quinta-feira, 17 de abril de 2014

O PARADOXO DA MULTIDÃO

"The crowd" (King Vidor)

 

"O conceito do livro ("Crowds and Power") creio, que é tão real quanto podia ser. Começo por aquilo a que chamo o medo de ser tocado. Penso que o ser humano individual se sente ameaçado pelos outros e sente por esta razão uma anxiedade em ser tocado por algo de desconhecido, e que procura proteger-se por todos os meios de ser tocado pelo desconhecido, criando distâncias à sua volta e esforçando-se por evitar um contacto mais próximo dos outros seres humanos. Todos os seres humanos já experimentaram isto de tentarmos todos não dar encontrões aos outros, nem gostarmos de suportar os encontrões dos outros. Apesar de todas as medidas preventivas, os seres humanos nunca perdem completamente o medo de serem tocados. O que é notável é que este medo desaparece completamente numa multidão. É realmente um paradoxo importante."

(Elias Canetti em conversa com Theodor Adorno)


De alguma maneira, os 'outros' deixam de ser 'desconhecidos', como se a multidão que rodeia o indivíduo tomasse conta do seu ser, como se ela fosse o instrumento de uma metamorfose em qualquer coisa de ilimitado que coloca em surdina todos os nossos sinais de alerta habituais.

Mas o caso é que esse 'entusiasmo' ( a palavra, na origem, exprimia a inspiração do deus ou o estado de 'possuído' por ele) tem algumas condições. O efeito da multidão também pode ser o contrário disso. É o caso do 'infiltrado' num comício, ou de alguém que se encontra prevenido contra a 'possessão'.

Woody Allen em "Zelig" inventa outro tipo de 'desafecto' em relação ao fascínio das massas reunidas em Nuremberga. O da imitação camaleónica.

 

0 comentários: