terça-feira, 3 de abril de 2007

AS VALQUÍRIAS NO APOCALIPSE


Valquíria

A "cavalgada das valquírias", tema romântico de um exaltado germanismo, não tem nada a ver com o "som e a fúria" (sempre a literatura) de qualquer guerra. Raramente as palavras ou as imagens matam como as granadas, e o terror e o pânico expulsam todo o pensamento, quanto mais a expressão formal do que acontece.

O momento da arte vem depois. Mas então não há regras, nem domínios reservados ou géneros que não se possam misturar.

Homero, no meio da sua descrição da luta de morte entre Gregos e Troianos, detém-se longamente na análise do escudo de Aquiles, numa evocação dos trabalhos pacíficos do campo, com essa pausa, conferindo um tumulto e uma violência acrescidos à narração da batalha.

Toda a arte e toda a literatura são um manancial que o artista deve desviar para os seus próprios fins.

Este Wagner, apropriado por Coppola, em "Apocalypse Now" (1972), naquela carga de helicópteros, é o ritmo empolgante, a própria intoxicação romântica e a conotação política moderna, que já nada tem a ver com o compositor, tudo concorrendo para um efeito poderoso de irrealidade, que o indescritível tenente-coronel representado por Robert Duvall resume nas palavras sobre o napalm: "it smells of victory".

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