segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
HERMENÊUTICA
![]() |
Frederico Lourenço (Diálogo com Frei Bento Domingues, 'Público' de ontem)
|
"A minha tese é que nenhum dos autores dos 70 livros que compõem aquilo a que chamamos a Bíblia, nenhum, escreveu com o intuito de que nós lêssemos nas palavras deles outra coisa que não as palavras que foram escritas."
Frederico Lourenço
Não posso senão concordar. O 'texto aberto' é uma ideia do século XX. Isso não quer dizer que não seja preciso uma chave, porque, em princípio, o texto é 'inspirado'. Podemos contentar-nos em rodar qualquer outra chave, num sentido ou noutro, mas a 'porta' só se abre no 'estado de graça' e com uma única chave.
Pelo seu lado, o 'texto aberto' corresponde já a um mundo sem Deus, em que o leitor exerce uma espécie de 'direito de escolha', para glória da alma individual. O Deus que corresponde a esta auto-suficiência hermenêutica, na realidade, faz parte do mundo 'profano' e individualista.
É certo que o próprio Jesus condenou a interpretação literal (a dos fariseus), por contraposição da fé. Mas a fé não encontra 'o' sentido necessariamente, e parece não depender dela esse 'milagre'. De certo, só sabemos que a letra está condenada ao fracasso...excepto no caso dos fatalistas.
domingo, 20 de dezembro de 2015
TRÓIA E A FALTA DINHEIRO
"Já Tucídides observava que a força que faltou, aquando da expedição de Tróia, foi precisamente o dinheiro. Por causa desta 'falta de dinheiro' (akhrēmatía), tudo era muito menos poderoso do que se ia seguir, mesmo se fosse muito mais glorioso."
(Roberto Calasso)
O dinheiro e a tecnologia tornam as guerras modernas cada vez menos 'gloriosas', do nosso ponto de vista, claro. Porque os que continuam, onde quer que seja, a fazer-se explodir em nome da religião, esses conhecem a sua versão da glória que lhes é incutida por autênticos ou pérfidos mentores.
A guerra entre gregos e troianos ter-se-ia decidido mais cedo, com menos custos humanos, se abundasse a força do dinheiro, ou se o valor das partes não se equivalesse. Mas os Gregos combatiam pela honra e por um fantasma chamado Helena (poderia estar no Egipto, ou em qualquer nuvem), enquanto os troianos de Heitor lutavam pela sua cidade e pela vida dos seus.
Assim, não se compreenderia como foi possível o triunfo dos Gregos. O pretexto de Helena deve ter servido no tempo das incertezas, da falta de vento, da quezília entre Aquiles e Agammemnon. Mas os primeiros mortos encarniçaram a guerra e tornaram-se o motivo principal. Foi a morte de Pátroclo que fez o filho de Tétis abandonar o seu amuo tão impróprio de um 'herói'. A cólera de Aquiles é o símbolo da força precária dos Gregos. Não houve uma falta dessas na cidade sitiada.
É aqui que entra uma força superior à do dinheiro, à coragem e ao valor militar, que faz a guerra sair do impasse. É a força da inteligência que se revela no estratagema de Ulisses. É também uma força sem glória e, até por isso, deveria opor-se a todas as guerras. Mas nem sempre está à mão no momento preciso...
sábado, 19 de dezembro de 2015
O QUE SABEMOS DO SER PARA PERGUNTAR
Platão e Aristóteles
"Quando a ironia socrática foi levada a sério, quando o conjunto da dialéctica se confundiu com a sua propedêutica, resultaram daí consequências extremamente deploráveis, pois a dialéctica deixou de ser a ciência dos problemas e, em última análise, confundiu-se com o simples movimento do negativo e da contradição. Os filósofos acabaram a falar como jovens da ralé. Deste ponto de vista, Hegel é o resultado de uma longa tradição que levou a sério a questão "que é?", servindo-se dela para determinar a essência, mas que, assim, substituiu a natureza do problemático pelo negativo."
"Diferença e Repetição" (Gilles Deleuze)
Compreender como o perguntar o que as coisas são, que é a pergunta das crianças (o que é isto?), só pode ter um nome como resposta. E sabido o nome, não tem sentido perguntar porquê.
No limite, a cada coisa deveria corresponder um substantivo, duplicação do real pela linguagem. Só haveria diferenças e nenhuma semelhança.
Mas a pergunta do ser não pode descobrir mais do que a semelhança, porque tudo se reduz ao mesmo (o Ser).
"A questão "que é?" anima apenas os diálogos aporéticos, isto é, aqueles que a própria forma da questão lança na contradição e faz com que desemboque no niilismo (...)" (ibidem)
O movimento de ideias que se gerou a partir da oposição platónica entre a essência e a aparência, com repercussões em todos os campos do saber e da experiência, desde as ciências à religião, teria sido possível, então, graças a uma "doença infantil" da filosofia?
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
IMPOSSÍVEL ESPECTADOR
"All about Eve" (1950-Joseph Mankiewicz)
Quando o satânico Addison DeWitt (o magnífico Georges Sanders), na festa de Margo, anunciada já a tempestade prestes a rebentar ( - apertem os cintos! diz Bette Davis), faz algumas reflexões em voz alta, alguém diz que não é preciso ser adivinho para saber qual vai ser o teor da sua crónica do dia seguinte.
O trabalho da escrita, que se prepara mesmo no sono e que nunca deixa de impor um sentido à realidade, independente da acção, pode ser uma espécie de exílio.
Também, quando se viaja com uma câmara fotográfica que nos dá algum prazer, já não há situações, nem libertação dos sentidos, mas luz, enquadramento e oportunidades.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
FUTURO ANTERIOR
Frédéric Chopin (1810/1849)
"Os Estudos são ensaios para uma teoria da infância e, justamente por isso, uma preparação pianística para a morte, uma pesquisa em que o ouvido é o olhar da alma."
(Boris Pasternak sobre Chopin, citado por Cristina Campo)
É preciso acreditar que a infância não foi uma idade de oiro, para sempre perdida, na qual todos os nossos órgãos se afeiçoaram ao mundo e a que só é possível voltar regredindo, caindo na farsa da primeira idade que é o senil.
Não, é na maturidade dos Estudos, por exemplo que escutamos o jorrar da fonte, secreta, mas sempre presente.
E devíamos ir ao encontro da morte com a primeira inocência (porque, enfim, não há saber, nem experiência que possamos invocar), como o viajante que por momentos poisou a sua mochila e nela volta a pegar quando retoma a caminhada.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
MULTICULTURALISMO OU ASSIMILAÇÃO?
![]() |
| www.athirdopinion.net |
"Que muitos dos refugiados sírios sejam profissionais e homens de negócio não escapou aos analistas e empregadores, e já algumas companhias dispõem de novos aprendizados direccionados aos refugiados. Os instintos humanitários de Merkel podem a longo prazo trazer benefícios materiais para o seu país, tanto quanto a Alemanha seja cautelosa em não alienar os cidadãos em perspectiva, exigindo-lhes em troca a assimilação como preço da cidadania."
Tariq Modood (The Guardian, 16/12/2015)
O multiculturalismo torna-se a prazo um regime de 'apartheid', ou uma 'reserva de índios' (não é essa a lição do judaísmo?), se não houver uma escalada demográfica dos refugiados e dos seus descendentes, caso em que assistiremos a uma nova versão do 'fim do império romano', sem bárbaros conquistadores, mas com os novos Átilas da rede global.
A falta de previsão dos líderes europeus é agora punida com o discurso triunfante da extrema direita. O chamado 'politicamente correcto' que assim expôs as nossas ideias fundamentais, através de um respeito supersticioso do Outro, cada vez mais confundido com as suas franjas fanatizadas, as únicas que têm voz no espaço mediático, levou-nos a esta situação de perigo iminente.
A palavra morta, soterrada nos índices estatísticos da nossa 'qualidade de vida', na nossa demografia extenuada, no nosso egoísmo, é o verdadeiro destilador do 'politicamente correcto'.
O falhanço do 'multiculturalismo' reconhecido pela Alemanha, país com uma população em declínio e, portanto, numa situação mais perigosa, com os 'cucos' a ocupar em pouco tempo a maioria dos 'ninhos', deve ser reconhecido por todos neste tempo vertiginoso. No contexto da guerra mediática global, o paradigma medieval da convivência pacífica entre comunidades com cultos distintos e uma religião dominante tampouco pode ser retomado quanto o califado do Daesh.
E é outra vez um caso-limite para a democracia ocidental. Devem as civilizações morrer, ou apressar o seu fim, em nome de uma maioria?
Para falar só da Alemanha, que tem uma fraqueza, para lá das gerações mais próximas, que é o seu horroroso genocídio em nome de algo que nem merece o nome de utopia que a torna inelegível para a condução dos destinos europeus, incapacidade que se reflecte, num complexo de culpa e na relutância dos seus dirigentes em chefiar a Europa, o 'multiculturalismo' é, de facto, o caminho para o suicídio.
Estamos ainda a sofrer o impacto das ondas de choque da Guerra que ultrapassou todos os limites.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
A MAGIA DE UM FÓSFORO
Flesh and the Devil
Num filme mudo como "Flesh and the Devil" (1926-Clarence Brown), é a própria rudeza dos meios que força à imaginação, com momentos tão irreais como os rostos da Garbo e de Gilbert "iluminados" pelo fósforo que acende o cigarro, ou as cenas do regresso do exílio, em que a obsessão amorosa é sugerida pela imagem flutuante sobre as dunas do deserto e as ondas do oceano.
E embora estes processos sejam característicos de muitos outros filmes da época ( as lentes não eram tão luminosas, nem existia ainda a voz-off) e tenham conhecido até, possivelmente, a exaustão, o que experimentamos agora em pleno domínio técnico é a irredutível poesia do tempo.
Como as antigas peças de cerâmica, tantas vezes copiadas, e que trazidas à luz do dia adquirem o valor da raridade e a beleza dos símbolos.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Subscrever:
Mensagens (Atom)














