quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O PROCEDIMENTO DOS BOTÕES




"Este procedimento consiste em agir metodicamente sobre os seus pensamentos, mesmo em circunstâncias perturbantes, do mesmo modo que um homem manda coser os botões nos seus fatos, porque não conseguiria mais do que perder tempo se imaginasse poder despir estes mais depressa sem aqueles."

"L'Homme Sans Qualités" (Robert Musil)

Quem o diz é Hagauer, um professor pedante.

Não sei se todos gostaríamos de proceder por ordem. De qualquer modo, como não somos feitos só de razão e de lógica, e o mundo entra em nós sem pedir licença, o exemplo dos botões faz sentido apenas na visão ideal das coisas. Na verdade, as pessoas só pensam metodicamente na sua área de especialização, em laboratório. E a lareira de Descartes é um desses laboratórios, sem retortas, nem alambiques, onde é possível nos isolarmos do mundo.

Com método, atingimos mais depressa resultados. Mas a própria ciência avança muitas vezes quando a disciplina do método sofre um eclipse. É o que se passa com todas as descobertas devidas ao acaso (mesmo se o pensamento metódico criou certas condições necessárias à 'revelação').

Quando o filósofo do 'cogito' uniu o processo científico e a descoberta da verdade às regras da lógica, deu início ao desenvolvimento imparável de uma ciência que já não tinha que ser fiel a Deus, ou a qualquer transcendência, mas que só devia essa fidelidade a si própria.

Há um outro Descartes, porém, um Descartes crente, que teorizou sobre a 'generosidade' que é  "a virtude da auto-estima fundada no uso do nosso livre-arbítrio e no império que temos sobre as nossas vontades."

Note-se que a liberdade individual não é aqui abstracta, pois é um exercício da vontade. E se a palavra generosidade parece estranha por a considerarmos sempre como tendo como objecto o outro ou os outros, neste 'Príncipe do Entendimento', como lhe chamava Chartier, ela, pelo contrário, foca-se no próprio sujeito e na nobreza, digamos assim, a perfeição que lhe permite elevar os outros a esse mesmo plano. Um espírito vazio não tem nada para dar. Ser generoso é, portanto, acção e acção virtuosa, que, orgulhosamente, não precisa de Deus. E é assim que os dois Descartes se encontram. 

Mas só o primeiro crê no método. O outro crê no Homem.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

(Antaqueria)

A LUTA PELA MÁSCARA

Monumento a Bento XIV


"Almocei no palácio, ao lado do abade Gama, numa mesa de uma dúzia de talheres ocupada por outros tantos abades; porque em Roma toda a gente é abade ou quer parecê-lo; e como não é proibido a ninguém trazer o hábito, quem quer ser respeitado anda com ele, à excepção da nobreza que não está na carreira das dignidades eclesiásticas."

"Memórias de Casanova"

Que meio tão favorável a que um libertino se insinuasse no seio das famílias mais devotas, sob a capa da religião!

Eça, se escrevesse sobre um Amaro italiano, no tempo de Bento XIV, não tinha aqui matéria para um crime. Quando muito para uma comédia de enganos. Mas quando todos usam máscara, na verdade, ninguém engana ninguém.

A política, tendo absorvido a religião nas suas formas mais públicas, nem sequer podemos falar em hipocrisia. O retrato destes tempos, feito por um homem que não pretende mais do que contar, com espírito, a sua própria vida, sem qualquer motivação doutrinária ou filosófica, tem todos os estigmas da dissolução pré-revolucionária e da falta de futuro.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

(José Ames)

A COMUNA DE PARIS



"(...) a Comuna de Paris deu um exemplo, não somente da força criadora das massas operárias em movimento, mas também da incapacidade radical de um movimento espontâneo quando se trata de lutar contra uma força organizada de repressão."

(Simone Weil)

Esta é uma mensagem 'luminosa' num determinado contexto. Mas podia ter sido escrita por um historiador da burocracia soviética, tanto ela deve na linguagem ao marxismo oficial. Simone preparava, interiormente, um outro tipo de revolução onde pôde revelar o seu génio. Mas, ao encontro do paradigma de Foucault, o que encontramos antes, neste texto, são os óculos de uma época. Era assim que, à esquerda, se explicava o fracasso da Comuna.

A mensagem continua, evidentemente, a fazer sentido para muitos, porque não foi, entretanto, aculturada uma outra visão, independente da mecânica e da dialéctica. No fundo, o que é que se diz? Que um exército tem mais probabilidades de sucesso do que uma multidão desarmada (a organização é também uma arma). Hoje, tal explicação para o que se passou na tragédia de 1871, em Paris,  parece pouco.

A comparação com a situação actual deixa-nos ainda mais insatisfeitos. É claro que o conceito de massas já não nos ajuda nada. O que aparece em lugar dessa hipótese um tempo fecunda, é o que alguns já chamaram de populismo electrónico. A tão incensada participação popular, a opinião pública 'soberana' foi, entretanto, capturada pela caricatura da democracia que são as 'redes sociais'. Se escavadas, ainda que pouco, em vão procuraremos o indivíduo livre da utopia. É a 'doxa' de que já falava Platão, na sua pior forma. A verdadeira unidade desta agregação é a partícula browniana do ruído social.

As democracias, ao longo da história, têm-se, basicamente, defendido da volatilidade do 'soberano', com a armadura constitucional, o voto indirecto, as câmaras, os senados, os 'lobbies' e toda uma panóplia de restrições e salvaguardas que fazem da crítica esquerdista a esse poder que se exerce de 'quatro em quatro anos', um verdadeiro 'tiro ao lado'.

Mas chegou o momento de corporizar essa instância quase sagrada de soberania. E, através do grande amplificador que é a tecnologia e os mídia, o que vemos é um títere que não sabe quem é, nem o que quer e que apenas tem apetites.

A estátua de Platão aparece-nos na praia em vez da estátua da Liberdade, como no 'Planeta dos Macacos'.

domingo, 6 de novembro de 2016


OLHOS CONSOANTE




"Deus  não  dá  olhos  a  quem  vive  no  escuro,  eis  uma  sentença  que  até  poderia ser motivo de reflexão."

(Gonçalo Tavares)

De facto, os que vivem no escuro não precisam de olhos. E nós, humanos, vivemos numa claridade que nos ofusca. Temos olhos para essa ofuscação, mas não para passar sem ela.

Quando o oculista experimenta as nossas novas lentes pergunta: 'e agora vê melhor ou pior?' Entende-se que não é para vermos o mundo microscópico ou o cosmos, mas para vermos a nossa 'distância média' (Musil). Não temos lentes para o resto, para o incomensurável resto. Não 'nos foram dados' olhos para isso, nem tampouco precisamos deles, a não ser alguns especialistas que utilizam lentes mais sofisticadas. Mesmo assim, não se pode dizer que estes nos podem proporcionar, através dos seus instrumentos, o quer que seja para além da nossa ofuscação.

Como se sabe, Kant tirou as consequências éticas desta limitação, considerando que, realmente, se não podemos conhecer a transcendência, ou o sol platónico, essa não é uma razão para não nos governarmos, porque a vida da espécie depende disso, e a vida está para além (ou aquém) da transcendência e do mundo fenomenológico. Na verdade, a vida nem sequer é um valor porque não é comparável a nada. Não consente nenhuma escala.

Os sinais de alerta para mais uma situação perigosa (agora, o desfecho das eleições americanas e o que já mudou, entretanto) é mais uma prova de quão entrevada é a nossa clarividência. E de como a nossa ficção política  está em vias de nos explodir na cara.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

(José Ames)

PELO RETROVISOR


(nouveau theatre du monde ou nouvel ||| world ||| sotheby's ...)


"Os intelectuais  judeus  da  Europa  Central,  entre  as  guerras  e  no  pós-guerra, foram  especialmente  atraídos  pelo  marxismo:  em  parte  pela  ambição  prometeica do  projecto,  mas  também  graças  ao  desabamento  completo  do  seu  mundo,  à impossibilidade  de  regressar  ao  passado  ou  prosseguir  da  mesma  maneira,  à aparente inevitabilidade de construir um novo mundo, totalmente diferente."

(Tony Judt)

Nunca tinha pensado nisso, mas o 'mundo novo' pode ser uma 'inevitabilidade' nos espíritos que perderam o passado (ou o mundo que ele representava).

Na realidade, a doutrina revolucionária 'salvadora' é apenas um compasso de espera, porque (até agora) nenhuma utopia pôde substituir um passado histórico. Foi só o tempo necessário para o povo e os seus intelectuais dirigirem a sua bússola para o campo magnético das origens (ou o mito correspondente). A verdade é que Israel se reinventou, e a sedução da 'filosofia alemã' quase não deixou vestígios. O escrito devolveu aos que foram por um tempo os párias da humanidade a sua razão de ser.

António Aleixo fala mesmo num 'mundo novo a sério', o que significa que o mundo novo não é tão inevitável quanto isso, visto que nos podemos contentar com um sucedâneo. Baudrillard diria que nos podemos contentar com um simulacro.

Aliás, talvez o melhor do mundo novo seja uma espécie de 'parusia', a crença que ele há-de vir, quer isso seja o resultado necessário de uma 'lei histórica', ou o fruto de um partejamento da vanguarda. A contraprova é a rápida passagem à distopia, quando se julga 'alcançar' o poder de realizar a utopia.

Porém, graças à tecnologia, estamos em vias de remeter o passado real para o museu da história (ao lado do fuso e da roca, dizia Engels). E este mundo nem sequer consegue imaginar um mundo novo, nem a sério, nem a brincar, porque o nosso mundo é, realmente, o 'fim da história'. Já estamos a ver o 'homo sapiens sapiens' pelo espelho retrovisor.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

(O Porto, do comboio)

A MICRO MASSA



"...Não, isso não leva a lado nenhum, continuou. Tu tens razão. Mas não se deve dizê-lo. De tudo o que fazemos hoje, durante todo o dia, o que é que leva a algum lado? O que é que nos dá qualquer coisa, quero dizer alguma coisa de verdadeiro, compreendes? À noite, sabe-se que se viveu mais um dia, que se aprendeu isto ou aquilo, que se cumpriu um horário, mas não se está menos vazio, digo interiormente, experimenta-se uma espécie de fome interior..."

"Les désarrois de l'élève Törless" (Robert Musil )

Pode-se definir melhor a insatisfação dum jovem espírito, que parece ter toda a vida pela frente, mas que nem por isso sente menos que esse futuro, essa força ainda não são nada, que não se justificam por si mesmos?

No colégio de W., inculcam-lhe uma ideia de supremacia que a todo o momento é ameaçada pela realidade envolvente. A aldeia próxima é uma refutação do belo teorema aristocrático.

E a misteriosa vida dos camponeses, como um bafo quente e perturbador, não encontra em Törless as trincheiras defensivas dos outros jovens que a esconjuram através duma sexualidade predatória.

Mas essa simplificação atrai-o, irresistivelmente.

"De resto, dava a ideia de não ter nenhum carácter."

Nesta análise duma mente sem pontos de referência, essa atracção, essa fraqueza anunciam os grandes movimentos de massa.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

(José Ames)

LIMAR ARESTAS



Mahatma Gandhi



Maltratado pelo ritmo da cidade, pela fúria de trabalhar mais depressa, o corpo protesta abandonado pela razão. E eu procuro calá-lo, deixando de tomar café e de me deitar tarde. Mas o medo de que ele queira dizer-me uma coisa importante leva-me ao médico.

Posso viver com os sintomas conhecidos sem lhes dar excessiva atenção. É como se o corpo perdesse a faculdade de se fazer ouvir e de interessar este inquilino sem respeito. Porém, basta um sinal incompreensível para me lançar em terríveis conjecturas.


Que me importa o ruído do motor no carro do amigo que me leva a casa? Mas bem vejo como isso se faz ruga e distrai da conversação. Quanto mais esta outra máquina, pela qual existo e penso, parece merecer os cuidados dum mecânico.


Mas o que trago do consultório é a ordem de viver doutra maneira, porque o médico é honesto e não cede perante a minha imaginação.


Há um pensamento em Gandhi que ilustra bem esta loucura da medicina. Ele quis sempre sofrer todas as consequências dos seus actos. Um jantar copioso que nos soube bem pode resultar numa indigestão. Pois bem, é preciso aguentá-la. Excitei-me durante o dia e não consigo dormir? Que a
mão se mantenha longe do frasco das pílulas. É que quando recorremos às drogas, desfazemo-nos duma parte do corpo e perdemos a experiência necessária. Se nos podemos furtar à dor e ao desconforto que são efeito dos nossos actos voluntários, entramos num círculo de irrealidade e não somos mais responsáveis.


Esta medicina apaga os ângulos da vida e habitua-nos a uma espécie de tristeza que é feita de prazeres sem risco e sem medida.


A criança se crescesse tão protegida nunca chegaria a ser homem.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

(Brotas)

TORRE EBÚRNEA


"Dismantling the Ivory Tower of Thinking"


"Há alguma evidência de que uma dedicação educada e persistente à vida da palavra impressa, uma capacidade para profunda e criticamente nos identificarmos com personagens ou sentimentos imaginários, diminui a urgência, o gume acerado da circunstância actual. Tendemos a responder com mais premência à tristeza literária do que à miséria ao pé da porta. Aqui também os tempos recentes nos fornecem disso a dura evidência. Homens que choraram com o 'Werther' ou com Chopin, atravessaram, sem se darem conta, o inferno literal."

"Language and Silence" (George Steiner) 

Esta sensiblidade 'selectiva' será apenas apanágio dos 'homens de letras', do mundo da arte, enfim, encerrados na sua tão bem chamada 'torre de marfim', ou é um fenómeno muito mais comum? 

Miguel Ângelo produziu as suas obras-primas num meio político tumultuoso, com Florença envolvida nas guerras dos Médicis e a própria Roma saqueada. Parece que nada desse furor o conseguiu distrair da sua paixão principal. Não era um homem alheio ao que se passava à sua volta, mas escolhia entre o ser mais um 'condottiero' e tornar-se Miguel Ângelo. dispersando-se na anarquia 

Mas a 'turris eburnea' não é um 'pecado', ou pecadilho dos grandes artistas. Desde o surgimento do cinema e dos novos mídia, os nossos contemporâneos aprenderam (outros dirão que foram 'formatados', embora as duas coisas sejam conciliáveis) a resguardar-se do mundo, num outro mundo, 'ilusório'. 

O símbolo dessa ambiguidade, dessa cegueira voluntária, dessa falta de percepção do que a nossa cultura (e não só a cultura cristã) sempre chamou o 'Mal', foi para a eternidade escolhido por Hannah Arendt e tem nome de Adolf Eichmann. Não há inomináveis nesta galeria. 

Steiner é demasiado severo com os seus pares.