segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
O CONSENSO
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"O consenso é apenas um estado das discussões e não o seu fim. Este, na verdade, é a paralisia."
Jean-François Lyotard ("La condition post-moderne")
Isso depende do tempo de que se trata. O tempo da acção não é paralisado pelo consenso, antes pelo contrário. Ele pode ser o clique que a precipita, por corresponder a uma opinião previamente condicionada e aparentemente 'espontânea'.
Porém, a discussão foi tão-só interrompida pelo consenso. Os 'dados', uma vez lançados, modificam a situação e as opiniões. Se a 'assembleia' permanecesse em discussão aberta depois do primeiro consenso, logo a necessidade de um segundo acordo se apresentaria, confirmando ou alterando a sua primeira forma.
Não é assim, evidentemente, que funcionam os órgãos políticos de decisão. O que se parece mais com o modelo implícito de Lyotard é a reflexão solipsista que, de facto, mesmo se o acordo é apenas consigo própria, não pode deixar de continuar a discutir.
Claro que o 'fim da discussão' corresponde a uma paralisia do pensamento para o indivíduo, mas é um pressuposto da acção. Razão por que faltam ao 'solipsista' as motivações 'terrenas' para agir.
domingo, 31 de janeiro de 2016
HOMO SIMPLEX
"(...) a ideia que Engels retirou de Saint-Simon: a dominação dos homens pelos homens cede lugar à administração das coisas."
(Jürgen Habermas)
Foi esta fórmula que inspirou a Lenine a célebre parábola da cozinheira, suficientemente instruída para dirigir o Estado proletário, a qual, por sua vez, esteve na origem de "La cuisinière et les mangeurs d'hommes" de André Glucksmann.
A ideia é 'proletária', como diria Alain. Se a sociedade deixar de ser 'artificialmente' complicada pela desigualdade nas 'relações de produção', isto é, quando a 'divisão de tarefas' implicada pelo sistema de produção for apenas técnica e sem consequências políticas e sociais, quando, finalmente, a sociedade, vendo-se ao espelho, se reconhecer numa imagem sem fracturas 'esquizóides' (Deleuze), inconsútil na unidade virtuosa do 'bom selvagem' todos os problemas políticos serão mitológicos e o governo do Estado poderá ser entregue a um administrador ou a uma administradora medianamente competente.
O 'espírito proletário', confrontando-se com um problema mecânico, vai direito ao assunto sem mais subtilezas interpretativas. A ferramenta (a revolução), existindo desde os Profetas Alemães, há só que aplicá-la, pondo fim ao palavreado inútil que mais não é que um sofisma da 'ideologia dominante'.
A realidade, depois desta terraplanagem teórica, torna-se de facto muito simples. E a única divisão que persiste é entre os que têm e os que não têm 'vontade política'.
sábado, 30 de janeiro de 2016
LEVIATÃ
Frontispice du Léviathan de Thomas Hobbes
Na política, onde se encontram tantas paixões, qualquer coisa tem de ser sempre de mais, ou sempre de menos. O ponto de vista é rei e, dum certo ponto de vista, todos têm razão. Quando há um acordo sobre o princípio é para melhor se dissentir na aplicação.
Reclama-se tempo para estudar ou para negociar e ao mesmo tempo quer-se a energia e a coragem de cortar a direito.
Embora todos saibam que decidir não é conciliar, nem contemporizar, mas preterir, pôr de lado, sacrificar, ter uma agenda e ter prioridades, a escolha a todos escandaliza. Não sendo as mais importantes, as questões de forma ocupam toda a cena política.
É desta algazarra, porém, que sai o poema coral e, se não se vê uma racionalidade, é porque um equilíbrio de tensões não é um pensamento, mas é como que um ser natural que se move sempre para a frente e sempre em risco de cair.
"Não se desmonta uma máquina enquanto ela trabalha; assim, para que a unidade do indivíduo se mantenha e se confirme, é preciso que uma cooperação constante associe as suas forças, e que o equilíbrio sem cessar ameaçado seja sem cessar reparado, como numa marcha que é com efeito apenas uma queda sempre impedida."
"L'action" (Maurice Blondel)
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
ENTRE CILA E CARÍBDES
"Alain é daqueles que sabem que crêem, e não daqueles que crêem que sabem."
(André Sernin)
Não podemos culpar a Europa que cumpre uma rotina ao mandar-nos os seus 'legatis in partibus' para nos lembrar os nossos compromissos, de acordo com regras consentidas, regras que, desde o princípio, servem para normalizar a 'relação de forças' e a violência da sociedade real. Não preciso de lhe chamar capitalista, o que tal sociedade obviamente é, porque no capítulo da violência estrutural, nenhuma utopia política que até agora se tenha tentado levar à prática foi capaz de resolver esse problema.
O poder da União Europeia não se pode definir por nenhuma das alternativas em epígrafe. Com efeito, não precisa de crêr que sabe, nem de saber que crê. Porque toda a sua ciência é administrativa e fiscalizadora das suas condições de auto-preservação, e mais não se pode pedir à burocracia, ou ao 'Afável Monstro de Bruxelas', como lhe chamou Hans Enzensberger. Como a União não existiria sem a criatura, com mais ou menos decoração democrática, o melhor é procurar outro antídoto, dado que uma certa dose de burocracia é sempre necessária.
Se isto for verdade, Catarina Martins (não falo do resto da esquerda porque tem uma história de bloqueamento suficientemente elucidativa.) talvez não seja tão irrealista como parece nas entrevistas da televisão. Porventura ela sabe que crê, porque ninguém sabe, e muito menos os técnicos de economia e as agências de notação que, no entanto 'existem', como verdadeiros escolhos.
Mas a política pode ser um mar agitado e o importante é encontrar passagem entre Cila e Caríbdes.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
HIPNOSE
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"(...) ele quis acordar do sono antropológico todos aqueles 'que não querem pensar sem ao mesmo tempo pensarem que é o homem que pensa.'"
(Jürgen Habermas, referindo-se a Michel Foucault)
Como se sabe, Kant tentou despertar-nos, a primeira vez, de um sono 'dogmático', sono que impedia a razão de reconhecer os seus próprios limites e a fazia correr atrás dos nossos sonhos.
Mas, entretanto, a filosofia descobriu um sono mais profundo ainda, aquele que tem sustentado, há mais de dois milénios, a noção de sujeito que está na base da civilização ocidental e do próprio monoteísmo.
Desde que o objecto de estudo passou a ser a forma e as condições do pensamento, a estrutura linguística e as suas regras, de acordo com o programa materialista (que já vem de Demócrito - Marx dixit), a 'hipótese de Deus' tornou-se, de facto, supérflua (Laplace).
O inesperado surge com a necessidade teórica de fundamentarmos a existência de um sujeito individual que pensa, depois da genial tentativa cartesiana. E dá-se que a hipótese de tal indivíduo, pode ser, também ela, afastada.
A conclusão é a de que não podemos pensar o que pensamos. Algo, a linguagem, o contexto, a história, a Natureza, nos confisca essa autoria. Já dizia o poeta: 'o que em mim sente, está pensando'. E Freud cavou no mesmo terreno com o seu Inconsciente.
Até a fórmula de Alan Kay, um pioneiro dos computadores ('A melhor maneira de predizer o futuro é inventá-lo.'), parece parte de uma hipnose.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
O VAZIO
www.elephantjournal.com
"'A acústica do vazio'. Quando um alfinete cai no soalho de um quarto vazio, o ruído que faz parece desproporcionado, desmedido: é o mesmo que acontece quando o vazio reina entre os seres."
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)
Basta a mobília para que um quarto não esteja vazio. Ninguém precisa de estar lá. Entre os seres, é o tempo (em) comum que os 'mobila'. Não só o passado, porém, mas todos os modos do tempo.
Perante um desconhecido não é o vazio que aparece, mas as projecções recíprocas de um futuro, por insignificante que seja. De facto, o que é natural é darmos-lhe algum crédito, antes de sabermos se o merece. Alguns dos mudos figurantes da nossa 'comédia humana' são mesmo indecifráveis e, provavelmente, profundos (de um modo não queirosiano). Mas o vazio nunca é o caso.
O cineasta Antonioni, nos anos setenta, ficou célebre por ter introduzido em alguns dos seus filmes o tema do silêncio entre as personagens, uma espécie de 'mal de vivre' sem causa específica. É, contudo, legítimo pensar que o cinema tem a sua própria geneologia e que este desconforto das personagens de Antonioni descenda, por emaranhados caminhos, do 'Rebel whithout a cause' de Nicholas Ray. O ponto, no entanto, é que o vazio não dá lugar a nenhuma rebeldia. São mundos separados por velocidades diferentes. Daí a incomunicabilidade que James Dean tão bem exprimiu.
A frustração e a impotência é que preenchem esse silêncio. Coisas negativas, decerto, mas que não fazem o vazio.
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
A NOVA LÍNGUA
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(www.hobotraveler.com) |
"(...) existe agora uma linguagem do bem e do mal, inteiramente nova, que dá origem a uma tentativa de ir 'para além do bem e do mal' que nos impede doravante de falar com qualquer convicção acerca do bem e do mal. Mesmo aqueles que deploram a nossa condição moral o fazem na própria linguagem que exemplifica essa condição. A nova linguagem é a do relativismo dos valores, e constitui uma mudança na nossa visão das coisas da moral e da política tão grande quanto aquela que ocorreu quando a Cristandade substituiu o paganismo Grego e Romano. Uma nova linguagem reflecte sempre um novo ponto de vista, e a popularização gradual, inconsciente de novas palavras utilizadas de nova maneira, é um sinal seguro de uma mudança profunda na articulação do povo com o mundo."
"The Closing of the American Mind" (Allan Bloom)
O Estado absolutista não descurou a necessidade de controlar a língua e de normalizar as regras da gramática e da sintaxe, tentando, assim, pôr em execução uma 'polícia da palavra' que compreendeu ser tão ou mais importante do que a polícia dos costumes. Mas, no fundo, trata-se de uma utopia política, como aquela que Platão tentou implementar em Siracusa, com risco da sua vida.
O controlo da sociedade sobre o indivíduo parece ser o alfa e o ômega da política. Um controlo eficaz seria compatível com qualquer regime. Levar-se-ia o prisioneiro a louvar as grades e o mais escravo a submeter-se, feliz, porque 'compreensivo', fazendo de Job um caso de rebeldia e de contumácia.
Claro que a 'sociedade', depois de Marx, pode ser vista como a mais ingénua das imposturas. O controlo social é, antes de ser do interesse da sociedade como um todo, satisfaz os privilégios da 'classe dominante'. Estas são palavras que já foram novas e que mudaram a maneira de pensar das pessoas.
Mas hoje existem outras palavras que expõem esse dogmatismo, uma vez revolucionário, e denunciam a natureza retórica dos seus argumentos.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
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