segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O DESEJO DE LÓGICA




"Como a ideologia, em suma, que pode dar conta de tudo e que pode fazer face a todas as questões porque não são mais do que questões 'retóricas' para dogmas prévios."

(Michel Meyer)

O modelo deste 'fechamento' é o silogismo lógico, que 'responde a priori às questões que poderiam tornar a proposição problemática.' (Idem)

Aqui podemos ver, por parte da razão, um 'desejo de lógica' por detrás do proselitismo ideológico que só não tem sucesso por lhe faltar o mesmo nível de abstracção e de concisão do silogismo. Até o escravo do 'Menon' platónico pode participar do pensamento geométrico e lógico do cidadão ateniense e testemunhar da sua consistência. O que deveria separá-los a esse nível seria a retórica de classe e os respectivos dogmas. Mas nada é menos certo do que a existência nas consciências de uma ideologia e muito menos da 'ideologia alemã' que só surgiria depois do grande cisma da Revolução francesa.

Em resumo, a ideologia não prescinde de uma lógica que não pode deixar de ser confusa para poder ocultar os seus 'dogmas'. A retórica é a arte de satisfazer o 'desejo de lógica' no mar das contradições.



domingo, 24 de janeiro de 2016

(Cork)

CEPTICISMO BENEVOLENTE


Sigmund Freud


"A atitude que mais apreciamos neles (os nossos pacientes) é a de um cepticismo benevolente. Tentai, pois, vós também, deixar lentamente amadurecer em vós a concepção psicanalítica, ao lado da concepção popular ou psicológica, até que se apresente a ocasião de uma e outra entrarem numa relação recíproca, medirem-se e associando-se, fazerem nascer finalmente uma concepção decisiva."
"Introduction à la Psychanalyse" (Sigmund Freud)

A palavra-chave é benevolência. Significa que, mesmo se ao princípio estamos um pouco incrédulos, estamos disponíveis para uma mudança de opinião.

É o mesmo crédito que temos de dar a um autor, antes de lermos a sua obra. O aborrecimento e a incompreensão são o preço a pagar pela preguiça ou pela má-vontade. Eis por que é tão raro o autodidata que não pode contar com a 'garantia' académica de que dedica o seu estudo aos 'melhores' e que o seu esforço será, seguramente, recompensado.

Mas temos boas razões para pensar que o sucesso da psicanálise, especialmente entre os Americanos, quando lhes levou, conscientemente, a 'peste', contou menos com qualquer 'cepticismo benevolente' do que com uma cultura urbana, sedenta de novidade e de ideias práticas, que espalharia aos quatro ventos uma teoria 'desmistificadora' e de grande operacionalidade ritual.

Nas palavras da 'Introdução', temos, além disso, o modelo de uma influência respeitadora da liberdade do indivíduo, como convém a uma sociedade democrática, que pode também ser interpretada como astúcia da razão invasora.

Porque corre-se o risco de um cepticismo encenado, meio ganho para a causa. Um compasso de espera em nome de uma certa 'delicadeza'.




sábado, 23 de janeiro de 2016

Bairro do Aleixo (José Ames)

JUSTIÇA E SEGURANÇA

Stanza della Segnatura

"Assim quando se fala do carácter moral que deve revestir a penalidade, é preciso entender unicamente que a culpabilidade é aqui apenas uma função do perigo social; que as circunstâncias atenuantes, agravantes ou absolutórias só podem ser avaliadas do ponto de vista da protecção comum; e que em vez de nos preocuparmos com uma justiça absoluta, com uma liberdade total e uma responsabilidade perfeita, temos somente que determinar em que medida a acção incriminada, procedendo duma decisão reflectida e por aí atinente ao que liga as vontades, toma um carácter contagioso, imitável, dissolvente para a vida colectiva. O que é essencial e legítimo aqui é portanto a necessidade da sociedade se conservar."
"L'action" (Maurice Blondel)


Ao ler esta passagem de Blondel vislumbra-se, através da confusão em que as sucessivas influências mergulharam a ideia da justiça penal, uma ordem, o palimpsesto duma verdade primordial.

Não existe nenhuma justificação para julgar o que não conhecemos, nem para punir a responsabilidade que não podemos determinar, senão a defesa de algo mais precioso e de sagrado, no que esta palavra conserva de irredutível. Precisamente, o meio vivo que alimenta o espírito e a liberdade do indivíduo.

Quando revemos a transformação que se operou na justiça, por efeito da psicologia e das ciências sociais, no sentido da desresponsabilização e da contextualização, a ponto de em boa verdade se ter que julgar mais a sociedade do que o indivíduo, percebemos como esse é um caminho sem saída.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

(Cascais)

A TEIMOSIA


inspirably.com


"(...) preciso de uma 'obstinação dúctil'."
(André Gide) 

Para escrever? Ou simplesmente para se manter 'igual a si próprio'?

Há uma espécie de teimosia no querer continuar. Porque não é a razão que nos pode convencer. Ela que é perita em atar e desatar os laços da lógica (a necessidade que veio do espaço, como alguns heróis das sagas).

Nem a inteligência, que mais depressa se deixaria convencer por todo o plano inclinado que se estende aos nossos pés. Julieta dos espíritos escorrega para a piscina azul da sua fantasia. E, antes dela, conhecemos todos o alçapão em cai Alice no seu sonho.

Embora pareça longe de favorecer estas quedas e escorregadelas, a verdade é que a inteligência nos seduz a metermo-nos por estranhos caminhos, alguns dos quais terminam no pesadelo. E se estamos a sonhar, por que não poderia ser assim?

Daí a obstinação, também chamada de persistência pelos 'bons olhos' e de estupidez, ou de uma certa limitação do juízo, pelos 'maus'. Mas talvez se encontre aqui um nó dos muitos em que se deixa prender o 'livre pensamento'. Não é verdade que Cristo chamou a si as criancinhas e os 'pobres de espírito'? E embora alguns fariseus de sempre queiram reservar a expressão para aqueles que, sendo ricos pelos critérios normais, se comportam como pobres (mas para isso há um nome mais acertado que é o de avareza), os 'pobres de espírito' são legião e a presa favorita dos predadores deste mundo, os espertos. É o 'mexilhão' do adágio popular 'quando o mar bate na rocha...'

Seja como for, um certo grau de teimosia, em que a 'estupidez' aparece mais como uma técnica de sobrevivência e um método natural para lidar com a complexidade artificial e as distorções do poder, do que com um 'defeito'. A literatura dá-nos um exemplo desse tipo de homem quando se refere à 'manha' do camponês (como a do pai Sorel, na obra-prima de Stendhal).

Gide quer que ela seja 'dúctil', talvez porque não confie nos seus instintos.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

(José Ames)

A ESPERA





"Ele era sem qualquer dúvida um homem crente, mas que não cria em nada; a sua devoção à ciência nem sequer tinha conseguido fazê-lo esquecer que a beleza e a bondade dos homens provêm daquilo em que eles crêem, e não daquilo que sabem."
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

O que é um crente que não crê em nada? Falamos aqui da força dessa crença, e Ulrich teria uma crença demasiado débil para influenciar a sua vida? Ou deveríamos considerá-lo um homem mais propenso à crença do que às provas da ciência? De qualquer modo, fora do 'saber' e do conhecimento, nenhuma espécie de transcendência fora suficientemente viva para não preferir uma razão limitada à partida.

Portanto, à falta de melhor, é um crente 'em esperança' (como Stendhal dizia de Mathilde de La Mole, na célebre análise de Alain).

Sirvo-me ainda desta personagem do 'Le Rouge et le Noir' para dizer ainda o seguinte: aquele que espera, sem ter encontrado ainda, ou mesmo que não venha  a encontrar, é inconfundivelmente crente dessa esperança. É a falta de objecto dessa crença, como é o caso, no fundo, de toda a crença no futuro que justifica o veredicto de Musil sobre a personagem.




quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

(Aquileia)

O ELOGIO DA LOUCURA

Claude Lévi-Strauss


"Nenhum psicólogo comportamentalista que observasse as pequenas aldeias isoladas no Interior do Brasil declararia decididamente que os seus habitantes 'desenvolvem diferentes formas de loucura' a fim de enfrentarem a chuva, as carências alimentares e a desolação."

(Lévi-Strauss, citado por George Steiner)

Segundo este pensamento, a razão tem a capacidade de se 'retrair' para dar lugar a uma estratégia de sobrevivência mais eficaz do que ela, chamemos-lhe instinto ou outra coisa qualquer. O poder racional surge a esta luz como um luxo da sua evolução que o 'animal racional' nem sempre se pode permitir.

Estamos familiarizados, de resto, com esse retraimento perante a dor ou uma grande perda afectiva. Esses 'loucos', de algum modo, não consideram a sua racionalidade à altura do problema existencial que enfrentam.

Este comportamento tem um certo paralelismo com o fenómeno da hibernação que pertence ao domínio da 'economia da força vital' num ambiente demasiado hostil. Quem perde a razão para poder continuar a viver experimenta uma 'hibernação' de outro tipo, quase sempre irrecuperável para o sentimento da realidade.

É assim que algumas teorias, como a do 'crescimento zero' dos anos setenta, exprimem a necessidade de suster uma corrida desenfreada para o Caos, nem que seja por um inverno.

Stephen Hawkings, ao alertar, recentemente, para o lado destruidor da ciência e da tecnologia que a 'razão ocidental' é, por ela própria, incapaz de criticar porque se trata dos seus filhos mais queridos, não faz mais do que repetir o que a antropologia vem dizendo.


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

(José Ames)

INSEGUROS ANDAIMES




"Em todo o sofrimento, emoção, paixão, há um estádio em que isso pertence ao próprio homem no que ele tem de mais individual e de mais inexprimível e um estádio em que pertence à arte."

(Albert Camus)

O que seriam aqueles sentimentos se o pensamento ou a arte não os 'modulassem' numa forma que pode, até certo ponto, distanciar-se de nós e ser por nós contemplada?

Uma amálgama caótica resultante dos choques de um ambiente em que ficamos indistintamente envolvidos. Uma espécie de estado oracular através do qual o próprio universo parece balbuciar. Assim o entenderam os Antigos, seguindo a ideia de que, neste mundo (e no outro), 'tudo está ligado'.

A arte e a linguagem parecem confundir-se nessa função de fazer aparecer o mundo, de o replicar no nosso molde.

Mas não é o mais individual no homem que surge antes da forma artística, no automatismo enigmático da pitonisa que lhe é ditado pela natureza. É, pelo contrário, o colectivo e o animal.

Só o 'artista', na sua actividade criativa, pode atestar do indivíduo. O mais profundo em cada um de nós não é individual. Mas do que não sabemos, o melhor é o silêncio, diria o autor do 'Tratactus'...


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

(Génova)

A LIBERDADE

Henri-Dominique Lacordaire (1802/1861)



"(...) entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o patrão e o escravo, é a liberdade que oprime e a lei que liberta.

(Henri-Dominique Lacordaire)


Esta citação de um dominicano é do ano em que Marx escreveu os seus famosos 'Manuscritos Filosóficos e Económicos', os quais, durante um tempo foram uma fonte, no próprio Marx, contra o marxismo oficial.

Podemos, ainda hoje, acrescentar alguma coisa ao seu conteúdo essencial?

A Liberdade inspirou todos os nossos heróis desde os Gregos. Lendo as páginas de Plutarco que foram uma verdadeira 'vida dos santos', na versão laica, para as elites europeias, ou os historiadores romanos, julgamos compreender tudo o que há a dizer sobre a liberdade. Bruto esteve sempre do lado certo, mesmo quando traiu o seu 'pai' espiritual. A Revolução Francesa inaugurou o princípio da liberdade na lei.

Com origem nessa mudança radical, descobriu-se uma nova teoria da sociedade e o método revolucionário para produzir efeitos semelhantes onde quer que 'estivessem reunidas as condições'. A desgraça é que ninguém possuía a fórmula dessas condições. Foi preciso que os continuadores de Hegel a extraíssem, já em armas, como Atena, da cabeça do 'Idealismo Alemão'.

Chega a parecer incrível a simplicidade dessa 'extracção': tratava-se de colocar a dita fórmula 'sobre os seus pés', como uma criatura normal.

Apesar desse começo nada auspicioso, os novos hegelianos foram certeiros ao identificar na grande Revolução a passagem de mãos do poder de 'jure' para o poder de facto e a nova supremacia burguesa. A Liberdade deixou de servir à aristocracia para oprimir o poder do dinheiro. Solução que estava na ordem das coisas, já que os nobres estavam, em grande parte, falidos.

Hoje sabemos que houve já uma transferência silenciosa, sem revolução, do poder da burguesia industrial e comercial para os 'Grandes': os Grandes Investidores, a Grande Finança, os Grandes Fundos e a Grande Especulação. Quando nos dizem que fazemos parte, através das nossas pensões, desses Grandes Investidores, atingiu-se a perfeição do sistema. 'La boucle est bouclée', como dizem os Franceses.

Voltando ao início, podemos dizer que a Liberdade nunca foi para todos, nem pode ser, nos termos de Lacordaire. Basta a necessidade de uma divisão de tarefas para multiplicarmos as desigualdades e as oportunidades para oprimir até ao infinito. A experiência soviética mostrou que as desigualdades do poder aumentaram exponencialmente, embora a diferença em rublos pudesse não ser tão 'expressiva' como nos países capitalistas, mas há que contar com a riqueza 'em espécie' da 'nomenklatura'.

Outra coisa óbvia é que não é a 'base da pirâmide' que faz as leis. Estas, 'devem' assegurar a 'desigualdade intrínseca' que faz o sistema funcionar.

Por isso, continua a ser verdade que a liberdade livre continua a ser a dos fortes; a outra é a liberdade retórica, em que as sociedades mais felizes acreditam. Quanto à lei, liberta uns e oprime outros, como sempre. Mas o seu primeiro valor é o da segurança do sistema que torna tais leis indispensáveis.