sábado, 8 de novembro de 2014

O HOMEOSTATO



"(...) as sociedades avançadas cultivam os sentimentos da forma mais despudorada e manipulam os sentimentos com álcool ou drogas ilícitas, medicamentos, boa e má cozinha, sexo real e virtual, toda a espécie de consumos e práticas sociais e religiosas cuja única finalidade é o bem-estar."

"Ao Encontro de Espinosa" (António Damásio)


A ideia de um mecanismo homeostático a actuar no indivíduo e na sociedade, com o fim de manter o bem-estar e que traduziria o "conatus" de Spinosa, o esforço, em todo o indivíduo, de perseverar no seu ser, leva-nos a outra ideia desse filósofo que explica a morte como uma causa sempre exterior.

Num ser em permanente troca com o exterior e dele tão dependente, quer ao nível psico-fisiológico, quer ao nível social, torna-se difícil identificar o dentro e o fora e igualmente difícil evitar uma explicação que não recorra a uma "harmonia" superior, que só tem equivalência na ideia muito antiga de destino.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Almirante Reis

LIVRE E GENEROSO


René Descartes


Em Descartes, o "conatus", quando falamos do homem, é a vontade de permanecer livre.

E não está essa definição mais perto da vida, quando pensamos que tudo aquilo que nos diminui e em nós enfraquece a vontade de viver, como a doença ou a velhice, representam sempre uma maior dependência e uma menor liberdade?

Mas a grande intuição cartesiana, ainda hoje surpreendente, é a da generosidade, como "a chave de todas as outras virtudes" e o "remédio contra todos os desregramentos das paixões", generosidade que nos permite "estimarmo-nos a nós mesmos pelo justo valor".

Ou seja, o homem que introduziu o racionalismo moderno é o mesmo que atribui a um sentimento complexo, como a generosidade (acção da alma e paixão ao mesmo tempo), o melhor meio, não de nos conhecermos, mas de sermos justos, a começar connosco mesmos.

Está aqui um interessante desafio à célebre injunção escrita no frontão do templo de Apolo, em Delfos. Conhece-te a ti mesmo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sem título

(José Ames)

 

A PUREZA DA DESTRUIÇÃO

 

"Para ele (Maquiavel) o ponto decisivo era que todo o contacto entre a religião e a política tem de corromper ambas, e que uma Igreja não corrompida, se bem que consideravelmente mais respeitável, seria ainda mais destruidora para o domínio público que a Igreja corrompida de então."

(Hannah Arendt)

 

Eis uma antecipação genial do que se passa hoje, mais de quinhentos anos depois, em grande parte dos países muçulmanos. Pode dizer-se que a Igreja Católica soube conter os seus místicos mais furiosos, como Savonarola, mandando-os para a fogueira, não se precavendo, por outro lado, contra a contaminação política, o que levou ao quase desaparecimento do 'espaço público' durante a Inquisição.

O Estado moderno naqueles países não está apenas ausente, denunciando aos olhos dos Ocidentais um anacronismo revelador, mas, mesmo descontando a demagogia fanática de alguns líderes, não pode deixar de erguer-se como uma temível ameaça para o modo de vida das populações.

Se tal visão do futuro nos fosse apresentada na Idade Média, recuaríamos com um "vade retro" adequado.

É assim que a chamada globalização ganha efectividade, num processo conflitual, em que só as grandes religiões podem dispor de alguns trunfos. Porque as culturas mais fracas, em parte já 'folclorizadas', serão sorvidas pelo turbilhão homogeneizador, disparando setas para o ar.

Era preciso uma alternativa a Darwin, menos ridícula do que o 'Grand Design'.

 

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Sem título

 

Matosinhos (Jose Ames)

 

LA PITTURA

 

"Sem tradição, o artista tem a ilusão de criar a sua própria regra. Ei-lo Deus."

"Cahiers III" (Albert Camus)

O momento Cézanne. Parece que ele virou as costas à tradição, a partir de uma certa altura, para, como dizia Proust, nos colocar uns óculos novos (que continuam a servir).

Mas a depuração do Monte de Sainte Victoire, paisagem repetida uma e outra vez até se tornar 'apenas' uma explicação da luz, não terá nada a ver com a pintura dos séculos anteriores?

Não é preciso recuar ao aforismo de Leonardo que dizia ser a pintura 'cosa mentale'. Ele sabia que a captação da imagem de um ser vivo era utópica (será isso que quer dizer a ironia da Gioconda?). O retrato fica numa outra ilha de Lotófagos, onde se aprende a esquecer a vida, enquanto o seu modelo se deteriora inexoravelmente, como Dorian Gray.

Mas talvez não seja essa utopia o essencial. O classicismo, por exemplo, representa-se a si mesmo, embora servindo-se das 'lentes' da época para a figuração do mundo.

Cézanne é um dos primeiros a utilizar a perspectiva histórica da pintura para a tornar independente do mundo, como nossa segunda natureza. A pintura rompe com o cânone da continuidade para ser tradicional dum modo paradoxal. Conquista a sua nova liberdade, à custa de nos separar do mundo. Cézanne traz Kant para a pintura.

O efeito mais surpreendente disto talvez seja o que muitos consideram 'o fim da pintura'. Tendo-se perdido com a reprodução ou a interpretação do mundo uma espécie de ética (já não podemos dizer hoje que uma pintura é mais verdadeira do que outra), entrou-se na era do jogo arbitrário e no beco-sem-saída da 'expressão' pessoal.

 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

O LIVRO NA ALGIBEIRA

Condorcet

 

O Marquês de Condorcet, expoente do iluminismo, apoiante de uma Revolução que tentou criar o culto da Razão divinizada, filósofo e matemático eminente, caiu em desgraça quando o partido da Montanha suplantou todos os outros partidos da Convenção e lhe foi colado o rótulo de girondino, a anterior maioria. Não ser tão 'puro' revolucionário como os montanhistas era já ser pontencialmente traidor. Condorcet teve de se esconder no início de 1794.

O livro de versos de um poeta latino (Horácio) que levava no bolso denunciou-o numa localidade que, simbolicamente, tinha mudado de nome (de Bourg-la Reine para Bourg-l'Égalité). Foi preso e morreu dois dias depois de encarcerado, em circunstâncias suspeitas.

Podíamos tentar atenuar este atentado à igualdade, precisamente, dizendo que os ignaros 'citoyens' que o denunciaram e arrastaram para o calabouço "não estavam preparados" para distinguir a igualdade da uniformidade, em consequência de mais de um milénio de privilégios de que se tinham apossado os aristocratas.

Mas olhamos para a cúpula e o que vemos? Um homem fez o seu caminho até ao poder da ditadura eliminando as 'impurezas' que se levantavam à sua volta. O povo baptizou o antigo advogado de Arras, com o título de 'Incorruptível'. A sua virtude, inspirada nos heróis de Plutarco, exasperada pela guilhotina do cálculo e pelo bafo mefistofélico de um Saint-Just perdido no seu século, tornou-o no próprio aborto da Razão iluminante.

A Enciclopédia Britânica termina assim a sua entrada 'politicamente correcta', sobre François-Marie-Isidore Maximilien Robespierre: "Muitas vezes visto como um ditador sedento de sangue, foi mais tarde valorizado pelos seus ideais sociais de redução da desigualdade e de garantia de trabalho para todos."

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Sem título

Adare (Irlanda)

 

A OUTORGA

" A palavra 'auctoritas' deriva do verbo 'augere', 'aumentar', e o que a autoridade ou aqueles que comandam aumentam é a fundação."

(Hanna Arendt)


Segundo Arendt, esta origem da autoridade, entre os Romanos, distingue-a perfeitamente do poder. É o tempo desde a fundação da cidade que legitima a autoridade. Se pensarmos bem, este é o princípio organizador da sociedade romana, que estabelece a primazia de uma classe e os privilégios derivados, em função da sua antiguidade. As grandes dinastias que governam Roma desde a primeira monarquia derivam esse estatuto dos fundadores, seus antepassados, e Roma é assim uma divindade política, defendendo o 'numerus clausus' patrício.

É óbvio que esta ideia corresponde a uma concepção estática da sociedade que, de resto, a expansão imperial seria a primeira a pôr em causa. O direito da fundação acabou submergido na onda de reivindicações dos antigos colonos.

Suponho que a autoridade do tempo da república se foi confundindo com o poder do imperador, o qual, logicamente, foi divinizado, primeiro passo para o direito divino invocado depois pela antiga realeza. O rei não tinha autoridade por ser mais cristão do que os seus súbditos. Tinha-a porque o próprio Deus o tinha escolhido, ou tinha sancionado a sua sucessão. Os tempos modernos, com a ideia democrática, estabeleceram a soberania popular, como a principal fonte da legitimidade do poder e do que sobrou da autoridade. Mas é evidente que essa soberania, que não cresce com a antiguidade, nem é infalível como Deus, não pode ser absoluta e deve, para bem de todos, ser tutelada por uma constituição e pelas outras leis e costumes que garantem o 'status quo'.

Simbolicamente, na principal praça do Porto, o herdeiro dos antigos soberanos de direito divino estende a Carta ao futuro soberano, do alto do seu cavalo.


domingo, 2 de novembro de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

ACRÓPOLE

 

"Lá em cima é outra coisa. Sobre os templos e sobre a pedra do solo que o vento parece ter também decapado até ao osso, a luz das onze horas cai em cheio, ressalta, quebra-se em mil espadas brancas e ardentes. A luz escava os olhos, fá-los chorar, entra no corpo com uma rapidez dolorosa, esvazia-o, abre-o para uma espécie de violação, física apenas, limpa-o ao mesmo tempo."

"Carnets III" (Albert Camus)

 

Antes de subir a escadaria com a Acrópole lá no alto, sente que tudo é já conhecido, que visita o lugar como um 'vizinho', sem emoção. É a luz que parece entranhar nele a experiência perdida do sagrado. Só depois, a audácia daquela arquitectura surpreende a sua inteligência. Felizes onze horas de há meio-século já!

O primeiro pensamento que me ocorre é como a vida que levamos nos 'protege' de experiências como essa e, sobretudo, em monumentos tão procurados pela ânsia de 'ter lá estado' e de registar o momento em fotografia ou vídeo.

Parece que não 'precisamos' de uma emoção como a que Camus sentiu. Não precisamos sequer da hipótese, tal como o astrónomo que respondeu a Napoleão que lhe perguntara se Deus fazia parte da sua relojoaria celeste: "Sire, não tive necessidade dessa hipótese."

O passado desaparece debaixo do aluvião humano, ou é incessantemente reescrito à luz de piedosas incompreensões.

As cheias do Tibre cobriram como um manto de esquecimento as ruínas da capital do império romano. Napoleão, com a sua grande visão, começou o trabalho de desocultamento/ocultamento. Estava ali, debaixo de terra, a prova de um império à sua altura...

 

sábado, 1 de novembro de 2014

Cork

OS SONÂMBULOS



Milan Kundera


"Gostaríamos de ver coisas heróicas e sem equívoco, por outras palavras, esteticismo, acreditava-se que essa devia ser a atitude do homem europeu, estávamos encerrados num nietzscheísmo mal compreendido, mesmo se a maior parte nunca tivesse ouvido pronunciar o nome de Nietzsche, e esse pesadelo só teve um fim, quando o mundo teve a ocasião de ver tanto heroísmo, que dele ficou tão farto, até não lhe suportar mais a vista."

"Les somnambules" (Hermann Broch)



A acção da trilogia de Broch passa-se entre 1888 e 1918. A primeira grande guerra mundial e a Revolução Bolchevique saem dentre a poeira e o fumo, como as duas faces de Janus.

O irracional da guerra, alimentado por uma vegetação cultural que das ideias dos grandes espíritos destila apenas o álcool necessário à bebedeira universal e a Ideia que levou ao assalto do céu, expressão mais alta do culto da Razão (histórica).

Como disse Kundera, Hermann Broch revela-nos que é então que os homens são mais completamente "manipulados pelo Irracional".