
(José Ames)

"Os Budistas Zen dizem que é preciso um dedo para apontar para a lua, mas que não devemos mais preocupar-nos com ele logo que a lua foi reconhecida."
(Fritjof Capra)
Se aplicarmos a parábola à comunicação social, com Mc Luhan no pensamento, ficamos com a ideia de que o dedo é tudo com que nos preocupamos. Mas é verdade que o indicador não é um verdadeiro medium e, portanto, o célebre canadiano não é para aqui chamado.
O ponteiro chama a nossa atenção para um determinado ponto, o dedo dirige o nosso olhar, não é uma lente para vermos através dela. Mas gosto tanto da citação que me parece um desperdício aplicá-la só aos ponteiros.
Porque a televisão, por exemplo, também ela reclama o nosso olhar e a nossa atenção, mas o que ela mostra está nela mesma. Ela é o dedo e a lua ao mesmo tempo. Lua que só existe na ponta do dedo.

"Sem dúvida que a senhora nunca fez segredo do que sentia, nem mesmo agora, incluindo do que sente a meu respeito. Esse sentimento causa um tal impasse que se torna quase impossível conversar, pois tudo o que o seu interlocutor possa dizer será de antemão caracterizado como judeu, alemão ou chinês. Estou disposta em qualquer altura, como já disse ao Martin, a discutir estes assuntos em termos objectivos e políticos – penso que tenho algum conhecimento de causa –, mas com uma condição, que todos os aspectos humanos e pessoais sejam excluídos. Um argumento ad hominem destrói qualquer possibilidade de entendimento porque envolve uma coisa que sai do escopo da liberdade humana."
Carta de Hannah Arendt a Elfride e Martin Heidegger
A verdade é que as duas rivais no amor não são "livres" da mesma maneira em relação a Martin. O romance de Hannah com o filósofo "durou pouco tempo - de 1927 a 1928" (Elzbieta Ettinger), embora tivesse deixado marcas profundas, mas, entretanto, ela casou e duas décadas decorreram. Quanto a Elfride Petri, a mulher, foi a companheira duma vida. A possibilidade de discutir a divergência de ideias, em termos "objectivos e políticos" não representa a mesma coisa para ambas e pode perceber-se a nuance retórica na argumentação de Hannah.
Na vida real, os aspectos humanos e pessoais imiscuem-se quase sempre nos debates importantes. É difícil não defendermos um ponto de vista de que depende o nosso equilíbrio psicológico sem lhe "darmos corpo", sem nos envolvermos dum modo mais subjectivo do que às vezes desejaríamos.
As condições para a liberdade numa discussão só são menos complicadas do que aquelas que exige a liberdade política quando são possíveis o desafecto ou uma real generosidade.

Bartolomeo Cipolla foi um jurisconsulto de Verona, do século XV, autor de um tratado de astúcias (cautelae) permitindo contornar as leis.
Está, talvez, a fazer falta uma súmula de todos os artifícios que desde o tempo de Cipolla foram criados para fintar as leis.
É de esperar que tal empresa encontre forte resistência corporativa, menos por parecer um atentado à majestade da Lei, do que um ataque a um monopólio de conhecimentos práticos.
Mas, tal como a bondade divina sai realçada da comparação com o tripudio das legiões de demónios, mais resplandecente aparecerá a lei, se tudo o que se fez contra ela, na forma ou no espírito, por meios especiosos ou não, pudesse oferecer-se à contemplação de todos.
Poderíamos então legendar com mais verdade alguns (in)sucessos do pretório.

"É assim, não porque os interesses económicos com os quais essas medidas interferem são mais importantes do que outros, que o controlo dos preços e das quantidades deve ser por completo excluído num sistema livre, mas porque esta espécie de controlos não pode ser exercida de acordo com uma regra, mas pela sua própria natureza tem de ser discricionário e arbitrário. Conceder tais poderes à autoridade significa de facto dar-lhe o poder de determinar arbitrariamente o que deve ser produzido, por quem e para quem."
"The Constitution of Liberty" (Friedrich Hayek)
Apesar deste ser o livro que Margareth Thachter proclamou a bíblia do seu partido, podemos nele encontrar muito mais do que o programa conservador.
Passagens como aquela que qualquer adepto da teoria dos sistemas subscreveria têm, por isso, o condão de provocarem uma imediata rejeição no grande número dos que sentem que o capitalismo só pode ser considerado um sistema livre por comparação com sociedades como a da Coreia do Norte.
Não seria admissível, mesmo para o mais impenitente dos liberais, considerar o tipo de regulação darwiniana que se observa na natureza como um exemplo de liberdade (certamente esse não é o caso de Hayek), mas temos de reconhecer que até ao presente todos os esforços para construir um sistema, sem violência e apenas governado pela razão universal, redundaram em históricos fracassos.
Os limites do nosso conhecimento sobre os sistemas sociais complexos só têm paralelo na insuficiência dos nossos esquemas sobre a natureza, os quais poderemos resumir no facto de continuar a fazer todo o sentido a ideia de necessidade, pelo menos tão antiga como a humanidade clássica.
O que sabemos é que isso não tem impedido, nos últimos séculos, o aparecimento de teorias que postulam o controlo pelo homem das suas condições de existência e que, consequentemente, convertem a questão da necessidade numa questão de justiça. Aos críticos da necessidade do poder discricionário, bastará identificar os que beneficiam com o sistema para conceberem a solução. Mas o ponto de Hayek continua a ser pertinente: se não dominamos o "sistema", devemos entregar todo o poder a quem não sabe como respeitar a regra da justiça?

"Mesmo a nossa personalidade, que tomamos grosseiramente pela nossa mais íntima e profunda propriedade, pelo nosso soberano bem, é apenas uma coisa, além disso mutável e acidental, em comparação com este eu, o mais nu possível; uma vez que podemos pensar nela, calcular os seus interesses, e até perdê-los um pouco de vista, ela não é mais, portanto, do que uma divindade psicológica secundária que habita o nosso espelho e que obedece ao nosso nome. Ela é da ordem dos Penates."
"Introduction à la méthode de Léonard de Vinci" (Paul Valéry)
Se o homem todo não é o autor, nem a personalidade, como o deveremos pensar? Para lá dos acidentes, da cor camaleónica e das anedotas que nos permitem distinguir as personagens históricas, Valéry propõe-nos a imagem de "um modelo psicológico mais ou menos grosseiro, mas que represente, de alguma maneira, a nossa própria capacidade de reconstruir a obra (referindo-se a Leonardo) que nos propomos explicar." E nesta misteriosa qualidade da representação encontramos toda a "insuficiência" da nossa visão do mundo. Valéry diz que a "lucidez a braços com a insuficiência, é um espectáculo deveras curioso."
Mas todo o esforço de análise do poeta-filósofo não fez a questão avançar um só passo. Podemos continuar a considerar Leonardo um génio inexplicável, quer pela sua obra, quer pela sua biografia que satisfaremos tal modelo psicológico. Que, de facto, não resolve nenhum problema insolúvel, mas estou menos certo de que o coloque "com uma nitidez incomparável."
E, como bem viu o nosso autor, a procura dum invariante, ou do eu absoluto, como do leito do rio heraclitiano, leva à perda de toda a individualidade. A consciência, nesse limite, teria de se reconhecer ele própria como coisa entre as coisas do universo.

"Há no texto escrito, quer se trate do tablete de argila, do mármore, do papiro ou do pergaminho, de um osso gravado, de um rolo ou de um livro, uma máxima de autoridade (...)"
"Les Logocrates" (George Steiner)
Digamos que o escrito tem já sobre o diálogo mental connosco mesmos a " autoridade" do objectivo, do que se fixa e permanece, escapando ao destino desses pensamentos cuja meteorologia nos impede de continuar o quer que seja, devendo nós, como Sísifo recomeçar tudo de novo.
Um dente de dragão, como na lenda de Cadmus, ou uma pirâmide impõem-se na linha do horizonte, até o momento em que, de tão preenchida, essa linha deixa de aparecer. O escrito da era digital encontrou uma outra espécie de volatilidade que lhe alienou muito da sua "auctoritas".

"Porque nenhuma das grandes artes pode passar sem essa 'tagarelice e essas especulações de alto voo sobre a natureza'; porque é bem daí que parece vir a altura do espírito e a facilidade de levar a bom fim todas as suas empresas."
"Phèdre" (Platão)
Falam assim ( de tagarelice) os inimigos de Sócrates que o hão-de levar à cicuta. Melitos, por exemplo, acusa-o de se ocupar dos fenómenos celestes, acusação de impiedade e de desonestidade intelectual porque esse não seria um assunto do conhecimento humano. Tudo isso se resume em não ver diferença nenhuma entre a filosofia e a sofística.
São passagens como esta que medem o salto duma civilização que, começando por venerar os deuses, se serviu da linguagem mais abstracta, ela só digna de se dirigir a essas entidades, e descobriu o próprio espírito.