sábado, 9 de janeiro de 2016

BALÍSTICA DO SILOGISMO





"Porque se se pensasse que a "consciência" é passível da dialéctica, seria o seu fim. Nada de mais perigoso, aqui, do que as deduções lógicas, do que as ideias claras e distintas, do que o simplismo. As crenças vitais do homem resultam de longos tacteamentos, de inúmeras provas e por assim dizer duma lenta acumulação: aí se resume mais sabedoria e previdência do que nos sistemas dos mais luminosos génios, ou nos profundos pensamentos de toda uma academia."
"L'action" (Maurice Blondel)

É por isso que uma conversa ou uma discussão não convencem ninguém. Se aquelas ideias e sentimentos de que dependem o nosso equilíbrio psicológico e o nosso "mundo" estivessem à mercê do primeiro silogismo, poderíamos realmente ser substituídos pelos computadores que, esses, são impecavelmente lógicos.

Por exemplo, as pessoas não mudam de pensar em função daquilo que vêm e ouvem na televisão.

Contudo, o facto de verem as suas opiniões e apreensões repetidas e elevadas à enésima potência pela sondagem televisiva isso equivale a uma espécie de verdade objectiva, imune a qualquer filosófico cepticismo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

(José Ames)

A SERPENTE

A "Orelha de Dionísio"

"(...) quando a serpente da frase administrativa tivesse sido engolida até à cauda pela sua orelha."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

São alguma espécie de pensamento essas frases da língua administrativa? Musil diz que são de natureza reptiliana e que a sua função é deixar o ovo da serpente no fundo do ouvido.

O ouvido é o sentido nocturno com acesso à parte mais primitiva do nosso cérebro, também chamada de reptiliana. Era o alvo do histerismo discursivo do líder nazi. E há uma história relacionada com a célebre Orelha de Dionísio, em Siracusa, que nos mostra o tirano no acto de 'emprenhar pelos ouvidos' com os segredos políticos dos prisioneiros.

O ouvido 'nidificado' pelo mal (é esse o simbolismo da serpente na nossa cultura) passa a filtrar todo o discurso pela membrana administrativa (em que os homens são considerados como coisas).

Em tempo de guerra, é essa ausência de pensamento que leva a máquina militar aos extremos do não-humano.

Mas em tempo de paz, o discurso administrativo continua a ser o ventríloquo da serpente.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

(Porto)

A BANALIDADE DAS ELITES

(Tony Judt)



"Um compromisso com o universalismo abstracto dos 'direitos' e posições éticas intransigentes tomadas em nome deste contra regimes maléficos podem com demasiada prontidāo levar ao hábito de colocar 'todas' as escolhas politicas em termos morais binários."
(Tony Judy)

Será que este reducionismo se pode evitar quando as massas entram em 'ebulição', ou quando exercem um poder de controlo remoto?

Elias Canetti, em 'Massa e Poder', analisa este fenómeno de 'colusão' que é a força sem sujeito de uma multidão. Os movimentos da massa, embora possam ter grandes consequências na vida de uma cidade ou de um país, não chegam a ser propriamente políticos. O seu domínio é o da energia e do magnetismo. Hitler, por exemplo, intuiu o grande poder da imaginação na indução desse magnetismo.

Os nossos tempos trouxeram a esta problemática a emergência de uma nova situação em que os 'media' criam na massa potencial uma espécie de estado de alerta que dispensa a sua 'mobilização', como se dizia nos anos setenta.

A 'moralidade binária' é o produto destilado deste soçobro das elites na banalidade (do mal, apetecia acrescentar) e desta falência da cultura moderna em integrar a tradição.

É o maniqueísmo revisitado como se fosse a primeira vez.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

(José Ames)

A GEOMETRIA



"Não  podemos  considerar  uma  curiosidade  histórica  o  facto  trágico  e  fatal  de que,  nas  datas  em  que  se  anuncia  a  morte  de  Deus,  o  mundo  objectivo  baixa  as defesas,  retira  os  seus  obstáculos,  alivia  a  cruel  e  velha  Necessidade,  começa  a perder  as  suas  batalhas  perante  as  nossas  técnicas  agressivas  e  triunfantes, retira-se,  humilhado,  para  trás  das  nossas  representações,  em  resumo,  entra  em agonia.  A  bomba  troveja  a  morte  do  mundo,  apenas  meio  século  depois  da  morte de  Deus.  As  duas  transcendências  abandonam  o  mesmo  lugar  mais  ou  menos  ao mesmo  tempo.  Eis-nos  obrigados  a escrever  uma  filosofia  da  agonia da objectividade transcental  e do seu renascimento, hoje em dia."
(Michel Serres)

A ideia de um mundo objectivo 'à defesa', guardado pelo dragão da Necessidade, correlato do demiurgo supremo, insondável e imprevisível nos seus desígnios, dispensador do sentido da vida, parece, afinal, bastante lógica.

Por isso se dá um volte-face panteísta, quando Deus sai de cena. Ainda o filósofo: "O objecto  natural  toma  o  lugar  de  Deus;  pode  mesmo  coexistir  com  ele  no mesmo  lugar,  sendo  apenas  essencial  que  compreenda  bem  esse  lugar,  uma  das metamorfoses  do  qual  será  essa  caixa  branca,  fonte  de  um  discurso  interminável e, portanto, de um longo tempo da história, o espaço puro da geometria."

A 'caixa branca' não contém a memória do acontecimento, como a 'caixa negra' dos aviões. No fundo, dir-se-ia antes o invólucro do mundo platónico das ideias, onde elas não chegariam a ter uma actualidade ideal, mas 'decorreriam' directamente do 'lugar de Deus'.

Por outras palavras, tivemos de passar por Deus para sermos geómatras.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

(Vila Nova da Cerveira)

O PRÍNCIPE


(Niccolò Machiavelli)


"Ele pode realizar muito boas acções, mas quando as circunstâncias requererem um caminho diferente, ele será 'esplendidamente mau'."
(Maquiavel)

Deve cobrar-se aos 'maus' o prazer que sentem em fazer o que é preciso? Eles poderiam, se as circunstâncias fossem outras, sentir o mesmo prazer em fazer o que agrada aos que agora o criticam...

Maquiavel diz que os esporadicamente bons se podem tornar esporadicamente maus, mas de uma forma 'esplêndida'. É a necessidade que distingue a maldade 'esplêndida' da maldade natural.

Na realidade, não há bem nem mal no que é necessário e essa é uma verdade intuitiva. Não se discute uma operação aritmética (na verdade trata-se aqui de um outro tipo de necessidade - geométrica, como alguns lhe chamam), nem a moral é para aqui chamada. O que acontece na vida política é que as 'operações' são muito mais complexas e o resultado não se impõe a todos da mesma forma e com igual clareza.

A arte do florentino é a de dissipar o nevoeiro e procurar a clareza no manual do príncipe. Ao esclarecer a cabeça do Estado, faz um trabalho de saúde pública que tenta evitar aos súbditos os sacrifícios inúteis e o confronto com o inevitável.

Mas não deixa de ser um fatalismo, imposto por meios racionais, que beneficia em última análise o poder do Estado.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

(José Ames)

A PESTE


Vladimir Nabokov

"Tenho feito uma devassa aos meus velhos sonhos, no encalço de chaves e directrizes e desde já se diga que rejeito por completo esse banal, mesquinho e sobretudo medievo universo de Freud, com o tortuoso inquérito que faz aos símbolos sexuais (um tanto como procurar acrósticos de Bacon nas obras de Shakespeare) e a espreitadelazinha, com o seu quê de amargo e embrionário, que dá à vida amorosa dos pais para a despojar, depois, de toda a naturalidade."
"Fala, Memória" (Vladimir Nabokov)

O universo de Freud, pelo menos, estimulou essa 'devassa dos velhos sonhos', a que, realmente, não podemos resistir.

A partir de uma certa complexidade, a 'naturalidade' deixou de satisfazer-nos. Assistimos, então, como que ao nascimento de um mito moderno. Para fazer acreditar o seu mito, Freud só tinha que se 'apropriar' da Antiguidade clássica. E, a verdade é que pelo método da análise linguística e literária conferiu às suas teorias um grande poder de explicação. Isto é, criou o contexto simbólico que tornou necessária uma explicação sob a forma de um mito moderno.

O êxito da psicanálise nos E.U.A. revela o trabalho civilizador do mito freudiano. Embora, seja conhecida a comparação da psicanálise com a peste feita pelo próprio Freud antes de desembarcar naquele grande país, não é razoável pensar que esse comentário tivesse sido feito em detrimento da sua própria 'ciência'. Os americanos é que se encontravam num estado de virgindade tal (como os nativos à chegada dos primeiros europeus), facto que iria potenciar a energia refundadora do novo mito.

Talvez a resistência do escritor russo seja um saudável movimento de defesa perante a ameaça para a literatura que a psicanálise representava. No cinema, por exemplo, só conheço Hitchcock que tenha escapado ao perigo, transformando a ideia da psicanálise em força dramática.

sábado, 2 de janeiro de 2016

(Amboise)

APORIAS DA VONTADE

Simone Weil (1909/1943)

"(...) Não sabemos que uma conclusão legitimamente fundada sobre um princípio do qual conhecemos o erro acaba por parecer sólida e legítima?

- Prestígio comum do sofisma de acumulação ou de abstracção que prova apenas uma coisa, e é que se quer infinitamente mais do que o que se encontra onde se procura, mas que somente se procura onde se quer encontrar. Quantos colocam assim o que eles querem justo onde ele não poderia estar!"
"L'action" (Maurice Blondel)

Blondel diz também que a vontade é infinita (porque integra o que nos ultrapassa, sem deixar de ser nossa) e que é impossível destruir essa tendência, "ao mesmo tempo que é fácil perverter o seu sentido."

Uma vontade que não é inteiramente consciente e senhora de si vai muito para lá duma ética da responsabilidade, e o autor crê na bondade essencial do ser.

Mas é uma impressionante confirmação da frustração da vontade e da independência e imprevisibilidade dos nossos actos. Daí que tenhamos igualmente de procurar "às cegas".

Sabedoria, então, da espera weiliana que apenas deseja, sem se mover.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

"Andrómaca" (José Ames)

A QUESTÃO JUDAICA



"A pretensa questão judaica desvanecer-se-ia num momento se os Judeus se decidissem a falar hebreu, a retomar os seus antigos patrónimos e a envergar o antigo hábito oriental (...)"
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

A opinião é a de um conservador e membro do governo da Cacolândia, o conde de Leinsdorff. A simplicidade dessa opinião é desarmante.

A obra de Musil foi publicada entre 1930 e 1943, uns anos antes do nascimento do Estado de Israel. Com este acontecimento, a realidade veio provar, de certa maneira, que a 'questão judaica' podia ter uma solução. Uma emenda que para muitos foi 'pior do que o soneto'.

Porque a figura do judeu como 'corpo estranho' inassimilável sempre foi um desafio para essa crença na liberdade individual que gostamos de dizer que é própria da nossa cultura política. O estigma é o da sociedade secreta com a sua estratégia que nunca se confunde com a das decisões democráticas. É também este o problema da maçonaria e da organização marxista-leninista. Seríamos, contudo, ingénuos se não admitíssemos que a democracia, sem a mediação dos vários grupos políticos ou profissionais, de todo o tipo de organizações e poderes intermédios seria uma abstracção.

O que é que distingue 'o povo do Livro', na sua diáspora, dos outros grupos sociais? O que não é assimilável é essa vontade de viver entre os 'gentios' como se fossem os eleitos de que fala o Antigo Testamento. Mas essa distinção naturalmente que sofreu uma reviravolta com a criação do Estado de Israel.

O Estado judaico talvez tenha acabado com a 'questão judaica', ou modificado os seus termos. Mas o que salta aos olhos é que esse Estado não é igual aos outros e continua a ser investido com um mandato divino, como as comunidades judaicas que encontraram um 'modus vivendi' entre os gentios e até acabaram por ser patriotas, fora do Livro.

Esse Estado, plantado no meio das nações árabes, está prisioneiro da sua política de defesa e a religião é mais do que nunca um dos baluartes da nação israelita, nesta segunda vida da 'questão judaica'.