quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O ESPANTALHO


Lenine

"A guilhotina" não era senão um "espantalho que quebrava a resistência" activa. Isso não nos basta. [...] Não devemos unicamente quebrar toda a resistência, qualquer que ela seja. Devemos ainda "obrigar as pessoas a trabalhar" no quadro da nova organização do Estado."

(Lenine, Setembro de 1917: "Les Bolcheviks garderont-ils le pouvoir?"; cit.Stéphane Courteois)


A guilhotina, na concepção do sr. Guillotin, seu inventor, devia ser um instrumento 'civilizado', sem os percalços da decapitação manual por um carrasco. Na linha do progresso industrial nascente. Mas, naturalmente, conservava o seu papel dissuasor de repelente político, como, de certa maneira, o espantalho. O mais importante, porém, era o poder corruptor da guilhotina, o que à primeira vista parece paradoxal. Mas lembremo-nos de que o 'incorruptível' Robespierre que não se podia corromper pelo dinheiro, nem talvez pelo poder, foi, na verdade, integralmente corrompido pela Razão, ou, se quisermos, pela loucura da razão.

A tarefa que se impôs Oulianov revelou-se uma tragédia pelo mesmo motivo. Havia à partida aquela declaração de que o medo (o espantalho) nunca bastaria, porque, ao mesmo tempo era preciso despertar um grande entusiasmo pela construção do novo estado. Esse era o nó do problema. Em vez de entusiastas, depois da sua morte, só se podia contar com os escravos do medo.

Staline compreendeu isso muito bem e, perante a contradição, ficou-se pelo tiro na nuca, ou seja, pelo espantalho.

 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

(José Ames)

A TÉCNICA

(Daniel Kahneman)

" A adaptação a uma nova situação, boa ou má, consiste em grande parte em pensar cada vez menos nela."
(Daniel Kahneman)

É assim com o corpo saudável que, em princípio, não nos deveria chamar a atenção para nenhuma das peças do seu 'mecanismo'. Mas o que distingue o corpo de uma verdadeira máquina é a desadaptação permanente: o meio ambiente e o próprio corpo mudam, constantemente.

A perfeita adaptação corresponderia, assim, à conservação no gelo, em que todas as funções vitais e a própria lei da entropia estivessem suspensas.

Desde a teoria da evolução que as espécies parecem ter sofrido um processo de adaptação que estabeleceu o homem no seu trono planetário e, praticamente, com ou sem divindade interposta, no centro do Cosmos.

E, na medida em que falamos do que não sabemos, a antropologia continua a ser o 'horizonte inultrapassável' de todos os nossos 'estudos celestes'.

A ilusão ascendente da espécie justifica que nunca possamos considerar-nos 'adaptados'. Pelo que só poderíamos pensar cada vez menos na adaptação se delegassemos as nossas preocupações em qualquer coisa que 'pensasse' por nós, num regresso da figura da Providência, tornado possível graças à Técnica. 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

(Amarante)

A SURDEZ ESTRATÉGICA


(T.S. Eliot)

"Se o século XVIII tivesse admirado a poesia mais antiga como nós a admiramos, disso teria resultado uma babel: o século XVIII, ou seja aquilo que conhecemos por tal, não teria existido. Os escritores não teriam possuído a convicção necessária para aperfeiçoar aqueles géneros de poesia que efectivamente conduziram à perfeição. A surdez de Johnson para certos tipos de melodia era a condição necessária para aguçar a sua sensibilidade para uma outra espécie de valores verbais."
(T.S. Eliot)

A situação é conhecida, as nossas escolhas supõem um juízo de valor, quer ele seja estético ou moral, mas na realidade actualizam algo de mais profundo que tem a ver com uma espécie de instinto, o de 'perseverar no seu ser', como dizia Spinoza.

Teríamos, talvez, de considerar a 'surdez' de Johnson, e a dos escritores do século XVIII de que fala Eliot, não como um verdadeiro juízo, mas como a estratégia de afirmação de uma nova fé.

O exemplo que melhor serve esta ideia do poeta anglo-americano é o da admiração dos Romanos pela arte dos Gregos que não resultou numa babel, mas no atrofiamento de uma arte própria.

De resto, esta é uma pergunta retórica da parte de qualquer novo artista ou escritor, em face do legado dos que o antecederam: como, por exemplo, escrever em inglês depois de Shakespeare?

De uma maneira ou de outra, podemos imaginar uma nova 'surdez' para cada época, a fim de evitar o desencorajamento dos novos talentos.

A força da admiração tem de ser menor do que a da auto-estima (ou da confiança em si-próprio), para não secar a tinta.


domingo, 27 de dezembro de 2015

(José Ames)

A VIDA TAL QUAL

(Robert Musil)

"É um sinal de saúde renunciar hoje a procurar o acesso desabado da alma, e em vez disso esforçar-se por se acomodar à vida tal qual ela é!"

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Esta frase acaciana é pronunciada por Diotima, dona de um salão influente no reino das 'duas águias'.

O que é mais curioso é que esta fórmula pequeno-burguesa de acomodação ao 'status quo' tem muitas semelhanças com a teoria da evolução das espécies.

Isso, porém, não a torna imune à crítica política do género marxista, que vê por detrás dessa 'acomodação' uma moral de classe. A solução deste paradoxo é a ideia de Revolução, que é a 'tabula zero' de uma 'remissão dos pecados'.

A Vida não exigiria menos do que este 'limpar da lousa' para voltar a pôr a sociedade humana nos trilhos e para, enfim, dar lugar a uma verdadeira adaptação parecida com a de Darwin.

Até lá, até esse Jubileu, o capitalismo só pode evoluir dentro do sistema. E embora não exista nenhuma prova científica para esta fatalidade, por muito que o sistema mude e se 'adapte', por exemplo, à tecnologia, não haverá nada de novo sem um 'reset' apocalíptico.

sábado, 26 de dezembro de 2015


(Cork)

O NÃO-HUMANO

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Toda a verdade tem um carácter não-humano (inhumain), "se se entender aqui por não-humano uma espécie de desconexão entre a verdade e os efeitos de sentido de que o humano se alimenta."

(Alain Badiou)

A verdade não poderia, assim, ser a verdade inteira, por causa deste seu carácter não-humano, de que não podemos fazer sentido. Esta falha explicaria porque sentimos necessidade de distinguir as várias acepções do termo: verdade absoluta, verdade pura, ou verdade comezinha, 'lapalissade'.

Há a verdade do vivido, da nossa experiência que se confunde com a sinceridade, a honestidade, etc., ideia a que a filosofia sempre quis contrapor a verdade objectiva, universal e eterna, conforme a sua origem teológica. Para Platão, por exemplo, o mundo da aparência inclui as nossas próprias opiniões 'sinceras' e a mais 'honesta' das ignorâncias.

No pólo científico, da verdade objectiva e comprovada experimentalmente, a necessidade de 'domesticar' o 'não-humano' e de o abrangermos nas nossas projecções é quase inevitável e de todos os tempos.

"É assim que Descartes, que distingue da metafísica, busca do Ser através do pensamento, a ciência, análise da natureza, não pode impedir-se de unir a ciência à metafísica como o tronco e as raízes da mesma árvore do conhecimento, e de utilizar para uma e para outra a mesma palavra verdade."(M. Deschoux, J. Gagey, P. Bigler, Philos. dernière)






quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

(José Ames)

O CIDADÃO DO MUNDO




(A Carta de 1826 reservava) "a cidadania política para aqueles que tinham meios para uma vida independente, segundo o modelo clássico do cidadão, e interesse na manutenção da ordem pública."
"História de Portugal" (Rui Ramos & al.)

Dir-se-ia que o Cristianismo não passou por aqui. A igualdade, reconhecida no Céu, não está ao abrigo da mesma jurisdição na Terra, e só encontrou tradução política na Revolução Francesa, para confirmação do poder de facto do Terceiro Estado. Parecia ter razão Karl Marx quando viu na revolta e elevação à cidadania dos 'últimos da terra' o princípio da libertação da Humanidade.

A 'vida independente' confunde-se hoje com o individualismo, este, porém, continua a ser uma quimera para grande parte da humanidade, uma quimera que nem sequer pode ser aprovada por todos como um ideal.

Quanto ao interesse na ordem pública, esse, enfim, alargou a sua base de apoio, sobretudo no Estado social, onde a desigualdade é até certo ponto compensada pelos impostos. E mesmo num país como os EUA, tão relutante em constranger de qualquer modo que seja a liberdade dos interesses económico-financeiros de uma casta, a ordem pública merece um amplo consenso. De uma forma contraditória, embora, por se mostrarem conciliadores, não só com o 'lobby' das armas, mas com todos esses anacrónicos cultores dos mitos do Faroeste.

O atraso com que as modas europeias chegavam a este cantinho do continente preservou-nos do ambiente excitado dos grandes momentos de crise. Podíamos repetir os mesmos erros dos nossos 'congéneres', mas estes, encontrando-se já no estádio seguinte, podiam ser mais razoáveis e... mais cínicos.

A presente fase de globalização por via da técnica mudou drasticamente os dados da situação. Diferentes tempos e modos tornaram-se simultâneos e actuais. Tudo isto corresponde ao que se poderia chamar de uma implosão da história e das entidades políticas tais como as conhecíamos.

Será concebível ainda a ideia de um cidadão do mundo?



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015


(Cracóvia)

O DIVERTIMENTO




"(...) por exemplo, para Pascal é claro que a filosofia - entendamo-la como o cartesianismo - é uma forma sofisticada e mascarada de um divertimento."
(Alain Badiou)

Não a contemplação platónica do Bem, nem a 'preparação para a morte' dos antigos estóicos, mas a mundanidade e a aparência das coisas. Foi, no entanto, por esse 'orifício' (o da beleza do mundo, como dizia Simone Weil) que se iniciou a aventura da ciência.

Para Platão a aparência é a ilusão que devemos abandonar na nossa busca da verdade. Descartes endeusa a razão e reconstrói o mundo a partir dela. Mas Kant expõe os limites da racionalidade e a sua inutilidade para desvendar mais do que o mundo dos fenómenos.

Pascal, embora um pensador de génio e um espírito científico nas suas horas, pretende ir direito ao essencial, acessível apenas à fé e ao 'pensamento subtil'. É, contudo, um homem prático e atento às fraquezas da espécie que imagina o célebre 'pari', a aposta numa escolha lucrativa para a alma, independente da fé e do coração.

Isto parece não casar bem com o seu jansenismo e a sua austeridade. Parecia estar a cavalo de dois mundos de uma forma não problemática. Chapeau!

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

(José Ames)

FORA DE ORDEM

Michel Foucault


Segundo Foucault, a verdade pertence ao domínio do controlo social. Assim, existe uma ordem do discurso que legitima as instituições e a estrutura social. Tal como a ideologia, em Marx, o discurso cumpre tanto melhor a sua função quanto menos revelar da sua natureza.

A 'naturalização' do discurso é um processo ininterrupto e abrange todas as formas de poder. A economia, como 'instância determinante' tem tudo para concitar o máximo de 'verdade' exclusiva e o máximo de ocultação. De facto, a crescente sofisticação dos modelos de explicação vai de par com um autoritarismo mal disfarçado. Esta situação assemelha-se, sem grande exagero, ao dogma religioso. Foi o caso do recente 'there is no alternative'.

Claro que, comentando este filósofo da nossa época, que tentou, com génio, uma espécie de geologia do conhecimento, temos de nos lembrar que este conceito de verdade, como 'vontade de verdade', pouco tem a ver com a acepção de verdade que está na base da civilização ocidental.

A instrumentalização da verdade é de todos os tempos, e é a isso que corresponde esta 'vontade' que intenta controlar o discurso 'fora de ordem'.