quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A SALVAÇÃO DE SÓCRATES

"La mort de Socrates" (Jacques-Louis David)

"Ora, no próprio momento da sua morte como inocente, Sócrates escolhe a demonstração da sua piedade conscienciosa. Insta Críton a que sacrifique a um novo culto, a uma divindade que deve ter entrado recentemente na religião da cidade. O galo para Asclépio assinala a atenção escrupulosa de Sócrates ao ritual, mesmo quando, ou especialmente quando, o seu contexto é novo e, talvez descurado. "Não te esqueças". As ironias podem ser suaves e profundas. São semelhantes à especulação de Pascal sobre a transcendência: mesmo o mais livre e sábio dos espíritos mortais procura dar um pouco mais de segurança à sua peregrinação. Quem sabe? Pode ser que Asclépio facilite a passagem."
"Paixão intacta" (George Steiner)

Ou talvez seja levar às últimas consequências a pedagogia socrática. Se escolheu morrer segundo as formas, acatando a lei, mesmo se a sentença foi injusta, a piedade é aqui, não um acto privado - do homem perante Deus, conforme o modelo do cristianismo -, mas religioso, porque público.

Parece-me que a hipótese pascaliana é uma retroprojecção abusiva.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

(José Ames)

O ANÃO




"That  time  is  no  healer:  the  patient  is  no  longer  here."  

T.S.Eliot, "Four Quartets"

Em nome de uma urgência que vem dos sinais do tempo, talvez não devêssemos falar do tempo que cura. Porque essa cura é mais devedora do esquecimento e da mudança das circunstâncias do que de outra coisa.

Parece que o tirano cavalga uma vaga de fundo, mas ele é só espuma, nem sequer uma 'singularidade' americana. A verdade é que, como dizia Mainard Keynes, "a longo prazo, estaremos todos mortos". O que não é cura de facto.

O anão gesticula prodigiosamente no palco montado para ele. Já  comparam a sua vociferação a outro 'génio do mal' que o ridículo  não matou, por mais que Chaplin tentasse no no "Grande Ditador".

A estupidez, porque é disso que se trata, é uma coisa muito séria e, ultrapassa muitas vezes a compreensão. Significa que não há homem dentro da casca, mesmo quando ela é dourada. A estupidez é uma força, mas uma força empurrada.

O 'paciente' dos 'Quartets' somos nós, as vítimas da 'vaga de fundo'. E é o anão encarquilhado que se deixou endemoninhar pelo filtro 'afrodisíaco'. Não é isso que se diz do poder?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

(José Ames)

PILATOS


"Crê-se  facilmente  que  o  homem  se  libertou  de  si  próprio  desde  que  descobriu que  não  se  encontra,  nem  no  centro  da  criação,  nem  no  meio  do  espaço,  nem talvez  no  cume  ou  no  fim  da  vida.  Mas  se  o  homem  já  não  está  como  soberano  no mundo,  se  já  não  reina  no  centro  do  ser,  as  ciências  humanas  são  intermediárias perigosas." 
(Michel Foucault)

Qual é o sentido deste perigo na 'intermediação' das ciências humanas? Obviamente, o de nos iludirmos quanto ao seu valor de verdade. Haveria, pois, uma 'lucidez' já conquistada pelo homem, uma 'terra firme' donde poderíamos lançar todas as expedições do pensamento.

Isto é, afinal, muito cartesiano.  Também o filósofo do moderno 'cogito' estabeleceu 'de uma vez por todas', junto à sua lareira e abstraído do mundo exterior, focado apenas, tanto quanto supunha, no seu pedacinho de cera, o que era evidente para o seu espírito. Podia dizer-se que, a partir desta radical abstracção, era legítimo derivar todo o mundo racional (bem como, certamente, o mundo privado da razão).
Está aí o princípio de todo o nosso desenvolvimento científico. Na condição de se 'recalcar' esta  evidência assente na 'vontade de saber', como diz Foucault, o perigo de nos iludirmos com as 'ciências humanas' seria apenas o de nos afundarmos num mesmo antropocentrismo doravante 'descentrado', que não se assume como 'dissecação' da realidade.

Nos tempos que correm, em que a verdade parece multiplicar-se em sub-espécies dissidentes, num relativismo absoluto, dir-se-ia que todos sentimos a necessidade de um novo mito congregador. O mito é, afinal, o nosso 'líquido amniótico'. Vivemos banhados em mitos de todo o género, com pretensões à verdade e que contribuem para reduzir a verdade a uma substituição de máscaras.

E, por fim, parecemos condenados a repetir a pergunta de Pilatos: 'o que é a verdade?' Pilatos era um homem sem fé, diz-se por tradição. Mas era tão crente em Roma, como os outros romanos. Roma estava perdida na sua decadência. Como poderia ele, um homem do poder, acreditar numa nova fé?

domingo, 5 de fevereiro de 2017

(Covilhã)

O CARTOON AMERICANO


(Kubrick's Dr. Strange love)


"Mas o problema, desculpem lá!, não se chama Donald Trump, chama-se Estados Unidos da América. A América não é vítima de Trump, ele não é um epifenómeno que, “coitados !”, os americanos sofrem. Trump foi eleito pelos americanos, ele representa a América e é à América política – ao Congresso, aos Estados, aos nossos interlocutores institucionais, a cada diplomata americano que encontremos pelas esquinas da vida internacional – que devemos pedir responsabilidades por aquilo que Washington faz enquanto este Presidente lá estiver."

(Francisco Seixas da Costa, no 'Público' de 3/2/2017)

Este argumento parece ganhar força com o persistente apoio das sondagens ao cumprimento dos 'slogans' do candidato. Já sabemos que não é a maioria, mas que essa persistência é impressionante, é. Porque a situação mundial parece degradar-se mais a cada promessa cumprida. Note-se ainda a novidade de um 'pagador de promessas' (qualquer que seja a sua agenda secreta ou a sua ingenuidade) que arrosta com as instituições mais consagradas pela história do país e a cultura mais influente deste hemisfério para mostrar a sua independência da 'política' e de todas as pressões do 'establishment' para cumprí-las 'à letra', assim gravando (seguramente em caracteres dourados) a versão do seu mito pessoal.

Esta 'novidade' demonstra que estamos a sair, flagrantemente, do espaço público para outro tipo de ordenação. Nas pisadas de Hanna Arendt talvez se lhe pudesse chamar de espaço doméstico aberrante, uma ressurreição paródica do 'pater familias' que gere o seu latifúndio e os seus escravos  com a competência auto-proclamada com que o novo presidente geriu o seu 'império' do imobiliário e os seus negócios dentro e fora, nas 'províncias'.

Ora, se quase metade do país suporta a monomania desta personagem é porque a América mudou de forma drástica. O processo eleitoral americano é justificadamente lento. Essa lentidão, porém, já não assegura coisa nenhuma, visto que o 'golpe de estado' demagógico passou todos os filtros e todas as barreiras.

O mundo tomou consciência, em estado de choque, que existem afinal duas Américas, e que chegou, talvez, ao fim a era de uma exemplar pluralidade. Não foram só as 'desigualdades' que dividiram a nação. A velocidade a que se sucede a mudança na América 'digital' (chamemos-lhe assim para facilitar) deixou na margem do subdesenvolvimento uma grande parte do país. Os novos milionários, todos incrivelmente ricos e poderosos, contrastam de forma violenta com populações que vivem ao nível relativo de uma tribo amazónica e, de alguma maneira arriscam igual estatuto  museológico.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

(José Ames)

A PERFEIÇÃO DA MIOPIA



"Todo o aumento de clareza tem em si mesmo um valor intelectual; um aumento de precisão ou exactidão só tem um valor pragmático como um meio para um fim definido, onde o fim é usualmente um aumento da testabilidade ou criticabilidade exigido pela situação do problema."

"Unended Quest" (Karl Popper)

Popper parte do princípio que a exactidão e a precisão são inatingíveis e, que se resolvermos os problemas com menor "focagem", fazemos tudo o que é necessário. O esforço para uma precisão ou exactidão "desnecessárias" cairia no domínio do estético, ou da perda de tempo.

A redução do espírito científico a uma problemática vai contra a tradição metafísica de que a ciência é herdeira. E a poesia, no princípio de tudo, certamente não tratava de problemas, mas da humanização de toda a experiência, como se todas as respostas estivessem patentes na frase de Tales de Mileto que dizia que tudo está cheio de deuses.

E, pegando no axioma de Popper, quais são os problemas duma pequena miopia? Pode-se ter uma vida normal, cheia de sucessos, e sem óculos. Podíamos dizer, neste caso, que a correcção da visão seria apenas pelo prazer de ver com maior nitidez.

Também o luxo da exactidão pode ser um prazer, talvez perverso, e que, além disso, porventura, contribui para a antecipação de outras problemáticas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

(Varsóvia

RAZÃO DE ESTADO

Luís XVI

"A educação jesuíta que ele recebera e a licença para mentir que os padres lhe davam não é talvez suficiente para explicar bem isto. Mesmo na sua dependência ele conhecia-os, nem sempre os estimava e não lhes teria obedecido se não tivesse achado as suas opiniões conformes com o que lhe permitia a sua consciência de rei."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Michelet diz que o fundo dessa consciência era "o princípio de salvação pública ou da razão de Estado". Richelieu, Mazarin e Luís XIV desenvolveram essa doutrina. Por ela se mentia e assassinava, de consciência tranquila.

O historiador faz assim justiça a um homem (Luís XVI) que, embora fraco de carácter, não era um imbecil manobrado pela sotaina.

E basta pensar nas grandes chacinas do século XX para ver como a razão é a principal inimiga de si própria.

A humanidade, como qualidade moral, talvez esteja toda no movimento do juízo que "supera e conserva", que não se detém no erro, mas se serve dele como "motor de arranque".

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

(José Ames)

RECÔNDITA DESARMONIA









A história dos dois apóstatas de Nagazaki, baseada no romance de Shūsaku Endō, é o tema do filme "O Silêncio" realizado por Martin Scorcese. Dois padres jesuítas portugueses, Ferreira (Liam Neeson) e Rodrigues (Andrew Garfield), depois de verem os seus convertidos submetidos a cruéis torturas pelos homens do samurai Inoue (Issei Ogata) acabam por 'render-se', renegando todos os sinais exteriores da sua religião. Essa  perseguição é levada a cabo com uma pertinácia infatigável, de acordo com uma doutrina minuciosa e implacável, exemplarmente explicada aos futuros apóstatas. A ideia é que o Cristianismo não pode ser 'transplantado' para um país como o Japão.


É preciso não esquecer que este é o 'império dos signos' de que falava Roland Barthes. O gesto de pisar uma imagem cristã nunca poderia ser uma formalidade, nem um gesto  'exterior' em relação à verdade. O 'todo' é visível e superficial; a profundidade não tem significado porque não é caligrafável. A tal ponto que o rústico crucifixo, feito por um dos camponeses martirizados, que aparece na concha das mãos do 'último padre' falecido e entregue aos rituais budistas, podia ter sido ali mandado colocar pelo próprio poder, no espírito da 'lição magistral' do inquisidor. A 'alma' não é assunto de estado, desde que não extravase da sua 'interioridade', desde que permaneça invisível. O inquisidor poderia até 'compreender' a sua vítima, ou a vítima do ser Japão, como ele gostava de dizer. E o símbolo secreto, talvez, uma 'recompensa' a título póstumo, pela perfeição do  'low profile' exteriormente nipónico, do renegado.

Como sempre se viu ao longo dos tempos a 'reserva mental', que viria a ser um dos labéus mais frequentemente atribuídos ao espírito da Companhia, não tem que ser uma traição ou 'apenas' uma arma de sobrevivência (basta lembrar o exemplo de Pedro, no Evangelho).

Tal como em Dostoiewsky, há nesta história um Inquisidor. A razão que o coração desconhece. E a mesma 'liberdade' que desgraça Ivan Karamazov.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

(Leça da Palmeira)

REALITY SHOW



"(...) Os Romanos acreditavam profundamente no poder dos mortos de influenciar os vivos, assim, mantinham relações com os antepassados falecidos através de vários rituais e festivais públicos. Entre os mais importantes destes festivais públicos estavam as 'Parentalia', todos celebrados em Fevereiro e os 'Lemuria', realizados cada ano em Maio. Durante as 'Parentalia', as famílias visitavam os túmulos dos seus antepassados e faziam oferendas de comida e vinho. Quanto aos 'Lemuria', o 'pater familias' seguia certos rituais para manter a casa e a família segura em relação ao espírito dos antecessores mortos."

"Ancient Greece and Rome" (Carrol Mouton)

Vê-se como toda a série de filmes sobre os 'zombies' explora um riquíssimo filão. E tão íntimo, perdido nos aluviões do tempo e da nossa evolução,  mais escondido não podia ser.

Claro que o 'medo', ou a superstição, que experimentavam os antigos pelo regresso da alma dos mortos não significava que estes não fossem, ou não tivessem sido amados, antes pelo contrário.

A crença na separação da alma e do corpo corria bem, desde que os dois 'mundos' permanecessem distintos  depois da morte. Em tempos mais próximos de nós, a 'visita virtual' de um familiar querido já não inspirava o mesmo terror e podia ser confortante e inspiradora. No tempo de H.G. Wells, um curioso desse fenómeno, a convocação dos mortos através dum 'medium' transado (sincera ou fingidamente) tinha-se até tornado um jogo de sociedade. O lúdico é o último estádio das nossas superstições.

O terror ancestral explica-se pela incipiência do mundo 'construído' (em tijolos e cimento e em dogmas e ideologias, apelando umas vezes à religião, e, mais tarde, também à ciência). O ambiente menos propício à segurança e à 'economia', desde a troca primitiva ao capitalismo em degenerescência dos dias de hoje, ou o mesmo, mas com esqueleto burocrático 'new look', que cresce sobre o precipício, é a confusão dos dois mundos. Uma maneira de dizer que a economia mundial e a sua representação já estão na sua fase zombie.

Então, talvez devêssemos esconjurar esses fantasmas, como faziam os Gregos e os Romanos, através de festivais e cerimónias públicas a condizer.

O actual presidente dos USA parece ter-se adiantado. Apresenta-se como um verdadeiro empresário no seu  'Reality Show' de esconjuro de todo o passado e de toda a tradição. Enfim, talvez tenha começado agora o enterro definito dos nossos mortos, grandes ou pequenos.