domingo, 16 de novembro de 2014

DESCENTRAMENTO

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"Sente-se que o Sr. Marcel Proust tem diante dele todo o tempo que é preciso para amadurecer, combinar, conseguir uma obra considerável. Todo o tempo é dele: ele aproveita-o à sua maneira. Considera-o à partida como tempo perdido."

(Henri Ghéon, Gallimard)

Ghéon era crítico na Gallimard, e julgava assim, em 1914, o impacto do primeiro volume da "Recherche" ( 'Du côté de chez Swann'). Mais tarde, a editora mudaria de opinião.

Com Proust, o tempo unilear que 'enquadra' a narração e lhe confere o carácter de uma história, com princípio, meio e fim, é apenas uma das maneiras de contar, e é pura exterioridade. Ghéon vê na igual importância que têm, no romance, os dramas da realidade e as impressões do autor, ou o 'preciosismo' das suas análises servido pela frase serpentina e por uma hipersensibilidade 'moderna' um factor que desqualifica a construção proustiana, que aos seus olhos não é decididamente um romance (isto é um objecto reconhecível, dentro de uma certa tradição literária), mas qualquer coisa como uma soma de fragmentos que podiam ser numerados quase aleatoriamente como os 'Ensaios' de Montaigne.

A ironia sobre o tempo perdido é reveladora da incompreensão do crítico da Gallimard. Porque se tudo 'flutua', entrechocando, como se o acaso, em vez da gravidade, regesse estes 'corpos terrestres' não é Isso o sinal do novo papel do sujeito no mundo descentrado que é o da modernidade?

 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

A SOLIDÃO

www.imagiverse.org


Ontem, conversava com alguns amigos sobre a solidão.

Parece que os homens, além de viverem, em média, menos tempo do que as mulheres, são também mais dados ao suicídio.

Claro que nem sempre é a solidão que está por detrás da decisão de pôr termo à vida.

E é por isso que não há contradição em a mulher, que é o sexo afectivo, mais devendo sentir a falta de companhia, mesmo assim resistir melhor do que o sexo activo.

Talvez o homem sinta mais a impotência e a falta de actividade do que propriamente a solidão.

Como isso é, geralmente, o resultado do envelhecimento, eis por que, no fim de contas, se revela o mais fraco dos sexos.

Se quereis prolongar a vida duma mulher, dai-lhe a quem se dedicar; se se trata de um homem, dai-lhe que fazer.

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sem título

 

Bonfim

 

O HOMEM PROJECTADO

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" Padrão quádruplo: as pessoas dão mais valor às perdas e aos ganhos do que à riqueza e os pesos da decisão que atribuem aos resultados são diferentes da probabilidade."
(Daniel Kahneman)

Pode o 'homo economicus' corresponder às previsões baseadas em comportamentos racionais? A 'teoria dos jogos' tinha de falhar, apesar das mais brilhantes simulações. Não obstante o homem ter de ficar de fora dessa equação, a teoria continua a atrair pela sua lógica e a instruir modelos operacionais.

Talvez o progresso das ciências, a relativa autonomia do seu desenvolvimento, nos tenham tornado realmente supersticiosos, e a única desculpa que temos é a de que alguma competência pensou por nós.

Se a teoria económica cria o seu próprio mundo, o qual, como sabemos, está feito para resistir à realidade, mundo onde só têm lugar homens fictícios, os 'homens projectados', não é uma crise, pequena ou grande, que a despachará para o museu de Engels.

Podemos hoje ver que os dois mundos que existiam até à queda do Muro de Berlim, tinham em comum a falsidade das suas representações. O mundo unipolar que resultou daquele acontecimento significou o 'estádio do espelho' de um sistema chamado por Lenine de imperialismo (o estádio supremo do capitalismo).

Levantou-se (como levanta o nevoeiro) toda a crítica do capitalismo e o que surgiu, não só tinha perdido a crítica, como a sua própria essência.

É nesse desocultamento e nessa fantasmagoria que estamos.

 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Sem título

(José Ames)

 

ILUSŌES

 

"(...) os versos adoecem
em certos ambientes, ganham artrite em sítios
imprevisíveis, ficam primeiro apenas frases,
depois discursos, acabam em decretos-lei."

(Gonçalo M.Tavares)


O tempo muda o lugar e o lugar muda o tempo...

Os "sete dias que abalaram o mundo" não levaram ninguém à 'terra prometida', mas a frase só diz que abalaram. O mundo acordou na sua versão histórica, feita de frases e de decretos-lei que extenuaram o líder. O tempo parecia acelerado, mas arrastava os pés, preso à grilheta de sempre.

No filme de Eisenstein, a barba ponteaguda de Ivan parece uma montanha no écrã que o povo em colunas tem de escalar ao som de um coro milenar. A voz do baixo é o ritmo da massa, progredindo sempre rente ao chão.

Não é apenas a natureza que 'regressa a galope' quando a esquecemos. Ou a poesia que se solidifica em prosa e se degrada em hábito logo que não a merecemos. Porque é esse o destino 'feliz' dos nossos sonhos, efémeros como nós próprios.

Ilusões perdidas? De que outro modo as conheceríamos?

 

 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sem título

 

Lisboa

 

REESCRITA

Agustina Bessa-Luís

 

"- Não, não posso acreditar. Mas, por outro lado, li em qualquer parte que escolhemos uma época para recordar que não tem nada que ver, necessariamente, com as nossas próprias recordações. Acontece muitas vezes rejeitarmos as próprias recordações. A realidade não nos prende à vida. Tu que dizes?"

"Ordens Menores" (Agustina Bessa-Luís)

 

Freud passou por aqui e a interpretação dos sonhos, a 'reescrita' do passado segundo o interesse vital. Este passado é de ordem poética. Os historiadores exploram os 'factos' segundo os grandes sistemas de sentido. Michelet ou Oliveira Martins romanceavam na tentativa de trazer esses factos à vida.

Para que tenderão o registo dos acontecimentos 'significativos' e a hermenêutica do historiador sem a poesia individual ou colectiva?

Uma resposta pode ser a de Lula, a personagem de Agustina. Para a interpretação do passado que 'nos prenda à vida'. O que numa primeira abordagem talvez sejam, simplesmente, os 'interesses'...

Porque, em última análise, não há história 'objectiva' (temos sempre de perguntar 'para quem' se erige esse passado).

 

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sem título

(José Ames)

 

QUAL FOI O ERRO DE DESCARTES?

Bento Espinosa (1632/1677)

Sempre me pareceu duma grande injustiça o título da obra mais famosa de António Damâsio ("O erro de Descartes").

Agora, com "Ao encontro de Spinosa", parece que autor vem emendar a mão e reconciliar-se de algum modo com a grande filosofia, na figura dum dos autores mais influenciados pelo "Discurso do Método.

A verdade é que as "Paixões da Alma", do mesmo Descartes, não apresentam, hoje ainda, uma única ruga.

O famoso dualismo cartesiano (a que Damâsio contrapõe o monismo de Spinosa) tem sido motivo de não pequenos extravios.

Na sexta Meditação, Descartes reconhece que "não me encontro simplesmente alojado no meu corpo, tal como estaria o piloto no seu navio, mas, para além disso, estou-lhe tão estreitamente ligado e de tal modo misturado e com ele tão confundido, que constituímos como que um único todo.

É claro que o não menos famoso problema da união corpo-alma ou mente-corpo (na expressão de AD) não foi resolvido pelo que parece agora uma fantasiosa localização na glândula pineal, nem por qualquer outra explicação até hoje. Seria preciso que o espírito pudesse ser o seu próprio objecto.

A glândula pineal é assim como que um símbolo na direcção certa. Uma direcção que se revelou de uma extraordinária fecundidade científica. Porque era essencial postular que o corpo, tendo várias partes, só podia comunicar com a alma, que era simples, através dum único ponto ( a glândula foi escolhida porquanto era o único elemento do cérebro não simétrico ).

A questão levantada por AD é que nós pensamos com as nossas emoções e os nossos sentimentos, enquanto Descartes diz, no Art.4º das "Paixões da Alma": "Assim, pela razão de não podermos conceber de modo nenhum que o corpo pense, estamos justificados em acreditar que toda a espécie de pensamento em nós existente pertence à alma.

Mas é o mesmo homem que diz que as paixões, que não podemos separar do nosso pensamento, são "todo o género de percepções ou conhecimentos que se encontram em nós, porque muitas vezes não é a nossa alma que os faz tal como eles são e que ela os recebe das coisas que são por eles representadas." Logo, incluindo as que nos representam o nosso próprio corpo. É o que Damâsio chama de mapeamento de todo o corpo necessário à actividade de coordenação do cérebro. Está aqui também presente a génese das ideias que Spinosa iria mais tarde desenvolver.

Ora o reconhecimento de que sem corpo não há pensamento e de que todo o pensamento é influenciado pelas "paixões da alma" não é o mesmo que dizer que sejam uma única substância, fazendo assim da alma como que uma secreção corporal mais subtil (os "espíritos animais"?).

Falta a qualquer avaliação da alma ou da mente a consideração do que se pode chamar de espírito objectivo (ou mundo 3, de K. Popper). A língua e os monumentos do espírito não podem ser deixados de fora da equação.

Tudo, como é evidente, se pode reduzir a uma única substância, se for suficientemente profunda. Mas a matéria ou o objecto da neurofisiologia não o são.

O indivíduo e a sociedade não se compreendem um sem o outro. E não me repugna conceber no corpo uma espécie de "interface" natural.

domingo, 9 de novembro de 2014

(Porto)

PENSAR COM A MARMITA NO CHÃO

René Descartes (1596/1650)

Descartes, quando voltou a França, depois de deixar a Holanda, descreveu assim a situação provocada pela Fronda:

"Encontrei a cozinha em desordem e a marmita de pernas para o ar."

Embora já tivesse feito cinquenta nos, nunca passou pela cabeça deste aristocrata do espírito empenhar-se por uma solução política, tomar partido por uma das facções, de molde a contribuir para uma nova ordem, qualquer que ela fosse.

Não, os termos em que se refere à política parecem ajustar-se perfeitamente à tradição dos filósofos da Antiga Grécia que, como observou Hannah Arendt, remetia a política para o espaço de não-liberdade, da economia doméstica.

O caos no departamento alimentar não era propício à acção de um homem livre.

No entanto, Descartes era um espírito extremamente decidido, quase militar, rápido a desembainhar a espada, como se vê no seu estilo. Por exemplo, neste trecho das "Paixões da Alma":

"(...) todavia o que os Antigos ensinaram sobre isso (as paixões) é tão pouca coisa, e na maior parte tão pouco crível, que só posso ter alguma esperança de me aproximar da verdade se me afastar do caminho que eles seguiram. É por isso que sou obrigado a escrever aqui como se se tratasse duma matéria que pessoa alguma tivesse abordado antes de mim."

É a celebrada tábua rasa cartesiana.

sábado, 8 de novembro de 2014

(José Ames)

O HOMEOSTATO



"(...) as sociedades avançadas cultivam os sentimentos da forma mais despudorada e manipulam os sentimentos com álcool ou drogas ilícitas, medicamentos, boa e má cozinha, sexo real e virtual, toda a espécie de consumos e práticas sociais e religiosas cuja única finalidade é o bem-estar."

"Ao Encontro de Espinosa" (António Damásio)


A ideia de um mecanismo homeostático a actuar no indivíduo e na sociedade, com o fim de manter o bem-estar e que traduziria o "conatus" de Spinosa, o esforço, em todo o indivíduo, de perseverar no seu ser, leva-nos a outra ideia desse filósofo que explica a morte como uma causa sempre exterior.

Num ser em permanente troca com o exterior e dele tão dependente, quer ao nível psico-fisiológico, quer ao nível social, torna-se difícil identificar o dentro e o fora e igualmente difícil evitar uma explicação que não recorra a uma "harmonia" superior, que só tem equivalência na ideia muito antiga de destino.