quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CORRUPÇÃO

Giacomo Leopardi

 

"A corrupção dos costumes é mortal para a república e útil à tirania e à monarquia absoluta: isto só, basta para julgar da natureza e das diferenças destas duas espécies de governo."


(Giacomo Leopardi, "Zibaldone")


A corrupção que está na ordem do dia, e que até é aferida por um 'barómetro' internacional, tem alguma coisa a ver com os costumes?

A antiga sociedade romana mudou de carácter com a penetração das culturas orientais, com a liberdade de culto aos deuses estrangeiros (exceptuado o proselitismo dos cristãos, que por muito tempo foram perseguidos, até que a "religião dos escravos" se tornou a religião oficial, com Constantino). A relativização dos próprios valores romanos contribuiu para o langor da decadência deste povo vigoroso.

Não obedecendo, evidentemente, a um plano, a uma intenção de corromper, este fenómeno parece não ter qualquer comparação com o que é registado no nosso 'barómetro'.

Mas é caso de falar numa corrupção passiva que passa sem alarme (e até serve a política corrupta de alguns regimes que vão ao ponto de adoptar medidas de 'anti-corrupção' contra os seus adversários. O PC chinês tem uma política oficial 'moralista' contra a corrupção dos seus funcionários que visa tanto a eficácia da linha oficial, como afastar as atenções dos vícios constitutivos.

Em princípio, uma tirania ou um poder absoluto (contra a opinião de Leopardi) 'legalizam' a corrupção. Ela passa a ser uma regra que todos, de uma maneira ou de outra, têm de seguir. "O poder absoluto corrompe absolutamente"(Acton) porque deixa de ser necessário 'prestar homenagem' à virtude através da hipocrisia.

É na democracia que cresce o número dos ambiciosos sem escrúpulos que, por natureza, estão dispostos a torcer as boas leis, para atingirem os seus fins. E são esses que, ao mesmo tempo, têm de saber prestar a devida vénia à lei e à 'vontade do povo'.

 


 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sem título

(José Ames)

 

A EXPERIÊNCIA

Henri de Poincaré

 

" O papel da física matemática é exactamente levantar questões, apenas a experiência pode resolvê-las."

(Poincaré)

Segue-se que a experiência não saberia levantar essas questões. Por outras palavras, o idealismo vem primeiro (o próprio materialismo é uma ideia).

Mas a tese contrária é que está de acordo com a intuição. A antiguidade, como se dizia na tropa, é um posto. De facto, a 'experiência', ou o saber dela é uma ideia antiga, mais ou menos testada.

O mundo, antes de ser geométrico é mito e poesia. É do alto dessa nuvem extravagante que decretamos para todo o universo a exactidão.

Se o estudo das 'verdadeiras causas' for aceite como uma das definições da ciência, veja-se o que diz Paul Ricoeur: "(...) o homem teve consciência da responsabilidade antes de ter tido consciência de ser causa, agente, autor." ("A simbólica do mal")

 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Sem título

Esta manhã na Praça Vellasquez

 

EÇA SOBRE CABUL

Marcha que faz parte das celebrações do Ano Novo, o Nowruza, em Cabul

"Entretanto, a Inglaterra goza por algum tempo a «grande vitória do Afganistão»—com a certeza de ter de recomeçar d'aqui a dez anos ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis. A «política», portanto, é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades de um grande império. Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vaca para o leite e dois pés de alface para as merendas de Verão."

"Cartas de Inglaterra" (Eça de Queirós)

A índia era então, para os ingleses, a 'Jóia na Corôa'. Os guerrilheiros das montanhas do Afeganistão afogavam as tropas governamentais nos desfiladeiros ou cercavam uma coluna militar. "Os afgãos correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que n'essas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o vice-rei da Índia, reclamando com furor reforços, chá e açucar! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou há dias este grito de gulodice britânica; o inglês, sem chá, bate-se frouxamente.)" (ibidem)

Hoje mudou muita coisa, os ingleses largaram o Industão, mas o 'império' continua sob outra forma. As mesmas montanhas alimentam a resistência. O império é uma organização sem rosto, 'global' que é a palavra ambígua que amplia a prepotência de sempre, com a conotação mais humanista que é possível: "a humanidade é só uma", e faz eco ao que já foi uma esperança de libertação para os povos da terra: "Proletários de todos os países, uni-vos!"

Os guerrilheiros já não têm nada a ver com a resistência tradicional. Existem por que são actores num espaço político global. São hologramas num cenário que os ultrapassa e são atacados pelos 'drones' como num jogo da Nintendo. O que é real é o que sobrevive aos impérios e aos 'salvadores' doutrinados pelo ódio.

Foi nessa parte do mundo, há apenas uns anos, que se assistiu, no entanto, à espécie de milagre que foi a figura de Gandhi...


 

domingo, 5 de janeiro de 2014

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(José Ames)

 

O PÃO DA BELEZA

"Chegada de Vasco da Gama à Índia"(A.Roque Gameiro)

"Ao fim de um minuto a beleza inicial
já não é perfeita."

"Uma Viagem à Índia" (Gonçalo Tavares)

 

Simone Weil fala-nos de uma beleza tão essencial que é de comer. Mas 'come-se' essa beleza na pura contemplação e no primeiro momento? Por que é que precisamos de 'saber' mais para continuar essa primeira transformação?

Sempre me intrigou que mesmo o espectáculo do mar, que é tão arrebatador, não resista à invasão do menos perfeito e o primeiro sentimento à indiferença. Deixamos de estar lá. Mas sabemos que alguns levam a contemplação a extremos piedosos. Continuarão ainda na felicidade do primeiro momento? Eu acho que a contemplação dá lugar ao monólogo interior (ou ao 'diálogo' com Deus) que, esse, é infinito.

O que é mais natural é que a 'altura' da beleza não é sustentável por muito tempo. Incorporámo-la (comemo-la) ou não, e depois descemos.

Para mim o melhor exemplo é a música que só recupera a primeira frescura se for condimentada pela curiosidade intelectual ou pela vontade de saber. Até uma informação irrelevante (como um truque para captar a atenção) pode levar-nos a ouvi-la com outro ouvido. E o milagre acontece outra vez.

 

 

sábado, 4 de janeiro de 2014

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Ermesinde

 

O PIOR DOS REGIMES...

 

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A julgar pela maneira como algumas pessoas criticam a democracia, parece que ela deveria ser um lugar intermédio entre o Purgatório e o Paraíso, onde, certamente, nem tudo estaria adquirido, mas onde se poderia considerar a injustiça social e a desigualdade como problemas ultrapassados e inconcebíveis num tal regime.

Infelizmente, a democracia sofre de todos os males de qualquer empreendimento humano: basta que adormeça a vigilância e já o belo edifício ficou coberto de trepadeiras e infestado por toda a espécie de bichos.

Bem vistas as coisas, era para isso que servia a ideia da Revolução. Lutava-se por atingir uma solução definitiva e ao abrigo da corrupção, com tanto maior confiança quanto era a própria musa da História que a trazia no ventre.

Mas não. Tal como perdemos todas as "conquistas" do espírito, no momento em que as deixemos de apoiar com a nossa inteligência e de as sujeitar à dúvida permanente, também do menos mau dos regimes teremos só a carcaça, se lhe faltarmos.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

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(José Ames)

 

O JUIZ E A VIÚVA

São Lucas, Apóstolo e Evangelista

 

"Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus nem respeitava pessoa alguma. Na mesma cidade vivia também uma viúva que vinha com frequência à sua presença para lhe dizer: "Faz-me justiça contra o meu adversário." Ele, porém, durante muito tempo nada fez. Por fim reflectiu consigo: "Eu não temo a Deus nem respeito os homens; todavia já que esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, senão ela não cessará de me molestar."
(S. Lucas)

Por que é que esta justiça não se faz sempre que há uma vítima determinada, como um insecto que volta a sempre a picar, por mais gestos que se façam para o afastar? Porque foi por causa da 'picada' insistente que o juiz da parábola se determinou a dar satisfação aos rogos da viúva, e não por o caso ser justo. O juiz 'que não temia a Deus, nem respeitava pessoa alguma' é bem o exemplo dum poder que se tornou indiferente à sua razão de ser, como acontece quase sempre, com o tempo. Se não forem os subornos a corrompê-lo, a habituação e o cansaço acabarão por torná-lo exterior à sua função original.

Ora, o juiz daquela cidade não podia desaparecer por detrás do 'sistema judicial', como hoje acontece. A complexidade desse sistema é mais eficaz do que aerosol contra todo e qualquer 'insecto'. Se além disso, o agressor é protegido pelo Estado e pela elite no poder, como um de entre eles, não há mesmo esperança de que a parábola possa ser convertida para o nosso tempo.

É verdade que na esfera doméstica, 'molestar' alguém para obter o que se quer tem um sucesso quase garantido. Mas já não há cidades como a descrita por S. Lucas.

 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

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Bari

 

O PASSADO

"Le Passé" de Asghar Farhadi

 

Dizia Proust que todo o amor é uma discussão sobre provas.

Samir não tem a certeza se a mulher, Céline, se suicidou porque sofria de uma depressão ou porque sabia do seu caso com Marie. Ahmed, o ex-marido desta, que abandonou o casamento por não suportar a cultura estrangeira, vem do Irão visitá-la porque não sabe se ama ainda a mulher de quem se divorciou nem quais são os sentimentos dela. Apesar de Marie viver com Samir e esperar um filho dele, insiste em alojar Ahmed em sua casa, criando uma situação desconfortável para os dois homens. Samir vê nisto e no facto do casal ter ainda discussões vivas, que a antiga relação não está acabada. Mas uma crise provocada pela filha de Marie vem clarificar as ligações mais fortes. Céline que está em coma numa cama de hospital parece evidente que se tentou matar por não ter suportado a traição de Samir. O futuro já não pode deixar de a incluir. A filha de Marie volta a casa e é perdoada. Ela foi como a mão do destino que recolocou a vida dos protagonistas na continuidade do tempo e dos afectos. As soluções até aí encontradas só eram possíveis enterrando o passado, talvez a parte mais importante dessas pessoas.

As melhores provas do amor não estão sempre onde se espera.

 

 

 

 

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

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(José Ames)

 

A DIGNIDADE DE PENSAR

 


"Porque, dizia eu para comigo, é a nossa constante loucura supor que o universo quer e não quer, promete, ameaça ou perdoa. Não consentimos em recusar todo o pensamento a um cão ou a um gato, quando é claramente do nosso dever recusar todo o pensamento a um homem embriagado ou a um homem irritado."

"Entretiens au bord de la mer" (Alain)


Aqui se desenha, talvez, a verdadeira ética e aquilo de que recusaria descer a honestidade intelectual.

Mas a falta de coragem das meias-tintas, do pensamento automático e, paradoxo dos paradoxos, dum inconsciente que pensaria por nós e sem o nosso consentimento, fizeram-nos extraviar dos caminhos ensolarados.

E que futuro não poderia ser esse, se honrássemos com o nome de espírito apenas a essência da essência?

Mas tudo se prova. Por isso Alain diz que é o nosso dever.