sexta-feira, 12 de abril de 2013

A PITONISA

A sibila de Cumas (Miguel Ângelo)

 

"Não é provavelmente sem razão que nas épocas cujo espírito se parece com um campo de feira, o papel de antítese seja cometido aos poetas que não têm nada a ver com a sua época."


(Robert Musil, "O Homem Sem Qualidades")


Pessoa foi um desses poetas, mas deixou-nos uma nebulosa por antítese. Não sei, dos seus heterónimos, se algum reata com o passado, no sentido mais profundo. Indecisão do poeta por detrás das várias máscaras?

Mas o requisito musiliano dessa poesia não ter nada a ver com a sua época é inverificável. A própria negação da 'feira' tem com esta uma afinidade dialéctica.

Gostaria de pensar que um grande poeta como Herberto Helder que cultiva a invisibilidade quando a norma é ver e ser visto, como num 'reality show', não tem nada a ver com a nossa época, e é um exemplo do espírito separado, bebendo directamente das fontes.

Mas pode a poesia que 'não desce à rua' fazer mais do que ressuscitar a pitonisa?

 

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