quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O IMPÉRIO "SOFT"

 

"Não há nenhum exemplo de uma moda vinda dos Estados Unidos que não tenha conseguido submergir a Europa ocidental alguns anos mais tarde; nenhum."

Michel Houellebecq ("Les particles élémentaires")


Os Estados Unidos têm a melhor tecnologia e a maior rede mundial para a difusão dos seus produtos e 'conteúdos'. É um poder que utilizam como outros países o fizeram no passado, das mais diversas formas. Transferir rendas e pagar 'direitos' e 'royalties' é bem mais prático do que entregar o odioso tributo ao ocupante.

O complexo financeiro que conseguiu evitar passar 'sob as forcas caudinas', em resultado do 'crash' por ele provocado, e que soube 'dar a volta' à situação à custa dos contribuintes, é agora o credor dos credores - uma leitura cínica do que se passou pode ser a de elogiar a sua manobra e considerar que a fortaleza do presente lhe vem de ter sabido investir nos nossos pontos fracos.

Esta foi, até à data, a última 'submersão' da Europa por uma moda importada dos Estados Unidos.

De facto, são estes aspectos mais cruentos deste império 'soft' (o outro lado deste império é a realidade do 'polícia do mundo') que nos deviam alertar para os perigos de não defendermos a nossa cultura.

 

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

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Praça (José Ames)

 

SEVERIDADE DA LETRA

http://geographicalimaginations.com/tag/franz-kafka/

 

"No fundo, a lei que governava a tua vida consistia em crer na verdade absoluta das opiniões de uma certa classe judaica, que o mesmo é dizer, uma vez que essas opiniões faziam parte da tua pessoa, em creres em ti mesmo. Mesmo isso comportava ainda uma boa parte de judaísmo, mas em relação à criança, era demasiado pouco para ser transmitido, o teu judaísmo esgotava-se completamente enquanto o confiavas nas minhas mãos."

"Lettre au père" (Franz Kafka)

No fundo, é de insensibilidade que Kafka acusa o pai. O que lhe servia a ele (a herança judaica) não podia ser transmitido sem tradução pessoal e apaixonada.

"Era impossível fazer compreender a uma criança que observava tudo com todo o excesso de acuidade nascido do medo, que algumas frioleiras que tu executavas em nome do judaísmo, com uma indiferença proporcional à sua futilidade, podiam ter um sentido mais elevado."

O pai parece aqui um fetichista da letra, de tal modo confia no simples poder do texto e do ritual para comunicar a verdade em que acredita.

E essa atitude é a mesma, afinal, de toda uma sabedoria prática que a Igreja católica, por exemplo, pôs em acção ao longo dos séculos. Antes de obedecer em espírito, ajoelhar.

Não era, todavia, o modo de desarmar a inteligência defensiva de uma criança perante a autoridade paterna esmagadora que reproduzia nela o seu próprio judeu e a culpa absoluta.

 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

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Salamanca

 

AS MÃOS DE HITLER

Hitler in prison after Beer Hall Putsch

 

"O que não foi possível demonstrar convincentemente foi qualquer influência directa das posições e comportamentos políticos de Heidegger sobre o seu génio em 'Sein und Zeit', sobre as suas releituras imensamente relevantes de Platāo, Aristóteles, Kant, Schelling e Nietzsche."

George Steiner

A verdade é que se não conhecêssemos nada sobre a pessoa de Platão, nenhum dado biográfico documentado, não deixaríamos de tomar a sua obra pelo que ela é, em si mesma, independentemente das hipotéticas 'contradições' na sua moral e no seu comportamento político. Pouco sabemos de Shakespeare, e até pômos em dúvida a autoria das suas peças. Mas não valem elas por si mesmas? O maior crime do presumido autor não poderia beliscar a obra-prima. Caravaggio, dado o que sabemos da sua vida violenta e das acusações que pendiam sobre a sua pessoa, pode ser, por alguns, considerado um 'monstro'. Pois bem, a pintura desse 'monstro' está acima de qualquer juízo policial.

Não se pode dizer, claro, o que na obra depende das paixões, mesmo das mais infames. Que uma íntima relação deve é provavelmente certo, mas sem prova possível. Até certo ponto, o que permite ao artista 'maldito' (se assim se pode dizer) sobreviver à consciência dos seus 'pecados' é a espécie de santidade do génio.

Tenho de falar em 'pecado' para compreender esta passagem de Steiner:

"A famosa observaçāo que Heidegger comunica a Karl Löwith sobre a beleza das māos de Hitler deixa, a uma tal luz, de nos parecer uma aberraçāo momentânea."

 

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

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(José Ames)

 

O "N" DOURADO

A Batalha de Arcole (1796)

 

"Os poucos instantes em que a legalidade reapareceu tinham bastado para tornar impossível o restabelecimento do arbitrário. O despotismo açaima as massas, e liberta os indivíduos até um certo limite; a anarquia desencadeia as massas e subjuga as independências individuais. Daí que o despotismo se assemelhe à liberdade, quando sucede à anarquia; ele permanece o que é verdadeiramente quando se substitui à liberdade; libertador, depois da constituição directorial, Bonaparte era opressor depois da Carta."

“Mémoires d'Outre-Tombe"

(Chateaubriand)

Podia dizer-se que a Carta instituía a liberdade das 'independências individuais' de um certo tipo, uma hegemonia de classe, enfim, mas isso era sempre melhor do que a anarquia.

Como se vê no Julien Sorel de Stendhal ("Le Rouge et le Noir"), o despotismo napoleónico tinha imensos adeptos, porque para além de impressionar as almas ardentes duma juventude ambiciosa, pela glória dos feitos militares, correspondia a um verdadeiro 'elevador' social, à custa dos poderes abalados pela Revolução.

Bonaparte, mais tarde, desiludiu meio mundo por ser 'igual aos outros', ao levar o teatro da própria glorificação a exageros ubuescos.

Chateaubriand detestava-o, com uma admiração sofrida. Estava ali o homem que conseguira livrar o país da anarquia das massas e, o que não é menos importante, da anarquia de leis impossíveis ditadas por um regime suicida. Mas o despotismo com que o cônsul pretendia curar esses males não servia a classe moribunda do grande autor.

 


 

domingo, 4 de agosto de 2013

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Luarca

 

A INCOMPREENSÃO DE GOETHE

 


Félix Mendelssohn (1809/1847)



"Primeiro, escreve Mendelssohn, não queria ouvir falar de Beethoven; mas teve de passar por isso, e escutar o primeiro pedaço da Sinfonia em ré menor, que mexeu com ele estranhamente. Não quis deixá-lo transparecer e contentou-se em me dizer: "Isso não nos toca, apenas surpreende." Ao fim dum certo tempo, continuou: "É grandioso, insensato! Dir-se-ia que a casa vai desabar."

Veio a ceia, durante a qual ele permaneceu entregue aos seus pensamentos, até ao momento em que, voltando a Beethoven, se pôs a interrogar-me e a examinar-me. Vi bem que o efeito se tinha produzido..."

(citação duma carta de Mendelssohn por Romain Roland no seu "Beethoven")


O jovem Mendelssohn passou por Weimar em 1830 e fala-nos do seu encontro com Goethe.

Apetece-me dizer como Bernardo Soares sobre os "Picwick Papers" de Dickens, que não poder voltar a ouvir (como da primeira vez) Beethoven é uma das "grandes tragédias da minha vida".

A impressão que a sua música inovadora produziu no grande poeta alemão, homem entre os mais cultos e sensíveis do seu tempo, é difícil de imaginar.

Sem ter o sucesso planetário de Mozart, que além de génio da música, tem uma dimensão lendária, Beethoven é um grande candidato à canonização democrática. O seu "busto" musical já foi apropriado pelo ambiente e ouve-se enquanto se aguarda que se faça uma ligação telefónica. A maioria corre o risco de para sempre desconhecer a sua grandeza.

sábado, 3 de agosto de 2013

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A CAVERNA REALISTA

 

Werner Jaeger (1888/1961)

"Para Homero, como para os Gregos em geral, as últimas fronteiras da ética não são convenções do mero dever, mas leis do ser. É na penetração do mundo por este amplo sentido da realidade, em relação ao qual todo o "realismo" aparece como irreal, que se baseia a força ilimitada da epopeia homérica."

Werner Jaeger ("Paidéia")

É o que WJ quer dizer quando explica que a "consideração psicológica e metafísica dum mesmo acontecimento não se excluem de modo nenhum".

Este estado de graça da primeira mundividência nunca considerou o homem como realidade separada frente à Natureza. Ele fazia parte, de facto, dum universo divino. Daí que a poesia fosse, naturalmente, mais verdadeira do que a própria filosofia.

Quando a ciência perdeu a consciência de si própria que era "o âmago da antiga ciência" (Allan Bloom), Deus e o universo passaram a fazer parte do Homem e a parte tomou-se pelo todo.

É isto a que chamamos realismo.

A sua expansão e aprofundamento não tem limites, mesmo se continuarmos na caverna de Platão.

 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

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Cascais

 

AS RELÍQUIAS

 

Os cadernos de conversação e os diários de Beethoven foram vendidos, depois da sua morte, por 1 florim e 20 kreuzer (menos de 1 dólar).

Beethoven era já suficientemente famoso para que o seu espólio artístico fosse valorizado e eventualmente objecto de cobiça.

Mas quem queria saber dos cadernos garatujados com as suas tentativas para escapar ao isolamento provocado pela surdez?

Entretanto, a psicologia e as teorias para explicar a obra pela biografia, tão censuradas por Proust, fizeram o seu caminho.

Parafraseando a célebre divisa de Terêncio, nada do que é humano é irrelevante para compreender a produção do artista. Mas esta escola ignora o poderoso influxo da própria arte, como tradição e sistema, sobre a criação.

E ao deixar-nos o artista, tudo seria relíquia.

 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

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(José Ames)

 

SOBRE OS MACACOS

 

"'Essa 'saloia macaqueação', superiormente denunciada por elle n'uma carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, n'um luminoso resumo, que 'Lisboa é uma cidade traduzida do francez em calão'―tornava-se para Fradique, apenas transpunha Santa Apolonia, um tormento sincero. E a sua anciedade perpetua era então descobrir, através da frandulagem do Francezismo, algum resto do genuino Portugal.”

(Eça de Queiros, “A correspondência de Fradique Mendes.”)

"Lisboa, não sejas francesa, tu és só para nós", disse o fado depois (diria, se não fosse o 'mot' do grande Eça?)

A verbe queiroziana fixou para sempre esta 'macaqueação' do estrangeiro. Simplesmente, o brilho francês vem-se apagando neste tempo de 'cópia' universal. A adopção de um costume ou de uma ideia não implica, em nada deste mundo, carregar ou descarregar as malas em Santa Apolónia sem um 'táxi' à vista, como aconteceu ao pobre do Jacinto. "Apanham-se", como uma gripe, na Rede. Se alguma vez fomos 'macacos de imitação', podemo-nos rir agora dos sacerdotes do vernáculo.

Paris já não é a 'cidade-luz', é mais um destino, no 'site' de uma companhia 'low cost'.

Sem maior convicção do que em outros lugares, aqui seguimos modas como o 'economês' ou o 'eduquês'. A infecção ultrapassa as fronteiras conhecidas e nem precisamos de traduzir, porque o inglês supostamente prático de um manual de instruções traçou já o limite da literacia.