![]() |
| (Miguel Ângelo) |
E, no entanto, é natural apontar o amor de mãe como o ideal do amor. Seria esse amor tão incondicional se não houvesse uma quase indistinção entre o amor e o seu objecto?
![]() |
| Eça e a cabaia |
"Que um valor não possa ser concretizado sem que um outro igualmente positivo deva ser destruído, é isto também o trágico."
(Paul Ricoeur)
Que do antigo Palácio de Cristal, no Porto, só tenha ficado o nome, associado ao moderno, mas incaracterístico, pavilhão é outra dessas fatalidades. Em troca da velocidade e da comunicação, perdemos os rios bucólicos e as praias virgens e raramente conseguimos ver uma noite estrelada sem ofuscamento.
Infelizmente, não podemos, como o Jacinto de 'A Cidade e as Serras', trocar o cosmopolita apartamento dos Campos Elíseos pelas terras de Baião no seu relativo paraíso.
Eça, só pouco mais de um mês, gozou esse paraíso. Hoje, na casa rústica, pode-se ver a sua cabaia e a escrivaninha pernalta. Como a coda musical de uma vida mais sonhada do que vivida, o tempo de Tormes é concentrado e rápido. O escritor nem chegou a ter tempo das saudades de Paris.
Se não crescêssemos, seríamos sempre crianças, o que era, talvez, o verdadeiro paraíso (pelo menos está-lhes prometido a elas o Reino dos Céus). Mas não conheceríamos, enfim, a maturidade e (por que não?) a velhice...
![]() |
| http://humanrights.ie/wp-content/uploads/2014/01/Language2.jpg |
A tecnologia exportada pelos modernos 'impérios' tira-nos a palavra em troca da comunicação universal, recolhendo os lucros e o 'soft power' que condiciona as nossas vidas o mais democraticamente possível.
![]() |
| http://www.istitutopaolovi.it/uploads/premio/big/paul_ricoeur_02.jpg |
"Satã apostou que Job, confrontado com a infelicidade, não temeria Deus 'desinteressadamente'. Eis o que está em jogo: renunciar de tal modo à lei da retribuição que não só se renuncia a invejar a prosperidade dos malvados, como também se suporta a desgraça do mesmo modo como se aceita a boa fortuna, isto é, como um dom de Deus. É esta sabedoria trágica da "repetição" que triunfa sobre a visão ética do mundo."
(Paul Ricoeur)
Satã é aqui o 'espírito do mundo'. A sua inteligência não lhe permite conceber a gratuitidade, o acto que cria a sua própria lei, não-económica.
É quase impossível, de facto, não julgar 'satanicamente', procurando mesmo na santidade o interesse próprio. Desde que começámos a analisar a ecologia do prazer e do instinto, nada nos parece livre de uma interpretação 'pessimista' e iconoclasta. Como já Sócrates dizia do cínico Antístenes (que a vaidade transparecia através dos buracos do seu manto), a ambivalência e a contradição parecem inerentes a toda a ambição 'virtuosa'.
Que o caso não ficou resolvido e que há sempre um fundo de esperança inesgotável, mostra-o facto de, de longe a longe, aparecer alguém que confunde a análise moderna e desarma a crítica e o fatalismo.
Assim nos pareceu por um momento o papa Francisco, antes de nos mostrarmos indignos da esperança.
Mas a 'equanimidade' não é com Job. Ele lamenta-se e faz perguntas. Também ele parece indigno do ideal...
![]() |
| http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f5/Musei_Wormiani_Historia.jpg |
"'Viveis tempos interessantes', disse Paul Valéry a uma plateia de universitários de Paris, no dia 31 de Julho de 1932. 'Os tempos interessantes são sempre tempos enigmáticos que não prometem descanso, nem prosperidade, continuidade nem segurança', e acrescentou: 'Nunca a humanidade juntou tanto poder e tanta desordem, tanta apreensão e tantas diversões, tanto conhecimento e tanta incerteza.'"
"História do Século XX" (Martin Gilbert)
No presente século, o sentimento de Valéry continua mais do que actual. Parece, agora, haver uma outra actualidade derivada de estar ainda tão próxima de nós a ultrapassagem de um limite para a humanidade. Passada essa fronteira, nada pode ser como antes.
A coexistência do poder e da desordem, da apreensão e do divertimento de que falou o poeta assenta, hoje, no 'recalcamento' da experiência traumática do século XX, da sua camuflagem, ou da traição do seu significado por uma linguagem 'objectivante', que põe o acontecimento à distância e o transforma em 'facto histórico'.
A 'hiper-actualidade' das palavras valerianas resulta deste passado 'insepulto' que assombra o nosso pensamento e o nosso discurso.
Enfim, para voltar à terminologia da psicanálise, no centro deste tempo 'enigmático' está doravante instalada a neurose, e nem nos damos conta de como estamos, tragicamente, a repetir a história, sem aquele aspecto de farsa que Marx via na repetição.
Se tivermos em conta que as capacidades superiores do nosso cérebro implicam um grande consumo de energia, percebemos como pode ser vital evitar o esforço desnecessário. Até chamamos preguiça mental a essa relutância em pensar e concentrar toda a atenção que, muitas vezes, é indispensável para compreender.