segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

MARQUISES





"A parte, só pelo facto de ser uma parte, é mais do que ela só, porque exprime a sua relação com todo o resto. Se se reflectir no desenvolvimento das ciências exactas e nos andaimes da construção abstracta, descobrir-se-á que elas insinuam nas suas sínteses sucessivas um carácter crescente de idealidade subjectiva."
"L'action" (Maurice Blondel)

E quanto mais impressionante é esse edifício e mais distante no tempo da construção dos seus alicerces, maior é a ilusão de que nele conseguimos encerrar toda a realidade.

No trabalho de acrescentar piso sobre piso, perdeu-se a proporção e o próprio estilo. Parte-se cada vez mais da última camada de "concreto" para uma nova "marquise".

domingo, 13 de dezembro de 2015

(Setúbal)

O SALÃO DE MALLARMÉ

André Gide (1869/1951)


Em "Si le grain ne meurt", André Gide conta-nos como eram as famosas quartas-feiras à noite de Mallarmé:

"Em casa de Mallarmé, reuniam-se quase exclusivamente poetas; algumas vezes pintores (penso em Gauguin e Whistler). Descrevi noutro lado esta pequena assoalhada da rua de Roma, ao mesmo tempo salão e sala de jantar; a nossa época tornou-se demasiado ruidosa para que hoje se possa imaginar facilmente a atmosfera calma e quase religiosa deste lugar. Decerto que Mallarmé preparava as suas conversas que não diferiam muito das suas "divagações" mais escritas; mas ele falava com uma tal arte e num tom tão pouco doutrinal que parecia que tinha acabado de inventar no momento cada nova proposição, a qual ele não afirmava tanto como parecia vo-la submeter quase interrogativamente, de indicador levantado, e o ar de dizer: "Não se poderia dizer também?... talvez..." e fazendo quase sempre seguir a sua frase de um: "não é assim?", com o que mais influenciava, sem dúvida, alguns espíritos. Algumas vezes uma anedota cortava a "divagação", algum dito de espírito que ele reproduzia na perfeição, atormentado por essa preocupação de elegância e de preciosismo, que levou a sua arte a afastar-se tão deliberadamente da vida."

Pensar que hoje um documentário sobre o poeta, na televisão, nos pode parecer mais instrutivo que frequentá-lo.
Por causa da ideia de que um pensamento se pode resumir em algumas imagens mais o seu comentário. De que o corpo só produz "ruído".

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

(José Ames)

TAPEÇARIA

(Cristina Campo (1923/1977))


"A um tapete de maravilhosa complicação, do qual o tecelão não mostra senão o avesso - nodoso, confuso - tem sido por muitos poetas, por muitos sábios, assimilado o destino. Só do outro lado da vida - ou por instantes de visão - é dado ao homem intuir o outro lado, precisamente: o inconcebível desígnio do qual foi linha e nó, um castanho ou verde a condizer com outro castanho ou verde, fragmento de figura, parte pelo todo."
"Os Imperdoáveis" (Cristina Campo)


E não é verdade que nos nós e na confusão do avesso há uma perfeita correspondência com a ordem e a beleza da frente do tapete?

Não temos a chave da leitura, mas temos no caos aparente da paisagem nodosa matéria e coerência para uma outra ordem, segundo as leis da mente, essa.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Sanfins

A CURA PELO TEMPO


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"That time is no healer: the patient is no longer here."

"Four Quartets" (T.S. Eliot)

O tempo não cura: o paciente deixou de estar aqui. Por contra-intuitivo que pareça, podemos colocar a verdade sobre os pés (e não sobre a cabeça, como disse sobre Hegel o seu mais célebre aluno).

O que sofre a sua vida, pode deixar de ser paciente, no tempo, 'curar-se' no tempo ou pelo tempo. Num certo sentido deixou de 'estar aqui'. É outro homem. A morte não é a única solução do problema.

Que situação poderia ser essa em que faltássemos ao tempo? O tempo seria então a forma do trágico. Não, o tempo morre connosco. Tudo o resto é mecânica e relojoaria.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

(José Ames)

EM NOME DO HOMEM


(Gershom Scholem)

"O rabi Mendel reduziu a revelação a uma revelação mística, ou seja, a uma revelação que apesar de em si ser infinitamente repleta de sentido, não tem um 'sentido 'específico'"
(Gershom Scholem)

Não estará a 'revelação' dependente de um contexto, assim, devendo ter um sentido específico? Ou, são todas as interpretações possíveis independentemente do contexto, um pouco como a 'abertura' da primeira teoria do texto barthesiana?

O que parece absurdo em literatura, por exemplo, deixa de o ser no elemento místico que corresponderia, nos termos de Scholem, a uma 'redução'. Mas a revelação mística do rabi é-nos, ao mesmo tempo, apresentada como 'repleta de sentido'...sem ter um 'sentido específico'.

A qualidade do místico sugere, nesta versão, uma abertura sem resistência ao não racional. Esse nome teria todos os predicados possíveis, tal como a palavra Deus, ou como Tudo ou Todo.

Não estamos já, efectivamente, no nosso mundo que é o mundo da 'medida média' (Musil), antropológica.

Só podemos chamar a isto uma redução em nome do Homem.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Alcochete

A GUERRA SEGUNDO LEÃO


Leão Tolstoi (1828/1910)

O príncipe André poderia escrever um tratado da guerra no momento em que, depois de defender o tímido capitão Tushin da acusação de ter abandonado dois canhões no campo de acção, se levanta da mesa em que reúne o estado-maior do príncipe Bagration. Acaba de perder as suas ilusões de glória militar.

A guerra, que o jovem ajudante observa lucidamente, pela sua frieza e o seu carácter altivo que o mantêm à distância das emoções da camaradagem e do poder, é julgada pelo que é: uma confusa e incontrolável cadeia de acontecimentos que arrebata a vida e a saúde de muitos homens e a imaginação de todos. É uma loucura a que indevidamente se presta homenagem. Os heróis, neste tumulto, são os mais inconscientes dos actores. Como o pobre Tushin exaltado pelo estrondo da sua bateria e o jogo de abater fardas azuis à distância. Se conseguiu deter o avanço dos franceses, foi porque os enganou com uma genica que não representava de facto força nenhuma. A bateria estava completamente isolada, e isso era ignorado por toda a gente, excepto de Bolkonsky. A sorte da batalha foi, portanto, decidida por um louco que escapou a todas as malhas da rede de comando.

O príncipe pôde assistir com espanto, mais de uma vez, às ordens dos oficiais mais experientes. E o próprio general reduzia a sua intervenção à táctica de assumir todos os relatos do que se passava nos vários pontos do campo de batalha, e visivelmente fora do seu controle, como se fossem exactamente aquilo que estava por si decidido e o que sempre esperara que acontecesse. Mas essa atitude, reprovável noutra situação, como a mentira e a vaidade, produzia um efeito maravilhoso na multidão de homens aterrados pela incerteza e a desordem.

O simulacro de pensamento e de vontade nesse símbolo a cavalo da unidade do exército era suficiente para insuflar o entusiasmo e provocar os hurras dos soldados. Compreende-se como a presença de Napoleão nas suas campanhas militares pôde transformar uma nação dada à frivolidade e à inconstância.

Se o homem não é senhor do seu destino no fragor das armas, se a única forma de espírito que se vê no rosto do semelhante é a fúria e o medo, é necessário dar à imaginação o exemplo dum homem que é o contrário de tudo isso. Quando o chefe é acometido pelo furor divino, os homens avançam para o suicídio com alegria. Bagration, cansado do seu papel de secretário da fatalidade, vislumbra, excitado, a ocasião de determinar o resultado duma escaramuça entre as centenas de acções que são suas por empréstimo.

Um dos homens do estado-maior, sentado à mesa presidida pelo príncipe Bagration, inventa a enérgica atitude que gostaria de opor à debandada do seu destacamento. Ninguém o pode contradizer, e é melhor assim, para o moral de todos. Ele próprio acaba por se convencer de que imaginou a realidade. É natural que André Bolkonsky despreze uma tal cozinha da coragem e do valor militar.

Essas pobres personagens do drama que tomam a cadeira dos deuses só merecem que a bela figura do príncipe os deixe entregues à suas tristes ilusões.

Assim, o espírito diz não à força.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

(José Ames)

CASUÍSTICA

Charles Maucourt: expulsão dos jesuítas de Espanha

"Eles têm uma tão boa opinião sobre si próprios a ponto de acreditarem que é útil, e de alguma maneira essencialmente necessário ao bem da religião, que a sua reputação se deveria estender a toda a parte, e que  deveriam governar todas as consciências. Mas como estas máximas não estão de acordo com a maneira de ver da maioria das pessoas, não se insiste nelas em relação a essas pessoas, para permitir a satisfação geral. A este respeito, tendo de lidar com pessoas de todas as condições de vida e de todas as diferentes nações, é necessário recorrer à casuística para corresponder a toda esta diversidade."

"Lettres Provenciales" (Pascal)

Este é, afinal, o espírito da famosa casuística depreciativamente  atribuída aos jesuítas. E por que é tida em tão má conta? Pelo seu formalismo, me parece. Que a lei geral deva ser adaptada ao caso concreto, é uma necessidade. Mas não pela dedução especulativa. Sem dúvida, os Jesuítas foram grandes organizadores e grandes educadores, num sentido que levou à dessacralização da sociedade e ao advento do mundo moderno. Esta confluência de tantas forças no mesmo sentido e partindo de uma mesma matriz do pensamento, é aquilo a que Foucault chamou de paradigma.

Talvez neste ponto, o Cristianismo tenha abandonado de vez  a literalidade da Bíblia em favor de uma abertura hermenêutica.

A casuística da Companhia tornou-se assim num verdadeiro Cavalo de Tróia, que podia prescindir da fé para encarnar a lei no caso concreto.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Cortegaça

GIDE ENCONTRA WILDE

Oscar Wilde (1854/1900)


Oscar Wilde, pouco antes de voltar a Londres por causa do célebre processo que o iria levar à prisão e que para sempre arruinou a sua vida, corria certos cafés de Briska (Argélia), em busca de jovens árabes, músicos e fumadores de "kief", "belos, como estátuas de bronze".

Gide, que o acompanhou nessas noites de prazer, dá-nos conta (em "Si le grain ne meurt") do riso demoníaco que tomou o corpulento irlandês, ao aperceber-se de como era fácil desencaminhá-lo a ele, Gide.

Um homem que reservava o seu génio para a vida ( e apenas o talento para a literatura), como ele dizia, saudava com esse riso a chegada dum companheiro ao inferno do seu puritanismo.