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| (José Ames) |
(Babilónia, segundo David Griffith)
O eunuco não pode regressar. O déspota precisa do sexo dos outros para estabelecer o seu poder sobre a vida e a morte. Que há de tão importante no corpo das mulheres e dos castrados para ter um significado tão profundamente político? Um poder sobre os homens nunca é tão definitivamente expresso como no harém. Pela castração, o corpo é marcado para sempre como objecto do senhor, e o sujeito torna-se um homem sem língua, isto é, sem poder de resposta. Quanto à mulher no palácio, é o número mesmo que a desvaloriza. Ela é verdadeiramente um castrado, menos por razões anatómicas, do que pelo pensamento do gineceu. A concubina entre as outras nem sequer é uma mulher. O harém é um jardim ginecológico. O que aí se perpetua como espectáculo é a confiscação do poder de fazer filhos.
Cambises pode mandar assassinar toda a sua prole. Ele próprio é a imagem da sociedade escrava. Nenhuma humanidade lhe é permitida. Nenhuma sabedoria. A liberdade pode dar-se a um escravo, a uma concubina refractária, mas eles não se tornam livres por isso. Como o eunuco, estão marcados. A castração é irreversível, como as metamorfoses do corpo e o envelhecimento. A tortura é uma “distorção” do mundo e do pensamento.
Portanto, o escravo é ainda escravo doutra maneira. Mas pode pensar-se, esquecer. A verdadeira oposição é interior. De nós para nós. A liberdade não é um estado. Não se concede. Não se conquista como um forte. O escravo sem senhor, somos todos quando a primeira luz do espírito nos faz erguer sobre a natureza. O corpo, eis a memória que é preciso pensar. Este depósito misterioso do universo que se transforma em sonho e realidade. Como é que ele nos faz pensar? Os outros estafetas do fogo sagrado, esperam o corpo para fecundá-lo. E de cada vez é preciso aprender a fugir do harém e a escapar às garras do animal triste.
Alguns eunucos chegaram ao mais alto poder e a sua vingança como que triunfou. Mas o corpo do eunuco tem todas as paixões. A própria genitalidade deve exprimir-se noutro lugar, sob outra forma. Mas é tão forte o preconceito e a imaginação que esse mutilado me parece menos do que um homem sem uma perna ou um maneta. Aqui não é o corpo que falta, mas o símbolo e a palavra.
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| "Gravity" (2013, Alfonso Cuarón) |
A gravidade, que é o título do filme, é também a personagem principal?
Podemos pensar isso porque toda a história se passa no espaço a menos de um Portugal posto de pé. Depois, o 'milagroso' regresso à terra, à gravidade, é realçado pelo pisar dos pés (do tamanho do écrã) de Sandra Bullock e do erguer das colunas poderosas das suas pernas. Assim, como um herói, à Schwarznegger.
A música triunfal doutra 'guerra das estrelas' vem por acréscimo, é esperada, como aquele punhado de lama que agarra a escapada do 'espaço' ("I hate space"). Não nos livramos de cavalgadas de valquírias.
O final, de facto, arruína todas as belas cenas com o 'planeta azul' por fundo, ou o grande vazio silencioso onde se perdem os escafandros brancos.
O começo é uma saída para reparar as comunicações, com um diálogo bem humorado com Houston. Mas logo é lançado o alarme sobre uma tempestade de destroços de um satélite russo que se avizinha. A partir daí tudo corre mal. O próprio Matt (Clooney) se deixa perder no vórtice. Está-lhe destinado um regresso virtual para dar ânimo a Bullock.
No final de contas, mais um 'western', com o seu herói solitário. É o que os americanos sabem fazer melhor.
Ficam as cenas no espaço, a dança dos artefactos humanos que se escangalha, infalivelmente, a interpretação de Bullock e a fotografia.
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| Dom Quixote |
"La haine" (1995)
Em "O ódio" (1995-Mathieu Kassovitz), conta-se uma anedota que resume o filme: um homem cai abaixo dum edifício de 50 andares e vai dizendo para si, ao passar pelas janelas:
- até aqui, tudo bem; até aqui tudo bem.
A moral da história é, então, que o importante não é a queda, mas a aterragem.
E, hora a hora, a vida dos três marginais de "O ódio" é como uma vertigem, sem um momento para pensar.
A partir do momento em que um aparece com um revólver nas mãos, sabemos que a "aterragem" é uma questão de minutos.
Uma necessidade, nem por ser social e indefinível, menos imperiosa, actua sobre estes seres destituídos de qualquer autonomia, como outra lei da queda dos corpos.
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| Peregrinos |
" Se queres ir de Roma a Jerusalém, segue para sul e pergunta ao longo do caminho."
('Guia dos peregrinos a Santiago de Compostela' referido por Umberto Eco)
Não é por termos um mapa ou um GPS que os encontros e desencontros da vida deixam de se suceder. Mas se à partida temos de perguntar o caminho, a incerteza parece muito maior.
Não há dúvida que ao rodearmo-nos de tanta informação e de instrumentos cada vez mais precisos, satisfazemos um desejo de segurança e nos sentimos como que agarrados à realidade. Mas a precisão é muito relativa. A nossa segurança está assente em alguns mitos confortáveis.
Muitos, como Morin, consideram que a teoria do 'Big Bang', por exemplo, é um desses mitos. É menos ingénuo do que a Teogonia de Hesíodo? Talvez, mas isso é um exercício como o de Mark Twain em "Um americano na corte do rei Artur".
Calafetamos a nossa embarcação para a proteger do que não faz sentido. Coisas que estão no âmago do ser, mas com as quais a grande maioria não consegue conviver.
A morte, em primeiro lugar, claro. Não podemos iniciar a peregrinação sem perguntar pelo caminho...
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| Fiama Hasse Pais Brandão |
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| "Hannah Arendt" (Margerete von Trotta) |
Ainda o filme de Margarete von Trotta sobre Hannah Arendt. Ligada ao julgamento de Eichmann, está tambem a questão da atitude ambígua dos conselhos judaicos. Essa atitude estaria entre a zona da responsabilidade e a da indiferença.
Como perfeccionistas da organização, os alemães aproveitaram a força dos laços tradicionais entre os judeus, a sua própria organização, como alavanca para os levar o mais ordenadamente possível para o matadouro. É aí que entram os famosos conselhos.
Não é preciso pensar no privilégio (desde logo o de terem mais probabilidades de salvar a própria vida) que isso representava para os que 'colaboraram' com as autoridades nazis, nem na justificação de esporadicamente poderem intervir a favor de um ou outro judeu. A verdade é que o caos ou a simples desorganização trariam, provavelmente, mais sofrimento desnecessário às vítimas.
Não é absurdo pensar que o mito da superioridade ariana produzisse, naqueles que eram tratados como menos que nada, o desejo de serem dignos ao menos como partícipes da eficiência, mesmo quando era dirigida contra eles.
O filme de Trotta revela como ainda é nova a percepção de Arendt. Porque a incapacidade de pensar, ou a falta de coragem para pensar são de todos os tempos.