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www.imagiverse.org
Ontem, conversava com alguns amigos sobre a solidão.
Parece que os homens, além de viverem, em média, menos tempo do que as mulheres, são também mais dados ao suicídio.
Claro que nem sempre é a solidão que está por detrás da decisão de pôr termo à vida.
E é por isso que não há contradição em a mulher, que é o sexo afectivo, mais devendo sentir a falta de companhia, mesmo assim resistir melhor do que o sexo activo.
Talvez o homem sinta mais a impotência e a falta de actividade do que propriamente a solidão.
Como isso é, geralmente, o resultado do envelhecimento, eis por que, no fim de contas, se revela o mais fraco dos sexos.
Se quereis prolongar a vida duma mulher, dai-lhe a quem se dedicar; se se trata de um homem, dai-lhe que fazer.
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"(...) os versos adoecem
(Gonçalo M.Tavares)
O tempo muda o lugar e o lugar muda o tempo...
Os "sete dias que abalaram o mundo" não levaram ninguém à 'terra prometida', mas a frase só diz que abalaram. O mundo acordou na sua versão histórica, feita de frases e de decretos-lei que extenuaram o líder. O tempo parecia acelerado, mas arrastava os pés, preso à grilheta de sempre.
No filme de Eisenstein, a barba ponteaguda de Ivan parece uma montanha no écrã que o povo em colunas tem de escalar ao som de um coro milenar. A voz do baixo é o ritmo da massa, progredindo sempre rente ao chão.
Não é apenas a natureza que 'regressa a galope' quando a esquecemos. Ou a poesia que se solidifica em prosa e se degrada em hábito logo que não a merecemos. Porque é esse o destino 'feliz' dos nossos sonhos, efémeros como nós próprios.
Ilusões perdidas? De que outro modo as conheceríamos?
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| Agustina Bessa-Luís |
"- Não, não posso acreditar. Mas, por outro lado, li em qualquer parte que escolhemos uma época para recordar que não tem nada que ver, necessariamente, com as nossas próprias recordações. Acontece muitas vezes rejeitarmos as próprias recordações. A realidade não nos prende à vida. Tu que dizes?"
"Ordens Menores" (Agustina Bessa-Luís)
Freud passou por aqui e a interpretação dos sonhos, a 'reescrita' do passado segundo o interesse vital. Este passado é de ordem poética. Os historiadores exploram os 'factos' segundo os grandes sistemas de sentido. Michelet ou Oliveira Martins romanceavam na tentativa de trazer esses factos à vida.
Para que tenderão o registo dos acontecimentos 'significativos' e a hermenêutica do historiador sem a poesia individual ou colectiva?
Uma resposta pode ser a de Lula, a personagem de Agustina. Para a interpretação do passado que 'nos prenda à vida'. O que numa primeira abordagem talvez sejam, simplesmente, os 'interesses'...
Porque, em última análise, não há história 'objectiva' (temos sempre de perguntar 'para quem' se erige esse passado).
Bento Espinosa (1632/1677)
Sempre me pareceu duma grande injustiça o título da obra mais famosa de António Damâsio ("O erro de Descartes").
Agora, com "Ao encontro de Spinosa", parece que autor vem emendar a mão e reconciliar-se de algum modo com a grande filosofia, na figura dum dos autores mais influenciados pelo "Discurso do Método.
A verdade é que as "Paixões da Alma", do mesmo Descartes, não apresentam, hoje ainda, uma única ruga.
O famoso dualismo cartesiano (a que Damâsio contrapõe o monismo de Spinosa) tem sido motivo de não pequenos extravios.
Na sexta Meditação, Descartes reconhece que "não me encontro simplesmente alojado no meu corpo, tal como estaria o piloto no seu navio, mas, para além disso, estou-lhe tão estreitamente ligado e de tal modo misturado e com ele tão confundido, que constituímos como que um único todo.
É claro que o não menos famoso problema da união corpo-alma ou mente-corpo (na expressão de AD) não foi resolvido pelo que parece agora uma fantasiosa localização na glândula pineal, nem por qualquer outra explicação até hoje. Seria preciso que o espírito pudesse ser o seu próprio objecto.
A glândula pineal é assim como que um símbolo na direcção certa. Uma direcção que se revelou de uma extraordinária fecundidade científica. Porque era essencial postular que o corpo, tendo várias partes, só podia comunicar com a alma, que era simples, através dum único ponto ( a glândula foi escolhida porquanto era o único elemento do cérebro não simétrico ).
A questão levantada por AD é que nós pensamos com as nossas emoções e os nossos sentimentos, enquanto Descartes diz, no Art.4º das "Paixões da Alma": "Assim, pela razão de não podermos conceber de modo nenhum que o corpo pense, estamos justificados em acreditar que toda a espécie de pensamento em nós existente pertence à alma.
Mas é o mesmo homem que diz que as paixões, que não podemos separar do nosso pensamento, são "todo o género de percepções ou conhecimentos que se encontram em nós, porque muitas vezes não é a nossa alma que os faz tal como eles são e que ela os recebe das coisas que são por eles representadas." Logo, incluindo as que nos representam o nosso próprio corpo. É o que Damâsio chama de mapeamento de todo o corpo necessário à actividade de coordenação do cérebro. Está aqui também presente a génese das ideias que Spinosa iria mais tarde desenvolver.
Ora o reconhecimento de que sem corpo não há pensamento e de que todo o pensamento é influenciado pelas "paixões da alma" não é o mesmo que dizer que sejam uma única substância, fazendo assim da alma como que uma secreção corporal mais subtil (os "espíritos animais"?).
Falta a qualquer avaliação da alma ou da mente a consideração do que se pode chamar de espírito objectivo (ou mundo 3, de K. Popper). A língua e os monumentos do espírito não podem ser deixados de fora da equação.
Tudo, como é evidente, se pode reduzir a uma única substância, se for suficientemente profunda. Mas a matéria ou o objecto da neurofisiologia não o são.
O indivíduo e a sociedade não se compreendem um sem o outro. E não me repugna conceber no corpo uma espécie de "interface" natural.