![]() |
| "Hannah Arendt" (2013, Margarethe von Trotta) |
Pensar, verdadeiramente, é sempre um escândalo para
o 'sono dogmático'.
![]() |
| "Hannah Arendt" (2013, Margarethe von Trotta) |

Em tempos de censura virtuosa, o tabaco faz-se conotação, e a mais distante.
Um cinzeiro "design", com descanso para dois cigarros e a marca, parece ainda demasiado directo.
Ambiciona-se, antes, estabelecer uma afinidade poética entre duas realidades contrárias: o fumo asfixiante e o ar livre da planície.
Para contornar a lei, as cigarreiras (que estão boas e inteiras) lançam-se na produção de metáforas exclusivas.
A publicidade é omnívora. Depois de anexar os poetas (felizes dos que ainda podem associar o advérbio perdidamente a um soneto de Florbela Espanca, em vez de a uma marca de queijo!), ela própria escreve o nosso imaginário.
http://www.schoolhousevideo.org/Media/conspirator3.jpg
"Um conspirador no baile, é um bonito contraste, pensava. Ela achava neste, com os seus bigodes negros, a figura do leão quando repousa; mas depressa se apercebeu que no seu espírito só havia uma atitude: a utilidade, a admiração pela utilidade."
"Le Rouge et le Noir" (Stendhal)
O governo das duas câmaras que o conde de Altamira desejava para o seu país era a "única coisa digna da sua atenção".
Encontramos ainda este espírito no homem de negócios dos nossos dias e no revolucionário que subordina a sua vida a uma ideia.
É assim que um mesmo sentimento de culpa os atormenta quando perdem uma oportunidade, um de fazer dinheiro e o outro de "transformar o mundo".
A utilidade está nisto e é o contrário da arte da viver.
![]() |
| Nicolau Maquiavel |
"Para Heidegger há uma continuidade fatal entre a linguagem assertiva, predicativa, definitória, classificadora da metafísica ocidental e a vontade de adquirir un domínio racional-tecnológico sobre a vida, que denomina de niilismo."
George Steiner ("Martin Heidegger")
Não se trata de uma consequência da linguagem, mas de uma 'continuidade fatal', como quem diz que a vontade 'racional-tecnológica' está indissociavelmente ligada à linguagem da metafísica. Mas o que não se poderá afirmar no âmbito de uma cláusula como essa? 'Tudo está ligado', dizia o poeta. 'Tudo está cheio de deuses' é a crença de Tales de Mileto, um dos primeiros gregos a especular sobre o cosmos.
Mas a recriação da linguagem é essencial em Heidegger. Diz Steiner: "a língua alemã, com a sua ávida vulnerabilidade às torções etimológicas, proporciona a Heidegger uma ajuda inestimável."Para justificar um regresso às fontes, ele forja uma origem e um ponto de corrupção que nos levou à 'queda', notoriamente bíblica.
Temos de seguir o facho deste emérito hipnotizador que enxameou o pensamento europeu com os seus inumeráveis aprendizes, para admitir que a linguagem é o novo 'tudo está cheio de deuses' de Tales.
De alguma maneira, deve estar nos nossos genes a crença numa transcendência que passa necessariamente por nós. Não já como filhos de Deus, mas como o agente privilegiado do auto-conhecimento do cosmos. Apesar das aparências, corresponderá isto muito mais do que ao niilismo, a um segundo humanismo, para a era tecnológica?
![]() |
| "Zéro de conduite" (Jean Vigo) |
No outro dia, numa mesa ao lado do café, três jovens respondiam às questões de um teste 'americano' sobre história, o que me levou a uma série de conjecturas pessimistas. A 'matéria', assim apresentada, parece-se demasiado com um concurso da televisão, para não inquietar o menos céptico dos cépticos. Pode dizer-se que este método, com um leque de respostas à questão introduzida, das quais uma só é 'verdadeira', releva mais do espectáculo (a passagem de ano é o prémio) do que do ensino...
A história, no caso, deixa de ser uma narrativa do historiador para ser uma pretensa súmula dos acontecimentos, traduzida num índice de questões mais ou menos arbitrário, e ao sabor das modas da pedagogia institucional.
Depois desta discorrência que acusará, talvez, a desilusão da idade, pus-me outra questão que é o problema da eficácia. É possível que os estudantes de hoje que saem da escola, julguem, talvez, saber alguma coisa. De facto, este método não pode visar a transmissão dum saber. De resto, passado algum tempo, nada ficou da rapsódia de 'respostas certas' (ou que se acertaram no 'tiro ao alvo'). Nada, ou quase nada. É o que o ex-aluno vier a cultivar por si próprio que realmente conta.
Quanto àqueles 'dum outro tempo' que aprenderam o inglês, por exemplo, e não o praticaram de um modo ou de outro, também esqueceram.
Este resultado final, comum ao método 'antigo' e ao método 'novo', faz-me pensar no verdadeiro objectivo da escola, o que nos leva para um outro âmbito da funçâo de educar. A velha escola moldou os comportamentos, disciplinou o corpo rebelde dos meninos e dos adolescentes, pelo meio mais simples que existe: pelo sentar, pelo auto-controle dos movimentos. Claro que esta era a preparação mais útil para os futuros amanuenses e empregados do terciário. Foi, certamente, eficaz.
Agora, a tecnologia desfez esse modelo. A televisão ainda ensinava a passividade, mas o computador e o 'smartphone' reclamam cada vez mais atenção sobre o pequeno écrã. A escola não está de modo nenhum preparada para impor a sua disciplina a este tipo de negligência e de comportamento informal. A palavra do professor não tem a mesma competência que teve nos 'bons tempos', quando confrontada com a enciclopédia universal do Google. Os telemóveis distraem continuamente, atraindo irresistivelmente os 'discentes' para o 'continuum' da ligação à rede. Parece existir até um certo maquiavelismo por parte da força tecnológica para tramar a escola. Anuncia-se já a invasão dos 'smartwatches' que não deixarão de captar o que sobra da atenção dos alunos e da disciplina na aula. Portanto, se tiverem sucesso nos exames, chegam à vida activa com a matéria liofilizada pronta para o 'delete', que receberam da escola. Quanto ao emprego, quando há, estarão prontos para o trabalho 'independente', sem chefes e sem regras coactivas.
Talvez esse seja o futuro, quem sabe?