domingo, 17 de janeiro de 2016
ANTENAS
"O que quero dizer é que, sem experiência, o pensamento pode ser justo, sensato, correcto e até profundo, mas dificilmente será comunicativo, transformador ou renovador;"
(José Mattoso)
O valor da experiência já teve melhores dias. Se a 'prótese' cerebral que representam os computadores e os 'smartphones' estivesse disponível, digamos, na Idade Clássica, não teríamos aquilo a que chamamos Civilização Ocidental. Pela simples razão que não poderíamos lidar com esse passado e com essa tradição. Anteciparíamos em mais de 2000 anos a civilização americana e o seu característico desenraizamento.
A ideia de Mattoso, a ser verdadeira, significaria que nos estamos a tornar cada vez menos 'comunicativos, transformadores ou renovadores', isto numa época em que parece que nunca fomos tanto essas coisas. O paradoxo só se resolveria se aceitássemos que a comunicação do tempo presente não é uma verdadeira comunicação, porque não comunicamos experiência, a experiência individual, pelo menos.
Talvez estejamos a participar na metamorfose da ideia de indivíduo que esteve na base da nossa filosofia de vida e da nossa sociologia. O indivíduo em rede não tem profundidade, vive numa única dimensão do tempo. É um neurónio de um novo tipo. Tem muito para ligar e muito pouco de um abismo pessoal.
Nem toda a experiência é transmissível, mas as 'antenas' podem tocar-se.
sábado, 16 de janeiro de 2016
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
A FÍSICA PARTEIRA
Charles Péguy (1873/1914)
"(...) E um problema, do qual não se via o fim, um problema sem saída, um problema ao qual toda a gente estava aferrada, de repente já não existe e perguntamo-nos do que se falava. É que, em vez de receber uma solução ordinária, solução que se encontra, este problema, esta dificuldade, esta impossibilidade acaba de passar por um ponto de resolução, por assim dizer físico. Por um ponto de crise. É que, ao mesmo tempo, o mundo inteiro passou por um ponto de crise, por assim dizer, físico. Há pontos críticos do acontecimento, como há pontos críticos de temperatura, pontos de fusão, de congelamento; de ebulição, de condensação; de coagulação; de cristalização. Nos acontecimentos, encontram-se até mesmo estes estados de superfusão que não se precipitam, que não se cristalizam, que não se dominam a não ser pela introdução de um fragmento do acontecimento futuro."
"Clio" (Charles Péguy, citado por Gilles Deleuze)
É como quando se diz que o tempo resolve, e sem que se tenha procurado uma solução, o problema deixou de existir. Se somos demasiado velhos, e por maioria de razão se já morremos, já nada é como era. O mundo muda connosco, e ao mudar (e " não muda já como soía"), muda o sentido das nossas acções.
O "ponto de crise físico" foi atingido, talvez com o nosso concurso inconsciente, e o problema está já para trás, quando ocorre a imponderável antecipação do futuro.
Uma teoria revolucionária pode ser o fragmento de que fala Péguy, mesmo quando é um erro futuro, porque esta ideia já faz parte duma visão do mundo em que o problema deixou de se pôr, ou foi formulado de outro modo.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
"MEMENTO MORI"
"Segundo ela (a noção egípcia de justiça), o ideal do bom juiz seria "fazer com que as duas partes saiam do tribunal satisfeitas".
(José Mattoso)
Este ideal pertence, justamente, ao Céu. Porque esse é o lugar onde todas as contradições se resolvem. As duas partes encontrarão um juiz 'compreensivo', ao ponto de não discriminar entre inocentes e culpados, levando a ideia da igualdade à sua plena consumação. Seria assim que um pai 'não-severo' julgaria uma querela entre os seus filhos, contextualizando sempre e dando à sorte imprevisível a sua parte.
Por que é que isto faz todo o sentido? Aqui parece que abdicámos de qualquer pedagogia ou de exemplaridade moral, como se o objecto da narração não pudesse 'mudar a sua vida', ou de algum modo corrigir-se. Como se falássemos do mundo dos Mortos.
O ideal do bom juiz só poderia influenciar a prática do tribunal e as suas decisões como um pensamento de segundo grau, que deveria estar sempre presente nos actos da justiça. Há uma certa semelhança entre este 'sub-texto' de uma justiça impraticável, sem deixar de ser 'produtiva', com o costume romano de lembrar os que alcançavam o poder de que eram simples mortais. "Memento mori."
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
OS NÚMEROS PRIMOS
"A série infinita de números naturais é (como a linguagem humana em geral) uma grande invenção do homem. Mas ninguém inventou os 'números primos': foram 'descobertos' na sequência do acto de contar."
(Karl Popper)
Por causa de questões como esta, o filósofo considerava-se um 'realista metafísico'.
O que está para além da natureza (Physis) é ainda Natureza. É a tese materialista. Deveríamos considerar todo o invisível e todo o inaudível, por exemplo, como fenómenos 'metafísicos'? Sabemos como os nossos instrumentos e a nossa razão tornam essa questão sem sentido.
De facto, não podemos ter consciência das últimas consequências dos nossos actos, nem sequer do verdadeiro contexto em que eles nascem. Ficamo-nos pelas aproximações mais convenientes.
Quando 'inventámos' a série infinita dos números naturais não precisávamos de mais do que contar. A descoberta de que esta operação não era tão simples como pensávamos e que implicava o encontro do 3. grau com o impensável dá crédito à ideia de que existem outras propriedades em todas as nossas invenções que são incompatíveis com a noção de que somos realmente os seus autores.
Uma vez mais, a humanidade se vê despojada da esperança de ser alguma vez o sujeito da sua história. Todo o indivíduo se confronta com essa fragilidade, mas sentindo-se parte da humanidade, recompõe-se em Deus ou no 'falso infinito' do Semelhante.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
A ANTIMATÉRIA DO LOGOS
"Há ainda muita coisa por analisar na linguagem de Hitler, essa antimatéria do 'Logos'"
(George Steiner; "Martin Heidegger")
Com a passagem ao domínio público, o livro de Adolf Hitler, 'Mein Kampf', está a ser objecto de alguma polémica. Deve a democracia promover a divulgação do panfleto de um dos seus maiores inimigos?
A propósito desta questão, parecem confrontar-se dois pontos de vista irreconciliáveis: o da extrema-direita, inspirada pela ideia do poder absoluto como meio de regressar a uma espécie de estado pré-político em que todos os conflitos sociais se resolvessem pela força e que conta com o Estado para catapultar o seu proselitismo e, por outro lado, o de alguma esquerda que teme precisamente o poder diabólico da antimatéria de que fala Steiner.
Poderíamos ainda identificar, do lado da pró-divulgação, um certo 'politicamente correcto' que se sente suficientemente seguro para dar às ideias do líder nazi todas as oportunidades para conquistar os espíritos, submetendo-as à livre discussão e a uma análise objectiva, só possível com a distância histórica, na convicção de que a verdade se imporá pela evidência.
Ora, o que começa a tornar-se claro é que o impacto das ideias do 'frustrado artista' nascido em Linz dependeu de um contexto histórico de decadência e de desequilíbrio social de cujas entranhas haveria de sair à luz do dia um novo começo. O facto de hoje este livro ser ainda capaz de despertar polémica deveria, porém, levar-nos a pensar no que os tempos presentes conservam de um contexto histórico que julgávamos sepultado nos escombros da Alemanha ao cabo de duas guerras mundiais.
Steiner atribui, talvez, uma importância simbólica à linguagem do panfletista que ela não merece, e que significa ressuscitar, de certo modo, a teologia medieval.
Mas também é verdade que 'há ainda muita coisa por analisar' nessa linguagem. Principalmente porque o que aqui está em causa ultrapassa em muito o indivíduo. Nesta divisão de tarefas entre o indivíduo e a massa podemos até conceber que Hitler foi, a maior parte do tempo, o ventríloquo de um desvario colectivo. Como se poderia então 'analisar' a sua linguagem? E será ainda linguagem?
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
SOB INFLUÊNCIA
Uma conversa amorosa não deixa de o ser em surdina quando a actualidade parece tomar conta da cena.
Observo este par de namorados, e as palavras parasitam sobre as ondas da sedução.
Diante desse silêncio, maior do que ela mesma, ele expõe-se, quase infantil, lutando pelas asas.
Os pedaços de informação, as trôpegas ideias que emergem no seu discurso são apenas pontos de apoio para os pés brilhantes que dançam.
domingo, 10 de janeiro de 2016
O SINO DA MINHA ALDEIA
Bertrand Russell (1872/1970)
"Agir está bem, por algum tempo: é um tratamento e como uma psicoterapia que reanima um pouco a confiança dando a quem se lhe submete a bela ilusão duma fé ou dum amor fecundo. Mas depois? Viver por viver, não é finalmente absurdo e cruel? O homem bem pode procurar dentro dele ou fora dele, no infinito da ciência ou do universo; está ainda só, e não pode ficar só."
"L'action" (Maurice Blondel)
A bem-aventurança que nos promete Bertrand Russell ("Por que não sou cristão"), apoiada no imparável progresso da ciência e do conhecimento, longe dos terrores do homem primitivo e dos tempos de superstição, não parece hoje menos idealista do que a esperança no Reino dos Céus.
Os limites da ciência estão cada vez mais à vista e mesmo que o seu desenvolvimento fosse ao ponto de eliminar a morte (God forbid!), não nos poderia assegurar a felicidade nem o sentido da vida.
Por isso penso que se iludem os que ligam o sentimento religioso apenas ao medo da morte.
Como se especula no último livro de Saramago, isso traria decerto muitos problemas à Igreja, enquanto dispensadora dos ritos e do protocolo de "passagem".
Mas a vida em função dum conhecimento instrumental e que, quanto ao resto, nos deixa em impenetráveis e perpétuas trevas, não é muito diferente da auto-ilusão ou duma vida pelo prazer de viver (enquanto se pode).
Quando Bertrand Russell nos exorta a procurarmos o nosso paraíso na terra, soa-me estranhamente ao "sino da minha aldeia" e às alegrias paroquiais dum tempo que para sempre pertence ao passado.
O chamado mundo global, se tem um mérito é o de esvaziar de sentido o narcisismo terráqueo e o de nos confrontar com o problema da nossa "orfandade" face ao universo.
sábado, 9 de janeiro de 2016
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