quinta-feira, 14 de agosto de 2014

ÍNTIMOS LADRÕES

 

Em "Les Voleurs" (1996), de André Téchiné, o cínico Alex (Auteuil), perante a confissão de Marie (Deneuve) de que ama Juliette, comenta:

- C'est beau l'amour!

É assim a loucura vista de fora. Mas a loucura dele é pior.

Porque é um polícia que já não sabe deslindar a defesa da ordem de uma paranóia contra a sua própria família, que vive do roubo. Por isso não sabe também o que sente por Juliette, com quem faz amor "como quem se suicida".

Marie não pode viver sem a sua amada, que mudou de vida. Depois de dedicar um livro ao objecto da sua paixão, põe termo à vida.

Alex pergunta-se, no final, por que é que Marie o escolheu a ele como destinatário desse livro e das cassetes com a voz de Juliette gravada. A ele, que já voltou, insensível, a mergulhar no dia a dia violento da sua esquadra, na realidade em que não acredita e que é para si um sonho mau.

Na vida e na personalidade de Juliette, a ladra, está o que pode mudar o seu ódio em compreensão e justiça.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sem título

Belgrado

 

O MARISCO

 

"Porque o sexo está a morrer. Em mais um século, ficaremos deitados com a língua de um na boca do outro, em silêncio e sem paixão, como o marisco."
"The Alexandria Quartet"
(Lawrence Durrell)

Palavras do poeta Pursewarden, personagem do romance, que parecem contrastar com a existência de uma indústria florescente, sem problemas de mercado. Mas, claro, não estamos a falar de 'marisco'.

Sade foi o grande percursor desta exaustão do sexo materializado, tornado ubíquo e sem sombras, exposto na luz desarmante, como, afinal, mais um segredo da 'carochinha'. A sua pulsão só pareceu misteriosa um tempo, o tempo da repressão e das 'trevas'.

Posto a nu, no que é a menos subtil das roupagens, podemos tratá-lo na sua funcionalidade reprodutiva ou simplesmente comunicacional. Teria razão Freud com o seu famoso princípio do prazer? Que escrever direito é este com estas 'linhas tortas'?

Entretanto, podemos observar certas tendências 'pursewardenianas', como a facilidade com que nas novas gerações se troca o real, ou tido como tal, pelo virtual. Woody Allen levantou uma ponta do véu. No seu filme, os 'amantes' entram numa espécie de escafandro electrónico para atingirem, cada um na sua cápsula, o orgasmo rápido e, sobretudo, simultâneo (o último reduto da ética). No minuto seguinte, despachado o prazer, pode-se tratar de um negócio ou de outra coisa qualquer, com verdadeira eficiência. O "tempo é dinheiro" reina descomplexadamente.

Mas o tópico do marisco parece ridiculamente temporário, sem futuro. Pursewarden talvez tenha pecado por falta de imaginação. O seu modelo é demasiado influenciado pelo 'budismo'.

 

 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sem título

(José Ames)

 

UMA CEIFEIRA DE PORTUGAL

 

"Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

(Fernando Pessoa)

A presunção deste pôr em dúvida! Como se fosse preciso um certificado de uma autoridade qualquer (no caso, poética) para reconhecer que a ceifeira quando se julga feliz, é feliz de facto.

Equivale a desapossar o 'pobre' (não é por acaso que se trata de uma trabalhadora do campo) do sentimento da própria realidade. Ela, cantando, ulga-se feliz, 'talvez', mas o poeta do desassossego vê mais longe.

Ele que não é 'romancista russo' não se deixa impressionar (Pessoa é tudo menos impressionista) pelo 'humanitário'. É tudo ilusão ou logro. Por isso podia repetir uma expressão em voga como: "para esse peditório já dei." Mesmo o aforismo popular "quem canta seus males espanta" não lhe merece qualquer crédito (a ele que escreve para 'espantar' outros males). O seu 'ennui' tem de estender-se sobre a paisagem, levando todas as cores consigo.

É outro 'toque de Midas' semeando conformismo e tristeza. O moinho de Salazar há-de receber toda essa água...

 

 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Alcochete

VERDADEIRO DETECTIVE



Uma das melhores séries de sempre é, sem dúvida, "True Detective", de Cary Fukunaga. A primeira parte acaba da melhor maneira a história destes dois homens  que começa pela desconfiança e por uma visceral  estranheza até alcançarem, no fim da sua "descida aos infernos" do pós-Katrina e da devastação social causada pelo ciclone político (a Louisiana, aqui é o mundo inverso da paisagem poética de um Flaherty), uma fraternidade quase  exclusiva. A amizade viril em Hawks, ou Ford nunca partiu de tais extremos. Rust, (um fabuloso Matthew McConoughay), obcecado e distribuindo a conta-gotas uma filosofia desesperada que se confronta com a total incompreensão de Marty (Woody Harrelson, também ele supremo). Como se verá no decorrer da série, o desempenho de McConoughay, a intensidade da sua 'presença' (é isto ainda representação?), transmitem à personagem, sob a aparência do cinismo,  um carácter profundamente místico, confirmado definitivamente na revelação a Marty, depois de sair do coma.

As peripécias da perseguição nos 'bayous' do obrigatório 'serial killer (referência de uma maldade 'criativa', com 'assinatura' que põe em causa a visão clássica de um mal 'sofrido' e involuntário, como em Sócrates) são decerto empolgantes mas são, sobretudo, a experiência seminal  que transformará os dois homens.

Não creio que a confissão final de Rust seja mais um caso de  'redenção pelo amor' (da filha 'encontrada' do 'outro lado'. É, talvez,  a explicação da paixão incansável do  detective em tão flagrante contradição com o seu discurso cínico.

domingo, 10 de agosto de 2014


"Badalo" (José Ames)

O CINISMO DA INFORMAÇÃO

Peter Sloterdijk

"Importa saber por que o cinismo faz parte com a força das leis naturais dos riscos e das deformações profissionais daqueles cujo trabalho é produzir imagens e informações sobre a 'realidade'".

Sloterdijk fala duma dupla desinibição nos mass media:

"A primeira desinibição consiste em explorar sistematicamente, pelo jornalismo, as catástrofes dos outros."

"(...) o valor de uso das notícias depende, numa grande parte, do seu poder de excitação que as manchetes - é manifesto - aumentam consideravelmente."

A segunda desinibição "submerge as capacidades da nossa consciência duma maneira directamente ameaçadora, do ponto de vista antropológico."

"(...) Os nossos cérebros são treinados a sobrevoar dum olhar um campo de indiferenças duma amplitude enciclopédica - em que o tema não é indiferente em si mesmo, mas pela sua integração no fluxo de informações dos media."

"Critique de la Raison Cynique" (Peter Sloterdijk)

É preciso contrapor esta desinibição à noção de limite tal como a compreendiam os Gregos.

O cinismo é a consciência de se saber muito bem que aquilo que passa por ter valor, e que fingimos que tem, realmente já o perdeu ou nunca o teve. É o sorriso de dois charlatões que se cruzam na cidade.
As cerimónias religiosas ligadas à morte são o exemplo acabado desse segundo pensamento, quando vemos a parte que cabe no culto aos declarados não-crentes.

O cínico coloca aspas em tudo o que diz ou ouve dizer, e é um sintoma daquilo que se convencionou chamar de crise de valores, a redução acelerada do campo dos conceitos ainda livres de aspas.

Mas como opor medidas anti-inflacionistas aos media e à publicidade?

Eles vivem da desvalorização...

sábado, 9 de agosto de 2014

Sem título

Istambul

 

COMO O RELÂMPAGO

Júlio César

 

Leio num resumo da história de Portugal para o turismo que D. João II, dito o Príncipe Perfeito (...) "fez executar o duque de Bragança em Évora, e apunhalou o seu cunhado em Setúbal 'sem palavras inúteis".

Compreende-se que uma ordem 'divina' seja cumprida sem argumentos desnecessários. Antes de ser apunhalado pelo real cunhado, já o cunhado estava morto. É esta 'limpeza' sem nódoas de consciência que causa, admitamos constrangidos embora, uma certa admiraçâo. É como a 'blitzkrieg' dos nazis, nos primeiros tempos da guerra, ou como o movimento de outros chefes militares, sobretudo da Roma antiga, em que Hitler, decerto, se inspirou.Júlio César sabia do medo que inspirava no inimigo a metáfora do relâmpago: "veni, vidi, vicit".

O título de Príncipe Perfeito vem, evidentemente, de Maquiavel, um homem que pôde analisar a política e a guerra como um puro jogo.

Pessoa há-de trazer-nos ainda um eco dessa admiração pela falsa grandeza (como diria Simone Weil) na 'Mensagem'.

Como se o rei fosse, de facto, a personalificação de um 'desígnio nacional', prenúncio de uma época decadente em que o monarca absoluto pretenderá identificar-se com o Estado, com dispensa do respectivo desígnio.

 

 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sem título

(José Ames)

 

PÁTHOS

(Jürgen Habermas)

"(...) só agora o 'pathos' da auto-afirmação se torna a principal característica de uma subjectividade que domina a modernidade. Na filosofia da última fase irá substituí-la o 'pathos' do deixar-ser e da servidão."

(Jürgen Habermas sobre Martin Heidegger)

Diz o filósofo de Düsseldorf que "a viragem é de facto o resultado da experiência com o nacional-socialismo, portanto da experiência com um acontecimento histórico que em certa medida 'aconteceu' a Heidegger."

Uma metafísica tão elaborada revela, afinal, a sua impotência para lidar com a 'verdade' do acontecimento. E é como se esperasse a irrupção traumática da história moderna para desencalhar e definir um rumo que, ao fim de contas é um deixar-se ir. Pois o que é que sabemos do Ser para fazer uma verdadeira escolha?

A Força, ou as forças, como dizia Alain, é que agora fornece(m) o sentido, na falta de resposta do 'Sein'. A tentação de comparar a 'mecânica' com a iniciativa histórica era demasiado forte para que o novo reitor de Freiburg deixasse fugir a oportunidade de a 'recuperar' nos termos da sua própria filosofia. A originalidade dos acontecimentos funestos não é menor do que a dos fastos. Daí a ver-se neles um acto criador é um passo que se dá facilmente, sobretudo quando a serpente ainda está no ovo.

Por isso, não podemos considerar Heidegger apenas como um caso de mais um intelectual seduzido pelo poder e pela 'acção'. Tanto como não é lícito definir o Platão aristocrático pelos sarcasmos que dirigia à democracia.

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Sem título

Lisboa

 

O INADMISSÍVEL

George Orwell

"(...) se se alberga na mente uma lealdade ou ódio nacionalista, certos factos, ainda que em certo sentido se saiba que são verdade, são inadmissíveis."

("Notas sobre o Nacionalismo", de George Orwell, citado por Tony Judt)

Mesmo a evidência tem uma força limitada, o que prova que, ao contrário do que pensava Descartes, a razão não nos pode definir. O Iluminismo foi um sonho, decerto optimista, que provou que a razão pode tratar o homem como mais um instrumento para a construção de uma sociedade utópica, utópica porque saída da razão, como Atena da perna de Zeus.

A violência da guerra, do ódio nacionalista ou religioso obriga a partir de muito mais baixo. Há uma teoria que afirma que o cérebro reptiliano sobrevive no 'homo sapiens sapiens'. Temos uma cauda virtual e as nossas emoções básicas conservam não se sabe que parte do animal ou animais de que a nossa espécie descende.

A razão, mesmo se considerar que não nasceu do nada, não tem meios para resolver o problema do seu passado.

Os factos podem ser 'inadmissíveis' e nenhum silogismo os pode 'entronizar'. Parece que a vida tem direitos inconversíveis em qualquer outra 'moeda'.

Apesar disso, é evidente que o 'racionalismo' pode muitas vezes evitar o pior. O mesmo homem que a ligação ao grupo torna surdo a todo o 'bom senso', pode passar a 'ouvir' quando se torna, de facto, um indivíduo.