sábado, 5 de dezembro de 2015

(José Ames)

A COMÉDIA DA JUSTIÇA

"A Divina Comédia" ilustrada por Doré



Se houve homem que acometesse a temerária empresa de julgar os homens do seu tempo e os dos tempos passados, como se fosse Deus em pessoa, cedendo sem pruridos às suas simpatias e antipatias pessoais, sempre sob a capa da infalível justiça, atribuindo com uma precisão quase burocrática a cada falta a sua correcção e a cada crime o seu castigo, e o tempo dele, e o lugar (círculo ou a bolsa deste), esse homem foi Dante.

Espantamo-nos por ver certas figuras da História, cujos erros e loucuras se transformaram no motor duma injustiça mecânica "(...) é um tema recorrente de todo corpus lendário do mundo. O inferno representado não como arbitrário castigo mas como horrível e interminável repetição de um gesto." - Cristina Campo) que estava para a sua causa como o mistério divino para a razão humana, injustiça essa que deveria receber por direito, como essa paisagem infernal, o qualificativo de dantesca.

A "Divina Comédia", na sua desmesura e genial visão é talvez, mais do que tudo, uma alegoria da inconsequência e do absurdo do juízo humano sobre o semelhante.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Tavira

A RODA



" uma interpretação plausível é a de que o rendimento mais elevado está associado a uma capacidade reduzida para apreciar os pequenos prazeres da vida."
(Daniel Kahnman)

'Pobrete, mas alegrete'? Pobrete não é o mesmo que pobre pobre. Alegrete, pelo seu lado, também não é verdadeiramente alegre.

Quem não se deixou prender por um estatuto ou pela 'emulação' consumista pode ainda apreciar os 'pequenos prazeres' não organizados para uma determinada produtividade social. Esses prazeres são gratuitos como a arte devia ser.

O automóvel, por exemplo, não é uma simples utilidade. Os publicitários cedo viram o seu potencial simbólico, como o ego nele investe tão completamente. Este centauro mecânico que é o homem e o seu automóvel pode transformar o pequeno prazer de andar a pé numa perda de tempo e esforço. Mc Luhan considerava todo um ramo da tecnologia como uma 'extensão' do nosso corpo. Será que quando nos 'prolongamos' assim, descobrimos novos prazeres que não perdem em favor dos bons velhos prazeres do 'macaco nu'?

Mas Kahnman parece ter descoberto uma fórmula equivalente àquela que Marx aplicou ao capitalismo: a tendência para a queda da taxa de lucro. O prazer sofisticado, ou simplesmente mais complexo, levaria a uma desvalorização da 'taxa de prazer'.

Há, talvez, por detrás desta ideia, um moralismo muito nosso conhecido. Porque nem sequer somos capazes de imaginar o prazer que o domínio do cavalo ou a invenção da roda trouxeram aos nossos civilizadores.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sem título

(José Ames)

 

O QUE É PRECISO

www.cristallinks.com

"E a Necessidade, recorda Eurípides, por a ter conhecido 'atravessando as Musas e os cimos', sem nunca ter encontrado 'nada de mais forte', é a única potência que não tem altares nem estátuas. Ananke é a única divindade que não escuta os sacrifícios."

(Roberto Calasso)

Como é que esta deusa intransigente convive com a moderna economia? Porque, de facto, não temos melhor compreensão do nosso destino e da inflexibilidade dos 'factos da vida' do que os Gregos.

Quando, em nenhuma parte podemos aceitar o mistério como situação definitiva porque, afinal, roubámos o fogo aos deuses e adquirimos o segredo do conhecimento como um progresso sem fim.

A 'ciência' da economia em grande parte dedica-se a interpretar os poderes de Ananke. Se atentarmos aos mais comuns aforismos sobre a necessidade, como 'não há almoços grátis', 'quem semeia ventos, recolhe tempestades', etc., veremos que podem quase todos ser cobertos pelo chapéu da economia.

E, apesar dos seus incessantes falhanços, essa 'ciência' parece continuar a ser a resposta mais inteligente que podemos dar a este tipo de problemas, já que considerar a nossa ignorância como impeditiva de qualquer esforço, impediria a deusa de entretecer a malha com que nos enreda, a qual é um ingrediente indispensável ao sucesso da sua inflexibilidade.

Ao contrário de Ananke, a economia 'aceita sacríficios' de bom grado e agrada-lhe o incenso da popularidade e do poder. Mais uma vez, isso acaba por 'levar água ao moinho' da deusa.

Claro que é mister substituir este mito grego por uma fábula moderna, adornada de equações e fórmulas esotéricas. E embora, no fundo, seja pior explicação do que o original, não deixa de ser uma exigência do mundo que, entretanto, criámos.

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

(Esposende)

CIRO



"Eu nunca tive medo de homens que têm um lugar particular de encontro no meio da cidade, onde juram isto e aquilo e onde se enganam entre eles."

(Cirus, in "Nozze di Cadmo e Armonia" de Roberto Calasso)

O rei dos Persas avalia a força da sua nação em termos de eficácia militar, de unidade e coesão dos seus súbditos, comparada com a fraqueza correspondente de Atenas.

Cirus pode não ter medo da democracia ateniense, em contrapartida, cada um dos seus súbditos teme-o a ele. A teocracia de alguns dos actuais regimes orientais e a ferocidade, aos nossos olhos, dos seus códigos vêm da mesma cimenteira do medo.

Xenofonte escreveu um panegírico sobre o rei persa ("Ciropedia"), onde ele nos é apresentado como um homem virtuoso e sábio.

Talvez seja por isso que não se contente com expor a fraqueza da organização política e militar dos Atenienses, mas considera também que a mentira reina na sua política e que os democratas se iludem num engano mútuo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

(José Ames)

ATÉ À BORRA


  www.geocaching.com         


" A adaptação a uma nova situação, boa ou má, consiste em grande parte em pensar cada vez menos nela."
(Daniel Kahnman)

Quase nunca um novo factor se apresenta como um problema de adaptação; adaptamo-nos, pouco a pouco, sem pensar nele. É o processo 'natural', o da 'evolução das espécies.

Mas, é claro que, por exemplo, a 'engenharia social' pode colocar um problema de adaptação (às vezes traumático) de que em princípio deveríamos ter consciência. O que acontece é que quase nunca controlamos as consequências (daí Karl Popper aconselhar a 'pequena cirurgia').

A 'grande cirurgia', sendo muito mais arriscada, como a de Lenine ou a de Gorbatchov, se nos esquecermos dos enormes sacrifícios que representaram, neste caso, para o povo russo, é uma grande oportunidade para o conhecimento humano.

A adaptação de uma sociedade maioritariamente rural ao lema dos 'sovietes mais a electricidade' foi uma epopeia e, ao mesmo tempo, uma catástrofe humanitária, que acabou por 'sovietizar' o campesinato com uma religião materialista. Pelo seu lado, a 'Perestroika" do mais célebre 'aprendiz de feiticeiro' dos tempos modernos, trouxe um caos que em nada fica atrás, em custos humanos, do que foi causado pelo regime do czar ou da revolução bolchevique, antes de Estaline.

Todos sabemos por experiência própria que, na maioria dos casos, somos capazes de nos adaptar a uma situação nova, tanto melhor quanto menos ela exigir que pensemos nela.

Segundo o fresco impressionante do último Nobel da Literatura, pensar no destino da Rússia tornou-se cada vez mais um sintoma de desadaptação. Não pensar nisso tornou-se completamente impossível, sem beber a alma até à borra.


domingo, 29 de novembro de 2015

Santo Tirso

O CAPACETE


http://g01.a.alicdn.com/kf/HTB1sBVfJFXXXXXNXXXXq6xXFXXXS/High-quality-blue-color-LED-font-b-robot-b-font-font-b-helmet-b-font-for.jpg


"(...) a ciência pensa como uma assembleia, como um tribunal ou uma igreja, e funciona como eles, de maneira que, na realidade, a história das ciências evolui, no pormenor como nas leis de conjunto, como uma repetição da história das religiões ou do direito."
(Michel Serres)

"(...) visto que a tradição nos impõe que apenas existe objecto de conhecimento para um sujeito individual e que o colectivo não pode conhecer objectivamente, pois o seu único objecto são as suas relações." (idem)

Apesar de se dizer que 200 cabeças pensam melhor do que uma só cabeça, a verdade é que uma assembleia não pensa, embora geralmente possa decidir, segundo certas regras e na base de ideias pensadas individualmente. Simone Weil dizia que um colectivo nem sequer consegue fazer uma conta de somar.

A pertinência daquele adágio está nisto: que 200 cabeças, pensando por si, dão melhor conta do interesse colectivo do que uma cabeça 'iluminada'. Quando se entra numa assembleia, o colectivo é uma espécie de capacete que condiciona o pensamento. Isto é ainda mais verdadeiro em relação aos partidos.

Mas o filósofo diz, na epígrafe, que a ciência 'pensa' como uma assembleia. E uma das saídas deste paradoxo é considerar a assembleia como o momento da decisão. A 'reflexão', neste caso, é pura retórica, visto que os partidos já reflectiram no local próprio, antes da assembleia. Um congresso é o estado mais depurado deste ritual. A história destas decisões é que poderia ser tomada como a história do pensamento objectivado quer do órgão político, quer do direito quer mesmo das ciências.

sábado, 28 de novembro de 2015

Alentejo (José Ames)

POR DETRÁS DA CRUZ

“Suffering man” de Matthias Grunewald


"O repúdio do nome e do predicado de religião nas ordens ocidentais é talvez o sinal mais tenebroso da renúncia ao mandato entre todos santo e precioso: confirmar, custodiar destinos. Porque a religião não é senão o destino santificado e o massacre universal do símbolo, a inexpiável crucificação da beleza, como já disse, é o massacre e a crucificação de destinos."
"Os Imperdoáveis" (Cristina Campo)


Isto anda muito próximo do "amor fati" dos estóicos e do pensamento de Simone Weil.

O mandato de que aqui se fala é o da obediência de livre vontade ao que, de qualquer modo, nos destrói.

Podemos, em vez disso, rebelar-nos em nome da utopia, como se a única legitimidade fosse a humana.

Porque só vemos sentido naquilo que nós mesmos criamos, embora isso seja uma ínfima porção do que somos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Cork