: "Com efeito, estes anjos pecadores e apóstatas ensinaram as mulheres a se maquilharem e a frisarem o cabelo."

Não se pode dizer, claro, que este 'pecado capital', é uma construção artificial dos teólogos, dado que a sua importância no sistema da culpa católica vai muito para lá do 'prazer sexual', e é, por assim dizer, estrutural. Para criar a altura do Céu não se podia deixar de cavar o abismo. A distância em relação à natureza é, pois, uma condição necessária.

Houellebecque, pelo seu lado, fala-nos de uma "baixa tendencial da taxa de prazer' que 'seria, ao mesmo tempo, sumária e inexacta. Fenómenos culturais e antropológicos, segundos, o desejo e o prazer, finalmente, pouco explicam da sexualidade."

A 'renúncia do prazer' na cultura da noite de que nos fala o escritor evoca um 'mundo do avesso' em que parece necessário um guia para cegos.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

(José Ames)

UMA ENTREVISTA

(Agustina Bessa-Luís)


CFA: Deus? Deuses? 
AB-L: Deus. O equilíbrio perfeito do cosmos. Acredito nisso, e numa sobrevivência. Vivo rodeada de fantasmas. 
CFA: Isso não contradiz a sua racionalidade? 
AB-L: Não. É também uma forma de racionalidade. Para certas pessoas é mais fácil acreditar que não acreditar."

(Entrevista de Clara Ferreira Alves a Agustina Bessa-Luís)

Esta entrevista já tem uns anos e não é possível hoje voltar a interrogar a sibila. Mas aqui, a grande escritora deixa-nos uma ponta do seu novelo ariânico.

Como é que a racionalidade se liga tão intimamente à crença, tão longe de ser o seu oposto, como pretende uma certa tradição filosófica e o próprio senso comum? Não se censura aquele que se deixou vencer pelas preferências pessoais na hora de julgar?

Esse 'erro' não se pode atribuir a Descartes, o pai do racionalismo moderno. Basta ler o seu 'Tratado das Paixões' para ficarmos a saber que a razão ganha mais no bom uso das paixões do que no combate a elas, sabedoria que nos legaram os estóicos.

É razoável, pois, que esta 'política' pressuponha, não uma racionalidade separada, mas uma razão consubstancial à 'inteligência do corpo' (Agustina).

A dificuldade em não acreditar vem de não ser 'natural' este desentranhar da razão e de esta não poder encontrar em si o seu próprio fundamento.

Começamos por acreditar que a razão não nos engana (o que Descartes dizia de Deus). Depois nas provas dessa razão que trouxeram ordem ao caos. Mas, no entanto, devemos também acreditar que a razão não se esgota na ciência e na técnica, nem no ordenamento do caos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

(Porto)

O CONSENSO

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"O consenso é apenas um estado das discussões e não o seu fim. Este, na verdade, é a paralisia."

Jean-François Lyotard ("La condition post-moderne")

Isso depende do tempo de que se trata. O tempo da acção não é paralisado pelo consenso, antes pelo contrário. Ele pode ser o clique que a precipita, por corresponder a uma opinião previamente condicionada e aparentemente 'espontânea'.

Porém, a discussão foi tão-só interrompida pelo consenso. Os 'dados', uma vez lançados, modificam a situação e as opiniões. Se a 'assembleia' permanecesse em discussão aberta depois do primeiro consenso, logo a necessidade de um segundo acordo se apresentaria, confirmando ou alterando a sua primeira forma.

Não é assim, evidentemente, que funcionam os órgãos políticos de decisão. O que se parece mais com o modelo implícito de Lyotard é a reflexão solipsista que, de facto, mesmo se o acordo é apenas consigo própria, não pode deixar de continuar a discutir.

Claro que o 'fim da discussão' corresponde a uma paralisia do pensamento para o indivíduo, mas é um pressuposto da acção. Razão por que faltam ao 'solipsista' as motivações 'terrenas' para agir.