segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
SIMPLIFICAÇÕES
http://hugues-bazin.recherche-action.fr/2006/12/06/complexite/
"Os sistemas complexos são incapazes de completamente apreender a sua própria complexidade (...). Eis por que, nos sistemas complexos, todas as operações são dispostas de maneira redutiva, e isso tanto relativamente à sua própria complexidade como à do seu ambiente. (...) Cada auto-observação e cada auto-descrição deve desde logo assentar sobre uma auto-simplificação."
"Politique et Complexité" (Niklas Luhmann)
Observo-me porque não me conheço. Mas as informações que recolho correspondem a uma selecção em função duma teoria simplificadora sobre mim próprio. Só essa redução pertinente da complexidade me permite comunicar com o meio ambiente sem nele me dissolver.
Luhmann diz mais, que "quanto mais rico for o equipamento semântico da auto-observação, mais o sistema pode fazer depender as suas operações internas dos acontecimentos exteriores aos quais ele deve tratar como relevando do acaso (...)"
Está aqui esboçado um esquema de interacção entre dois sistemas. Vemos, assim, que quanto maior for a informação dum sistema sobre ele próprio (e não necessariamente num sentido realista), mais está em condições de se abrir ao meio envolvente. Mas também que deverá abdicar de compreender o outro sistema (ou o seu meio ambiente) como dotado duma lógica. Em relação aos outros a teoria do acaso é a que mais se assemelha à da própria complexidade.
Claro que a psicologia constantemente infringe esta regra, e não podia ser de outra maneira.
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
A ARTE INSTANTÂNEA
(Kasimir Malevitch)
"Aqui, Malevitch envia-nos para a tradição cultural valorizada da contemplação mística, para o platonismo e o seu amor pela geometria, como para o ícone cristão. Assim, a grande tradição cultural, que em Duchamp permanecia em plano de fundo, encontra-se em Malevitch no primeiro plano. Mas, ao mesmo tempo, o "Quadrado Negro" de Malevitch é uma figura geométrica profana que remete em primeiro lugar para o mundo profano da técnica, das construções técnicas e da produção de massa estandardizada; por outras palavras, é igualmente um ready-made."
"Du Nouveau" (Boris Groys)
Portanto, uma intrigante ausência de "valor acrescentado", do ponto de vista da capacidade técnica e da criatividade artística que é característico de tanta pintura moderna, como justamente aquele quadro de Malevitch ou a obra de Rothko, quando comparada, por exemplo, com a tradição clássica, cujo nível técnico era difícil de alcançar, compreende-se à luz do gesto inaugural de Duchamp que, pela simples descontextualização do objecto profano acedia ao valor artístico.
É que, de facto, dentro deste espírito, não é importante o trabalho a que o artista sujeita as formas, seja deformando a "Mona Lisa" ou entregando ao acaso mecânico a modificação duma obra consagrada ou de qualquer objecto do mundo 'profano'. O caso é que este objecto já está pronto (ready-made) para receber o estatuto de obra de arte, pela pura intenção do artista.
Toda essa cultura teria redundado numa grande insignificância e na desvalorização geral da arte se não se tivesse que se medir com aquilo a que Groys chama de arquivo cultural (de que fazem parte, por exemplo, os museus e as bibliotecas).
"A cultura é já sempre uma hierarquia axiológica. Todo o acto cultural ratifica ou modifica esta hierarquia. (...) Obras de arte e teorias são comercializadas no mercado conformemente ao valor que lhes é atribuído pelos acontecimentos culturais."
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
DESFAÇATEZ SNOBE
http://platea.pntic.mec.es/cvera/exfrances
"Quem quer que o conhecesse teria ficado tão surpreso como eu. A gente mundana de bom grado se dispõe a falar calão, e aqueles a quem se pode censurar certas coisas, a mostrar que não receiam falar delas. Prova de inocência aos seus olhos. Mas essas pessoas perderam a escala, não se dão conta do grau a partir do qual um determinado gracejo, se tornará demasiado especial, demasiado chocante e será uma prova mais de corrupção do que ingenuidade."
"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)
Este tipo de audácia, ou de descaramento, é a confirmação de que podemos moldar o interior pelo exterior.
Já Platão queria banir da sua utopia a imitação de certos estilos orientais na poesia e na música, por causa do seu efeito desmoralizante sobre os guardiões da cidade.
O próprio pode deixar de pensar na contradição e só um observador alertado que possa comparar essa atitude com os actos que a contradizem não cairá no logro.
terça-feira, 28 de novembro de 2017
A DEMOCRATIZAÇÃO DA ARTE
"Enquanto a massa se volta para aquilo que é reconhecido como tendo valor cultural e, do mesmo passo, o desvaloriza, a estratégia própria à economia cultural consiste em compensar essa desvalorização dos valores culturais pela valorização do que é destituído de valor. É por isso que a valorização do que é destituído de valor é tanto um sinal de democratização da cultura quanto de resistência a essa democratização."
"Du Nouveau" (Boris Groys)
A partir do momento em que o consumidor de arte pode dizer: "Isto também eu fazia!", com o que culmina realmente a democratização, tanto na produção como no consumo de arte, parece evidente que não existe um valor intrínseco, escondido nas obras de arte que se trataria de decifrar ou revelar.
Groys diz também que "a pretensão de uma actividade criadora espontânea a partir do nada parece ingénua." Quer dizer, que o acervo histórico das obras de arte, todos os museus e bibliotecas, são, cada vez mais conscientemente, o necessário ponto de partida para a inovação. Situação que nos faz pensar na antiga escolástica, quando a citação e o comentário do comentário eram tudo quanto se podia esperar em termos de originalidade.
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
A FÉNIX SEM MEMÓRIA
(Buda gigante de Bamyán)
"Tomemos como exemplo os primeiros cristãos. Eles abandonaram a cultura pagã e foram para os desertos, para o espaço mais profano da sua época. Esta partida pode ser interpretada como uma destruição simbólica da cultura. No fundo, o eremitismo cristão é uma inovação que revaloriza o profano e desvaloriza os valores estabelecidos."
"Du Nouveau" (Boris Groys)
A gruta dos eremitas vai adquirir "mais valor do que os valores mais antigos. No decorrer do tempo, constroem-se nesse lugar igrejas cada vez mais sumptuosas, ornadas de frescos e de oferendas votivas. Mas são sempre as relíquias do santo homem que constituem o maior valor, assim como um pequeno número de coisas simples, quotidianas que ele utilizou - o ready-made da sua santa vida, se quisermos."
Os talibãs que destruíram os Budas gigantes de Bamiyán não acabaram com uma real ou suposta idolatria, apenas transferiram o valor dessas estátuas para a cultura kitsch do proselitismo islâmico. E se tivessem "world enough and time", no próprio lugar da destruição, simbólica ao mesmo tempo que real, veríamos erguer-se o templo ou o museu dos novos valores.
Por muito crua que nos pareça esta "transvaloração", se pensarmos no que o Cristianismo fez aos mais belos templos pagãos, alguns dos quais sobrevivem como cativos, sob a forma de uma coluna e do seu capitel, integrados na nave da catedral, concluiremos que a história não nos conta outra coisa.
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
O LAÇO VIVO
(Man Ray)
"Podemos descrever sumariamente do seguinte modo a percepção do corpo de outrem:
a) nunca é objectiva. Não há percepção "tal qual" do corpo de outrem. A menor vibração do afecto faz variar os elementos objectivos do corpo percebido (estatura, forma, cor, etc.). Ora, como a percepção do corpo implica sempre uma relação afectiva, estas variações nunca se detêm. (...) Não há um sujeito aqui que perceba ali um corpo, mas um laço vivo de forças constituindo o solo sobre o qual se ergue a percepção das formas;
(...)
b) não é subjectiva. Porque este "objecto" percebido é sempre outro porque inapreensível do interior; o exterior resiste, é ele que esquematiza o meu/seu interior, é ele que impõe uma forma e uma materialidade à percepção."
"A Imagem-Nua e as Pequenas Percepções" (José Gil)
Está aqui delineada uma teoria da física paradoxal do corpo a corpo (Gil chama-lhe metafenomenologia). Que explica as perturbações da linguagem no campo da nudez, o terror que pode provocar o corpo que passa a ser a órbita do rosto e não o seu "suporte" e, evidentemente, o desejo, como rapto da afectividade, sem distância para as palavras.
No corpo, tudo é expressivo (Cunningham, citado por José Gil). Ao contrário da "boutade" de que tudo é político, não nos custa nada admitir que a presença do outro faça todo o nosso corpo responder com a imagem induzida pela imagem que o outro projecta, mas que é, ao mesmo tempo, máscara e recusa de identificação. Logo, aqui tudo é expressão, conforme e contra a imagem.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
FRANÇOISE
"(...) ela tinha conservado da sua infância duas particularidades que podia parecer deverem excluir-se, mas que quando se encontram reunidas, se fortificam: a falta de educação da gente do povo que não procura dissimular a impressão, e até o doloroso alarme nelas causado pela visão de uma mudança física que seria mais delicado parecer não notar, e a rudeza insensível da camponesa que arranca as asas das libélulas antes que tenha ocasião de torcer o pescoço dos frangos e a quem falta o pudor que lhe faria esconder o interesse que lhe despertava ver o corpo que sofre."
"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)
Proust descreve a reacção da velha criada Françoise ao ver entrar, desfigurada pelo ataque de que acabava de ser acometida, a avó do narrador. E frisa que esta aparente insensibilidade não era devida à falta de amor pela doente, de quem, pelo contrário, muito gostava.
Marcel pode, assim, observar as duas atitudes opostas, ditadas por códigos de classe diferentes na forma de lidar com o sofrimento ou a diminuição do outro. A filha, evitando olhar o rosto devastado da mãe para não lhe transmitir a sua própria aflição e a da criada, cuja indiscrição revela toda uma outra "política": a das chamadas verdades da vida, ao mesmo tempo que isso lhe permite assumir a impassibilidade que a outra atitude procura pela esquiva e pelo pudor.
A curiosidade de Françoise, por outro lado, não está isenta de uma nuance de crueldade e de filosófico desagravo. Como boa católica, podia ver a justiça dos Céus repor nesse momento uma igualdade que a sociedade não cessava de desmentir.
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
Subscrever:
Mensagens (Atom)














