quinta-feira, 21 de junho de 2012

O MATA-BORRÃO


"O meu pensamento tem uma relação com a teologia como a dum mata-borrão com a tinta. Está saturado de tinta. Contudo, se fôssemos pelo mata-borrão, nada do que foi escrito permaneceria."

(Walter Benjamin)



A censura ( a da ética ou a da polícia ) é um tal "mata-borrão", tendencialmente contra a própria escrita.

A mudança em nós actua também da mesma maneira. Cada pensamento deitado no "papel" é uma repetição da história de Niobe que se gabava dos seus sete filhos e sete filhas diante de Leto, a mãe de Apolo e Artemisa, e que  viu tombar toda a sua prole sob as setas dos Letoides. O olhar que relê é impiedoso como o dos gémeos e insaciável como o mata-borrão.

Por isso,  a maioria dos autores esquece a "tinta" já gasta para poder continuar a escrever.

A confissão de Benjamin equivale a dizer que nada do que se pode dizer da teologia é "pertinente". E tudo o que já se disse sobre ela faz uma grande clareira, ou um grande jardim, cercado de altos muros, no meio do qual está o vazio. Como o palácio do imperador no centro de Tóquio (Barthes).

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