terça-feira, 8 de março de 2016

OS DIVISORES




"A maneira mais simples de ganhar os eleitores era ainda a de lhes distribuir dinheiro no próprio dia de voto; para isso, os candidatos dirigiam-se a profissionais, os 'divisores' (...)"
(Paul Veyne)

Para Cícero, por exemplo, a igualdade seria injusta "por não comportar diferenças de dignidade" (idem). Alguns podiam, pois, alegar que a corrupção dos eleitores fazia parte da legítima preocupação dos candidatos e dos seus apoiantes em preservar um mínimo de 'dignidade' nos resultados da eleição...

Mas os Romanos não foram conhecidos pelo seu espírito, nem pela sua subtileza. Foi, pelo contrário, na adoração da força e do prestígio do nome romano, que melhor souberam exercer as suas mais distintivas virtudes. E nisso foram realmente os percursores das modernas ditaduras de Estado, como bem viu Simone Weil.

A venialidade do voto entre os romanos bem pode ter sido uma das causas determinantes do fim da república e das virtudes estóicas das primeiras famílias patrícias. Certamente que o povo não podia acreditar em eleições compradas. O passo seguinte foi marcado pela nomeação cavalar de Calígula que colocou a dignidade dos cidadãos ao seu verdadeiro nível.

Mas por muito tentadora que seja a comparação de certos aspectos mais caricatos das primárias nos EUA com a dignidade tal como a concebiam os romanos, não podemos ignorar que a história da democracia americana foi a de um ser natural, na emulação e no confronto com a história europeia, enquanto que em Roma, a democracia foi mais uma estética política herdada da sua mais célebre colónia.



segunda-feira, 7 de março de 2016

(Pedra da Ursa)

A PRÉ-HISTÓRIA DE JÚLIA




Revi "Julia" (1977), de Fred Zinnermann.

Nunca Jane Fonda foi tão bela, nem a guerra um melhor cenário da amizade.

No meio dessa história surge um mexerico que lança uma suspeita torpe sobre a ligação dessas mulheres.

E poderíamos imaginar que hoje teríamos aqui os ingredientes para um "Brokeback Mountain" feminino. Não é razão para duvidarmos do testemunho de Lillian Helman.

Mas a verdade é que se pôs a funcionar nas nossas cabeças um delírio de interpretação (que passou a ser o senso comum), que vai para além dos factos e sempre no mesmo sentido.

É um desses dispositivos analisados por Foucault que, ao invés de nos proibir a palavra, nos obrigam a falar.

domingo, 6 de março de 2016

(José Ames)

A BELEZA DA ESTUPIDEZ

Gilles Deleuze (1925/1995)


"Os professores sabem muito bem que é raro encontrar erros ou alguma coisa de falso nos "deveres" (salvo nos exercícios em que é preciso traduzir proposição por proposição ou então produzir um resultado fixo). O que se encontra são não-sensos, observações sem interesse e sem importância, banalidades tomadas como dizeres relevantes, confusão de "pontos" ordinários com pontos singulares e problemas mal formulados ou desviados do seu sentido: é este o pior e o mais frequente, todavia cheio de ameaças, destino de todos nós."
"Diferença e Repetição" (Gilles Deleuze)

Deleuze pergunta como é possível a estupidez, que é, digo eu, o juízo que mais facilmente fazemos sobre nós e os outros, como se do fundo de nós mesmos, daquilo que essencialmente desconhecemos, não tivessem que emergir, de quando em vez, sintomas de que o pensamento não está separado, ou, se preferirem, que não sejamos confrontados com o problema cartesiano da ligação do corpo e da alma.

Tal como a loucura encontra um sentido quando incluímos o corpo na equação, também o que chamamos de estupidez talvez fosse melhor definido como um excesso de... originalidade.

sábado, 5 de março de 2016

Portalegre

A PROFECIA HISTÓRICA




No "Trono de sangue"(1957), de Akira Kurosawa, inspirado no "Macbeth" de William Shakespeare, a profecia, feita ao princípio do filme aos dois samurais, só precisou de ser confirmada na sua parte mais previsível (as novas dignidades conferidas pelo soberano como recompensa dos feitos militares) para se tornar num verdadeiro motor da tragédia.

Foi fácil a Isuzu Yamada, a Lady Macbeth japonesa, transformar uma ambição secreta num motivo de legítima defesa. O seu rosto branco é o imóvel contraponto da agitação dum marido fraco de espírito. Só enquanto a profecia se mantivesse longe dos ouvidos do soberano, a vida dele estaria a salvo. Mas poder-se-ia contar com a discrição do seu melhor amigo, quando era o poder supremo que estava em causa?

Assim, no teatro, as palavras são portadoras de destino e, como dizia Alain, uma vez pronunciadas, dão lugar ao irremediável.

sexta-feira, 4 de março de 2016

(José Ames)

A VIÚVA



(São Lucas)

"Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus nem respeitava pessoa alguma. Na mesma cidade vivia também uma viúva que vinha com frequência à sua presença para lhe dizer: "Faz-me justiça contra o meu adversário." Ele, porém, durante muito tempo nada fez. Por fim reflectiu consigo: "Eu não temo a Deus nem respeito os homens; todavia já que esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, senão ela não cessará de me molestar."
(S. Lucas)

Entretanto, o acesso directo das viúvas aos poderosos foi impedido pelos seguranças. Mas, claro, elas podem ainda ter a sorte, num país livre, de atrair as câmaras da televisão, e tornarem-se 'importunas' de outra maneira. Mas aí, a reparação da injustiça deve também ser mediatizada.

A ideia lucasiana é, porém, que a insistência do pobre compensa, porque o rico pode não querer saber da justiça, mas qualquer "mosca sem valor" é capaz de lhe dar cabo do sossego.

Sendo assim, tem alguma importância se a causa da viúva é justa ou injusta? O juíz da parábola só pretende livrar-se da mosca.

Será essa a 'arma' dos fracos? Tirar partido da fragilidade humana, descobrir o ponto fraco no mais arrogante e empedernido?

Seria esquecer que as relações, numa sociedade como a nossa, já não são apenas entre indivíduos, mas entre estes e entidades abstractas e organizações.






quinta-feira, 3 de março de 2016

(Pula)

O ZELO DO NADA



Diocleciano




"O comportamento dos cristãos foi demasiado singular para poder escapar ao reparo dos antigos filósofos, mas estes encararam-no, aparentemente, com muito mais surpresa do que estima. Incapazes de entender os motivos que, por vezes, transportavam a coragem dos crentes para lá dos limites da prudência ou da razão, eles consideravam uma tal ânsia de morrer como o estranho resultado de um desespero obstinado, de uma estúpida insensibilidade ou de um frenesim supersticioso."

Edward Gibbon ("Declínio e Queda do Império Romano")

No século de Diocleciano, segundo Gibbon, os cristãos mostram um zelo e uma falta de "senso comum" que, hoje, só encontraremos, talvez, no radicalismo islâmico e em casos isolados e extremos, como o de Simone Weil que se deixou morrer, por compaixão com o sofrimento humano, num hospital do Kent.

Tudo mudou depois de Constantino e do triunfo terreno do Cristianismo.

Uma coisa que não existe e que só tem realidade no espírito pode mudar o mundo, através da acção daqueles que acreditam nela. Por comparação, o que existe tem a desvantagem de não ser facilmente objecto de crença ( a não ser a alucinatória) e reclamar de nós um tipo muito mais pobre de energia.

O maior desafio para o sucesso material e a pletórica artificialidade do Ocidente tinha que vir duma religião do deserto.

quarta-feira, 2 de março de 2016

(José Ames)

O FIM DO HOMEM SELVAGEM




"As tribos índias, as paisagens que o jovem Lévi-Strauss descobriu, não eram edénicas, nem "primitivas" no sentido preciso da palavra. Encarnavam uma longa crónica de infecção, devastação ecológica e deslocação forçada."

(George Steiner)

A figura do 'povo primitivo', sem dúvida, cumpriu o seu papel no nosso 'imaginário' de 'civilizados'. Pôde inspirar, por exemplo, a eficaz ingenuidade de um Rousseau, e moderar o nosso afastamento de um tempo original, o que quer que ele fosse.

Como Hannah Arendt explicou, o mundo dos romanos valorizava-se em direcção à data da fundação da sua cidade. A contagem do tempo, nesse sentido, correspondia a uma degradação (ou entropia, diríamos hoje) descrita pelas três idades, a do ouro, a da prata e a do bronze. E, ao mesmo tempo, justificava os privilégios das famílias patrícias mais antigas.

Se agora nos 'caiem as escamas dos olhos' e os relatos da antropologia entram na ordem natural das coisas, é porque podemos dispensar esse 'confronto' com o selvagem. Não que os mitos tenham desaparecido e nos tenhamos tornado mais racionais. Mas porque a nova mitologia tem outro conteúdo e se transmite de forma instantânea e global.

A imagem, mais 'verdadeira', de tribos em decadência física e em 'deslocação forçada' já não acusa a nossa consciência de 'conquistadores' e colonizadores. A História, desde Hegel, tornou-se uma espécie de Sujeito que nos iliba de sentimentos desse género.

De uma penada, livrámo-nos também da idealização compensatória das vítimas.

terça-feira, 1 de março de 2016

(Cracóvia)

O DESFILE ECLESIÁSTICO





"É uma mãe que tem demasiados filhos e daí que não possa dedicar-se a ti, não te peça nada, não espere nada. Acolhe-te quando vens, deixa-te andar quando vais, como no tribunal de Kafka. Nisto há uma sabedoria antiquíssima, africana quase, pré-histórica. Sabemos que Roma é uma cidade carregada de História, mas a sua sugestão está de facto num quê de pré-histórico, de primordial, que aparece em certas perspectivas ilimitadas e desoladas, em certas ruínas que parecem vestígios fósseis, ossos, como de esqueletos de mamute."
(F. FELLINI, Fare un film, Torino, Einaudi, 1980)

Com ideias e imagens visionárias como estas, Fellini, que gostava de se definir como um grande 'bugiardo' (mentiroso) deu-nos a obra-prima que é "Roma". Outras ideias e visões e uma subjectividade mais 'solar', ou 'apolínea', proporcionariam, talvez, perspectivas mais próximas do 'bom senso', seja isso lá o que for.

Há uma cena no filme que parece provocatória para um italiano, tão desrespeitosa se mostra para essa mãe, acima das outras, que é a Santa Madre Igreja. E que a mensagem assim foi ententida prova-o o facto de uma pequena parte (quase 'por cerimónia', podíamos arriscar) ter sido censurada.

A cena é o de uma passagem de moda de clérigos e freiras, no palácio de uma velha devota, e uma parte cortada (mas não estou certo de ter sido a única) foi a do final do desfile em que aparece o carros dos esqueletos. Está na tradição católica que o macabro seja a melhor tradução da 'vaidade das vaidades'.

Ora, essa cena não pretende ser uma crítica de costumes ou a denúncia de um mundo fechado voltado para os seus fantasmas, para quem a única mudança imaginável seria...de traje.

Não, o Fellini que conhecemos e o que a nós se confessa não seria capaz de atravessar esse campo minado. O que é mais provável é que o desfile eclesiástico que aparece em "Roma" seja uma daquelas quimeras que a ideia professada pelo cineasta de uma Mãe pré-histórica e, no fundo, indiferente à numerosa prole, inspirasse. Talvez a Igreja de Fellini seja também essa Mãe, que não podendo, de facto, preocupar-se com os seus filhos 'faz paciências' (ou inverosímeis pasagens de moda).