
Esposende (José Ames)

Que há de inverosímil no trauma infantil? Que ninguém tenha pensado nisso. Porque este ser tão plástico, tem de guardar as marcas de toda a violência. E o corpo sendo também memória deve revelar.
Mas a psicanálise fala-nos numa economia do sujeito consciente destinada precisamente a esquecer o trauma. E, nessa medida, é que um facto da memória censurado pode ser o princípio organizador da personalidade. Nenhuma cena do passado tem esse privilégio, a não ser o que é sentido pela criança como uma ameaça à sua vida. O amor dos pais e, sobretudo, o materno é uma condição do crescimento e da inteligência.
Se a violência fosse a norma dentro das famílias, a espécie chegaria ao fim rapidamente. O homem nasce nu e sem linguagem. O corpo da mãe e a sua fala são ainda placenta, porque o filho do homem sem protecção não vive.
Compreende-se que o perigo tenha de ser sempre exterior a este sistema para a flor de estufa que somos se desenvolver conforme a sua natureza. O trauma obriga a uma defesa interior e à interrupção do processo de adaptação ao mundo. O cérebro infantil tem de se fazer estratega e a lei da sobrevivência é que possa viver primeiro com a mãe. Sem recurso à duplicidade e à astúcia, a criança tem que vencer sobretudo a aversão, porque o amor e a confiança são obrigatórios. Mas essa contradição é fatal para a inteligência e para o equilíbrio da personalidade. O mal amado conheceu um mundo hostil que não era o mundo. A ambivalência dos sentimentos que não se podia exprimir põe em causa a síntese da consciência e exprime-se no adulto por uma das formas da histeria.
A reapropriação do passado significa desarmar e julgar o íntimo como o estranho. Compreender o trauma é por isso recomeçar a adaptação ao mundo e libertar a função da memória dum dispositivo que a vampirizava. A cura nesse sentido é possível. Mas adivinha-se que em todos haja matéria para psicanalisar e que a ambivalência dos sentimentos seja a lei geral. Daí que o sujeito consciente e normal possa ver a teoria de Freud como um oráculo e a resposta para os problemas da vida. É de novo viver segundo a ideia do destino. A psicanálise fora dos casos clínicos e de alienação da personalidade é uma especulação sobre a história do indivíduo e a noção de inconsciente.
Não é possível mudar o passado, mas está ao nosso alcance pensá-lo doutro modo, e isso é já mudar o presente. Esta é a verdade mais tangível da psicanálise. Contudo, é cair numa outra alienação que é a do político. Fazendo acreditar o absoluto da situação familiar e o determinismo dos complexos inconscientes, o homem regressa de facto à protecção original. Não espanta por isso que a vontade seja aqui uma excrescência do sujeito que se debruça sobre si mesmo. Todos nós podemos refugiar-nos do mundo, abrindo o espaço imaginário do inconsciente. E é isso que se vê nos homens descrentes da verdadeira religião. É o sonho escrito e comentado que os guia, ou seja o mito individual. Por medida.

"A vida parecia-lhes demasiado curta para se poder desperdiçar uma hora a ler romances, excepção feita àqueles de hoje porque, persuadidos de que havia sempre uma "chave" para a sua leitura, era para eles um regalo poder encontrar quem os "iniciasse", alguém que estivesse dentro do segredo."
"Esquisse du Côté de Guermantes" (Marcel Proust)
A leitura dum romance continua a ser vista por muitos como pouco produtiva, e o "roman à clef" já não está na moda (a não ser que já traga a chave, como no caso de alguns best sellers).
Sem lhes poder proporcionar o prazer de deter uma "chave", os romances não têm também a informação útil que eles consideram necessária.
O raciocínio parece ser o de que se aprende mais com um livro técnico ou científico do que com uma história, inventada do princípio ao fim. E o tempo é de facto por de mais curto para não irmos direitos ao essencial. Esta é a ideia que está por detrás dos resumos de uma publicação como a "Reader's Digest". O leitor desta revista poupa-se ao trabalho de ler as 1300 páginas de "Guerra e Paz" e fica a conhecer a intriga, que é uma espécie de chave, mas perde o que faz do romance uma obra original.
Na verdade, o romance nunca vai direito ao assunto, nem nos dá, a maior parte das vezes, qualquer informação "útil". Em vez de fórmulas, expõe-nos, desenvolvidamente ou não, o problema humano no tempo.
E com isso amplia o espírito e forma a inteligência que aprende a pensar a complexidade, em vez duma simples opinião, e o homem todo, em vez do que é preciso saber para se estar "a par do que se passa".

Louis Antoine de Saint-Just (1767/1794)
"Saint-Just subiu lentamente à tribuna e, pronunciando sem paixão um discurso atroz, disse que não se devia julgar longamente o rei, mas simplesmente matá-lo. É preciso matá-lo, não existem mais leis para o julgar, ele próprio as destruiu.
É preciso matá-lo como inimigo; só um cidadão pode ser julgado; para julgar o tirano, seria preciso começar por fazer dele um cidadão.
É preciso matá-lo, como culpado, apanhado em flagrante delito, com a mão no sangue. A realeza é, aliás, um crime eterno; o rei está fora da natureza; do povo ao rei, não existe nenhuma relação."
O autor deste discurso tinha só 25 anos. Escrevera uns versos inspirados em Voltaire há pouco mais de um mês e estava agora, ali, no seu porte rígido, o pescoço "como que suprimido pela gravata, pelo colarinho rijo e alto", mais a sua retórica de romano antigo.
"A atrocidade do discurso produziu um grande êxito, devido ao espanto."
Michelet viu na desconfiança e na suspeição sistemáticas o vício próprio dos jacobinos.
Com Saint-Just, eles encontraram o grande depurador. Sem passado, sem defeitos, um verdadeiro anjo da Morte. Ainda por cima, uma espécie de andrógino. Se não fossem uns "olhos azuis fixos e duros", poderia passar por uma mulher.
Até ali a sorte de Luís XVI não estava ainda decidida; o rei estava quase esquecido na prisão do Templo.
Agora, a moderação, assustada, voou da assembleia e todos caíram sob o fascínio da lógica personificada, uma lógica sem subterfúgios.
Nenhuma ideia tem tanta força como aquela que incubamos, que já nos venceu interiormente, apesar de não ter sido ainda formulada.
O Catilina da Revolução deu-lhe a forma acabada, peremptória, que não encontrou resistência, mas o assombro e o medo.
E por isto se vê como a Razão das Luzes era ainda dogmática e não sabia julgar-se a si mesma.

"O sábio fechou o calhamaço da Bíblia e repô-la no seu canto. "Adiantou-me muito, diz ele. Tu não matarás: este artigo do Decálogo é excelente; está maravilhosamente comentado pelos massacres de infiéis que Deus não cessa de ordenar. Este livro é o maior sucesso de livraria que já se viu; e isso prova que os homens não são difíceis."
"Propos de Littérature" (Alain)
Mas Alain diz que a contradição é do próprio homem, porque os melhores, às vezes, têm de matar, e que Deus tomou sobre si essa contradição. Convida-nos, por isso, a encontrarmos melhor.
Não há dúvida sobre o sentido do mandamento, que não admite excepções.
O que quer dizer então o endosso a Deus das infracções inevitáveis? Não vai isto ao encontro da tese duma dualidade de pesos e de medidas e não é a confirmação da ambiguidade das parábolas?
No fundo, proíbe, como diz Alain, ao tórax (a cólera) e ao ventre (os apetites) de que falava Platão, para deixar a decisão ao juiz (a cabeça).

"Esta exterioridade do simbólico em relação ao homem é a própria noção do inconsciente. E Freud constantemente provou que fazia questão disso, como do princípio mesmo da sua experiência."
"Écrits" (Jacques Lacan)
O homem recebe a linguagem e nela afunda a sua alma e os seus instintos, "cujo fundo ressoa na profundeza apenas por repercutir o eco do significante."
Com o que é que se parece este eco em nós do que nos ultrapassa (o sistema simbólico, ou o mundo 3 de Karl Popper) e se oferece â interpretação, desde que haja um intérprete?
É interessante comparar isto com uma certa ideia da Física Quântica que pretende que um estado contraditório da matéria (igualmente isto e o seu contrário) só se actualiza e "decide", quando existe um observador.
A introdução da linguagem no corpo e a criação do inconsciente psicanalítico corresponderiam, assim, de certo modo, a um novo homem, apenas pela actualização duma virtualidade.

"Começou a parecer que a matéria, como o gato de Cheshire, está gradualmente a tornar-se diáfana, até nada ficar dela senão o sorriso."
Bertrand Russell
O esqueleto de Berkeley deve contorcer-se de riso no seu túmulo.
Um racionalista como Russell, nas palavras de Popper, talvez o maior filósofo do século XX, reconhece naquela citação que o subjectivismo está bem mais vivo do que o nosso bispo.
Porque, em princípio, todos sabemos o que é um gato, mas um sorriso de gato sem o dito?
Foi preciso um matemático como Dodson (Lewis Carroll) para conceber a realidade daquele sorriso.
Houve um momento, segundo Popper, com a teoria quântica e o probabilismo, em que a ciência perdeu de vista o realismo. A coisa funciona, mas nós não sabemos como. Até onde podemos ir nesse caminho?
Platão deve ter sentido uma perplexidade semelhante quando reflectiu sobre os números irracionais. Por causa deles, a geometria teve de emancipar-se da aritmética, porque não há maneira de considerar a diagonal do quadrado como um número "comensurável".
Com o "conhecimento estatístico", estaremos à beira duma outra arte ou ciência que pouco deverá já à Física?
Mas é claro que a explicação dos fenómenos, até agora objecto duma qualquer teoria física, não é explicação nenhuma se esses fenómenos forem integrados num outro contexto, ou analisados a uma outra escala. São soluções para a "distância média" de que falava Musil.
Por isso, a superação da Física ou a realidade da nossa ignorância estão já pressupostos nos êxitos alcançados.
A hipnose talvez seja o único portal de acesso ao tempo estranho e incompreensível como aquele que nos retrata "Europa" de Lars Von Trier.
O comboio como metáfora dum país a rodar vertiginosamente para o seu destino, sabotado pela culpa mais inexpiável que pode haver.
O revisor, na sua cómica passividade, é parente da personagem de "O Processo", e as formalidades do exame a que o submetem os inspectores no caos da própria carruagem evoca o pesadelo burocrático.
A sintaxe do sonho, poética até à distorção, dá ao filme uma extraordinária eficácia.
A mole humana que cerca o comboio e sufoca nos seus corredores, transportando consigo a maldição dos campos, lembra-nos constantemente que aqueles tempos depois do fim da guerra não são de reconstrução, mas de desespero e de ajuste de contas.
O revisor faz explodir o comboio, manobrado pelos "lobisomens" que durante o dia são possivelmente kantianos e de noite põem a Alemanha a ferro e fogo.
E morre afogado, sem se poder livrar desse sonho mau.
Como americano, e homem de boa vontade, não está ao seu alcance a técnica dos lobisomens.

"Lenz sabia que, se juntamente com os outros elementos do Partido, decidissem cortar a energia eléctrica, garantindo porém a segurança de cada indivíduo de maneira plena e contínua e não intercalada como agora, em pouco tempo os teríamos de novo - à populaça, dizia Lenz - a segurar em velas, orgulhosos por estas lhes permitirem assistir às paradas militares nocturnas, onde os homens que protegem os seus bens e os seus filhos desfilam.
Todos queriam segurança, mas ainda faltava sentirem-se mais ameaçados."
"Aprender a rezar na Era da Técnica" (Gonçalo Tavares)
Gonçalo Tavares, um dos autores mais originais dos novos tempos, parece longe do nosso quotidiano neste romance "germânico".
Haverá à nossa volta criaturas nietzscheanas como o seu Lenz Buchmann?
Não há, como não havia outro Julien Sorel, apesar do romance de Sthendal se inspirar num "fait divers".
Mas a lógica da personagem, desenvolvida ao longo de páginas que fervilham de ideias, não nos deixa dúvidas sobre o facto dessa maneira de pensar ter tudo a ver com cada um de nós.
A psicologia suspensa, é claro, para podermos ver a maldade, talvez, em nós. Virtual, num estado de indefinição como o gato de Schrödinger, mas real, "impossivelmente real". À espera do acontecimento.
Então os Lenz não terão de negociar o seu direito a encarnarem a natureza, violenta e, afinal, indómita, contra todas as ilusões da Técnica.

"Num sentido elevado e formal, a civilização não garante a civilidade, não inibe a violência social e o desperdício. (...) Na realidade, as relações entre a valorização apreciativa da música de qualidade, das belas-artes e da grande literatura, por um lado, e da acção política, pelo outro, são tão oblíquas que levam à suspeita de que a alta cultura, longe de pôr fim à barbárie, pode conferir-lhe um estímulo e um verniz muito particulares."
"Paixão intacta" (George Steiner)
Não seria, de facto, um gosto mais genuíno pela grande arte por parte dos coleccionadores nazis que os desviaria dos seus crimes.
O conceito de génio e de grande homem aplicado às artes permite ignorar as raízes da verdadeira cultura e justificar a megalomania do poder.
No caso de Adolfo Hitler, o pintor frustrado e o marginal dos asilos de Viena, esses símbolos da mais alta civilização são verdadeiros troféus de guerra.
Mas se a civilização não nos salva, e o pior pode sempre acontecer onde quer que seja, onde pôr as nossas esperanças?

"Um homem razoável nunca está em condições de dormir; encontrará sempre alguma pequena coisa que não está feita, alguma dificuldade não resolvida, alguma precaução que não foi tomada; só que ele recusa interessar-se mais tempo por essas coisas, o que é cessar de se interessar por si. Há grandeza de alma no sono, mas sem nada de tenso. Admira-se o herói, que dorme quando ele quer, e mesmo justamente quando as coisas quereriam impedi-lo de dormir."
"Propos de Littérature" (Alain)
Isto vem a propósito da aplicação. É que a inatenção é tão difícil como a atenção. E Alain cita Valéry: "O difícil não é fazer, mas desfazer."
A aplicação é o esforço, a atenção é a testa franzida. Pois bem, isso deixa uma marca no estilo. Como na esgrima, o pulso deve sentir-se solto. E mesmo no trabalho manual, aprende-se a "nem sempre fazer força."
O enigma do poeta compreende-se assim. Fazer, é segundo a primeira ideia, quase com violência, ou por tentativas, pesadamente, como um albatroz em terra. A graça é o segundo momento, o de desfazer.
Dizem-me que Mozart tinha a partitura acabada na cabeça antes de começar a escrever. Mas também não consigo imaginar um vinco naquele rosto.