quarta-feira, 19 de março de 2014

O VIÚVO DA REVOLUÇÃO

 

"Foste muito festejado no teu regresso. Não nos encontrámos então; provavelmente estavas muito ocupado...não o interpretei mal, a propósito. No final de contas, não se podia esperar que visitasses todos os teus velhos amigos. Mas vi-te duas vezes em comícios, em cima da plataforma. Estavas ainda de muletas e com um ar muito cansado. O que seria lógico era que tivesses ido para um sanatório por alguns meses, e depois aceitasses algum lugar no Governo - depois de teres estado quatro anos fora, em missão no estrangeiro. Mas depois de duas semanas, já te estavas a candidatar para outra missão no estrangeiro..." Inclinou-se subitamente sobre Rubashov:"- Porquê?" interrogou, e pela primeira vez a sua voz era cortante."

"Darkness at Noon" (Arthur Koestler)

O "socialismo num só país" tinha um preço. O de considerar o resto do mundo como inimigo, interessado na destruição do regime. Uma suspeita estranha quando seria de esperar que o bom exemplo frutificasse.

Simone Weil diz a propósito:"Para um tal regime, o dilema "propagar-se ou morrer" não somente já não é válido, como já não faz qualquer sentido; o regime stalinista, enquanto sistema de opressão, é tão pouco contagioso quanto o poderia ser o Império para os países vizinhos da França."

Chegou-se ao ponto de acusar de traição os melhores e os mais devotados da primeira geração de revolucionários. E, como mostra o livro de Koestler, conseguindo a voluntária 'confissão' deles, em nome do Partido e da sua missão histórica.

A realidade pode corromper-se, mas o espírito é incorruptível. Saint-Just, o Viúvo da Grande Revolução, abençoou os que assim se condenaram a si próprios.

 

 

 

 


 

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