quarta-feira, 26 de outubro de 2005

" O coração ficou escondido no escuro e duro como a pedra filosofal."

Paul Celan ("Contraluz")


Os que voltaram do Inferno e que viram o seu ser destruído, numa língua que não morreu disso, estranham.

A poesia não seria possível depois de Auschwitz (Adorno).

Mas Celan diz que essa língua atravessou os acontecimentos sem gastar uma palavra.
Não devemos esquecer e, contudo, a língua já nos leva por novos e velhos caminhos, como a fénix.
"Ich bin der Welt abhanden gekommen." (vénia a "dias felizes")

terça-feira, 25 de outubro de 2005

DIREITOS POR LINHAS TORTAS

O 52 ed Lirba




« Contrariamente ao que se diz no « Sermão da Montanha”, se tens sede de justiça, terás sempre sede.”
Jules Renard (1864/1910)





Teremos então de admitir que há profissões com menos direitos do que outras e que, pela função, pelos meios de que dispõem contraem certas obrigações que importam alguma restrição àqueles direitos? Mas de que direitos estamos a falar? 

A teoria dos direitos em abstracto filia-se numa certa tradição revolucionária e significa uma espécie de reparação catártica feita aos injustiçados da História, que em princípio seriam os trabalhadores. 

Mas há trabalhadores e trabalhadores e há as profissões que são como um manto de misericórdia que não distingue o explorado do explorador. Salgado de Matos dizia há dias, com justeza, que ser banqueiro também é uma profissão (como juiz e militar).

E não podemos ficar por aí, porque na classe dos trabalhadores encontramos um mundo de diferenças, de estatuto, de segurança do emprego e de poder sobre outros trabalhadores.

De facto, não podemos desligar a questão dos direitos da posição face aos poderes (incluamos aqui os privilégios, mesmo relativos, e o poder estratégico ligado à função). É assim que a ideia de justiça pode servir aos fins de alguns grupos que apenas visam usufruir dum estatuto que em tudo os separa dos “injustiçados”. O lugar preferido do diabo é detrás da cruz. 

Por outro lado, quando se comparam os meios de luta dos trabalhadores em geral e os desses grupos que ocupam posições estratégicas, verificamos que a eficácia destes é desproporcionada ao seu número, o que nos leva a pensar que alguma espécie de equilíbrio deveria ter lugar para se restabelecer a justiça e a democracia. Se não for obtido pela auto-contenção e o sentido de obrigações particulares, deverá sê-lo através das leis. 

Porque, invocando-se a justiça, o que está aqui em causa é o exercício dum poder, e é bom de ver que a democracia não é compatível com o livre oportunismo dos grupos de força (sejam eles corporativos, empresariais ou políticos). 

Por exemplo, o diferencial de poder dos maquinistas da CP em relação aos outros trabalhadores nunca os impediu de usá-lo, sempre com sucesso garantido. No caso das forças armadas, por que não se utilizariam os tanques para um sequestro do governo? 

Entre este putsch surrealista e um putsch a sério, a diferença é que naquele se jogaria, talvez, com a almofada europeia, conjurando-se o perigo insurreccional. Em qualquer caso seria um descalabro moral e o fim de qualquer governo.

VERDE-CESÁRIO


Com o céu e o mar dum cinzento carregado, toda a luz se concentra na espuma que se abre. E aos indícios de azul em cima responde a cor de jade das ondas.

Quem só sabe apreciar o verão e a primavera não sente como um ocidental.

Aqui há “tal soturnidade, tal melancolia”...

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

WE ARE THE PEOPLE


"As vinhas da ira" (1940-John Ford)

We are the people. A depressão não trouxe à tona apenas fezes. Na adversidade acabrunhante, uma família do Dust Bowl revela que o verdadeiro heroísmo é o dos simples mortais e que a coragem é feita de tripas como as de toda a gente.

Uma ideia social como a verdade a descobrir é atribuída ao personagem de Tom Joad que se comporta no fim como um convertido à religião da humanidade. A mensagem ingénua não tem menos força depois das amargas verdades do socialismo e do itinerário ideológico do cineasta e do romancista.

O papel da mãe é tudo menos realista, mas também é a coisa mais pura do filme. Quando surge a oportunidade de vinte dias de trabalho, o que resta da família abala para começar tudo de novo, guiados por esse pensamento sublime que é “we are the people”.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Andar pela areia ainda não pisada e só penteada pelo vento é quase como caminhar sobre as águas. A sombra desliza como uma cobra de duna em duna.

Esta manhã, havia uma luz espectral sobre o Porto.

O granito do corpo tinha absorvido o sol e era agora uma gambiarra desfalecente voltada para os farrapos de céu.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Da mesa em que me encontro vejo no plano inclinado da vidraça uma escriturária.

A geometria variável da Casa da Música pode ler-se como um comentário moderno ao monumento da guerra peninsular.

O jardim está salpicado de folhas envolvendo a coluna com o leão poderoso sobre a águia, da qual uma asa parece ainda esvoaçar. É a energia alada vencida pela massa.

No edifício de Koolhaas, parece-me ver também o mármore cego pesar sobre a camada de ar roubada ao cubo.

sábado, 15 de outubro de 2005

Miramar é o nome duma praia de Gaia, perto de Francelos. Um passadiço feito de velhas traves da linha férrea ondula junto ao mar e os rochedos, ao lado dos arames do campo de golfe, com a capela do Senhor da Pedra a atrair todos os raios.

Aquele piso imediatamente transforma a paisagem num espectáculo. Falta-nos a massagem da areia nos pés.

A mesma sensação que uma mudança de velocidade. Um automóvel abole o espaço em mais de um sentido.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

À hora do almoço, numa pequena cidade limítrofe, que tem um jardim novo, sobre o triângulo da relva, não maior do que 15 m2, assanham-se dois homens e duas máquinas, pisando a verdura em todos os sentidos para aspirar algumas folhas murchas dos plátanos e endoidecendo com o ruído os incautos que, como eu, vieram procurar um minuto de sossego na esplanada.

Que belo exemplo da pressão do emprego sobre a teta camarária!

E tanto gasóleo e tanta poluição para nos tirar da vista a melancolia do Outono! Suponho que trocar o tractor pelo ancinho seria passar de cavalo para burro...

Mas quem disse que é a eficiência que se procura?

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Há canais menores, por detrás dos palácios, onde o passado não é mais do que uma ruína sombria e por onde não se aventuram as gôndolas.

A Sereníssima aqui não esconde a sua idade, nem aquilo em que se tornou o esplendor de outrora.

Quem sobe do rio, no Porto, encontra uma rua que desperta igual melancolia. Poucos são os edifícios habitados ou que a lepra do abandono não comeu.

É a de Mouzinho da Silveira.

Passo no 500 (era o 1) e pasmo. Até quando, no coração da cidade, esta necrose que nos oprime e desalenta?

No autocarro, ao longo do rio, o som da língua alemã. Já um destes dias a voz de Ângela Merkel me tinha feito pensar em como seria fácil render-me aos encantos deste áspero gorjeio, se não fosse o século XX.

Esqueço o tempo em que a bruteza dos germanos os designava de antemão para a guarda pretoriana do imperador. Ah! Mas quando eles eram românticos sonhadores, apaixonados pelo helenismo, como Winckelmann ou Goethe!

Será possível que as ressonâncias daquela língua alguma vez se libertem das inflexões paranóicas de que toda uma geração de mortos foi possuída? E, talvez tão difícil, do cinema da guerra?

terça-feira, 11 de outubro de 2005

A NOSSA PARTE MALDITA



“O declínio do paganismo acarretou o dos jogos e dos cultos cujos custos os romanos ricos deviam obrigatoriamente cobrir; é por isso que se pôde dizer que o cristianismo tinha individualizado a propriedade, dando ao seu detentor uma disposição inteira dos seus produtos e abolindo a sua função social.”

“A noção de despesa” (Georges Bataille)

Como o autor diz a seguir, essa despesa tornou-se livre, através da esmola e das doações às igrejas e aos mosteiros ( e, hoje, às fundações ).

É assim que um grande industrial, envolvido num célebre processo judicial e acusado por uns de rapacidade na condução dos seus negócios e por outros admirado como um moderno “tycoon”, com o toque de Midas, talvez para surpresa de todos, legou ao mesmo povo de que parecia tão distante e cujas escolhas políticas desprezava os vultosos milhões duma fundação benemérita.

Não será uma boa ilustração da tese de Bataille de que existe sempre no “conjunto da matéria viva” um excesso de energia que deve ser delapidado em pura perda.

O desperdício que constantemente se assaca à nossa administração pública talvez seja um melhor exemplo.

Queimamos a nossa gordura numa suave ineficiência, em vez de erguermos novas pirâmides ou de desencadearmos tempestades no deserto.

Esta cauda da tempestade parece nem perturbar o sono paradoxal da natureza. Respira-se o vento do largo, que já só nos convida às viagens interiores.

Na areia lavada, transparece aqui e ali uma venosidade de alcatrão. O céu é cor de chumbo, abençoadamente e os aguaceiros vêm sarar as feridas do verão.

Aposto que, na estação que se aproxima, haverá menos depressões e úlceras gástricas. Só por não se amaldiçoar o tempo...

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

À hora do almoço, num restaurante da Baixa, alguns ecrãs chatos diante do balcão. Passa sem som um programa que é suposto ter alegria. Estranho! Os actores (não são todos?) parecem ilusionistas de quem se expusessem os truques.

domingo, 9 de outubro de 2005

UM PRECURSOR TEM SEMPRE RAZÃO


O Moisés de Miguel Ângelo

“Não posso crer, a respeito do teu fidelíssimo servo Moisés, que lhe tenha sido dado por ti um dom menor do que eu gostaria e desejaria para mim próprio, se tivesse nascido no tempo em que ele nasceu e me tivesses colocado no mesmo lugar, a fim de que, mediante o ministério do meu coração e da minha língua, fossem dadas a conhecer aquelas páginas (...)”

Santo Agostinho (“Confissões”)

É lógico o raciocínio do santo. Se acreditamos na figura do precursor, cremos também na sua inspiração.

Se Moisés gaguejava, tal como Homero era cego, isso era uma marca de “servidão” para com o seu Deus, o que o ajudou, talvez, a transmitir-nos o ditado do “Génesis”.

Mas o mediador permite-nos medir com ele a existência.

Nesse sentido, não há nenhum homem que, depois de morto, não possa transformar-se em oráculo e em servidor de enigmas.

FALTA DE TONER

Andamos a tirar imagens deslavadas que mal se conseguem ver. Manchas aqui e ali arruínam-nos o zelo.

Não temos auto-crítica. Temos uma sarna que não paramos de coçar. Há alguma coisa que esteja bem? Em desespero de causa jogamos o nosso amor-próprio nos mundiais de futebol.

Onde errámos? O vate nacional diz de Afonso, no cerco de Badajoz : “Agora não lhe deixa ter defesa/ Da maldição da mãe, que estava presa.”

Ao dividir o mundo em Tordesilhas, incorremos nalguma falta contra Júpiter?

De qualquer modo, é Camões o único que não contribui para a depressão geral.