quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

EM NOME DO HOMEM


(Gershom Scholem)

"O rabi Mendel reduziu a revelação a uma revelação mística, ou seja, a uma revelação que apesar de em si ser infinitamente repleta de sentido, não tem um 'sentido 'específico'"
(Gershom Scholem)

Não estará a 'revelação' dependente de um contexto, assim, devendo ter um sentido específico? Ou, são todas as interpretações possíveis independentemente do contexto, um pouco como a 'abertura' da primeira teoria do texto barthesiana?

O que parece absurdo em literatura, por exemplo, deixa de o ser no elemento místico que corresponderia, nos termos de Scholem, a uma 'redução'. Mas a revelação mística do rabi é-nos, ao mesmo tempo, apresentada como 'repleta de sentido'...sem ter um 'sentido específico'.

A qualidade do místico sugere, nesta versão, uma abertura sem resistência ao não racional. Esse nome teria todos os predicados possíveis, tal como a palavra Deus, ou como Tudo ou Todo.

Não estamos já, efectivamente, no nosso mundo que é o mundo da 'medida média' (Musil), antropológica.

Só podemos chamar a isto uma redução em nome do Homem.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Alcochete

A GUERRA SEGUNDO LEÃO


Leão Tolstoi (1828/1910)

O príncipe André poderia escrever um tratado da guerra no momento em que, depois de defender o tímido capitão Tushin da acusação de ter abandonado dois canhões no campo de acção, se levanta da mesa em que reúne o estado-maior do príncipe Bagration. Acaba de perder as suas ilusões de glória militar.

A guerra, que o jovem ajudante observa lucidamente, pela sua frieza e o seu carácter altivo que o mantêm à distância das emoções da camaradagem e do poder, é julgada pelo que é: uma confusa e incontrolável cadeia de acontecimentos que arrebata a vida e a saúde de muitos homens e a imaginação de todos. É uma loucura a que indevidamente se presta homenagem. Os heróis, neste tumulto, são os mais inconscientes dos actores. Como o pobre Tushin exaltado pelo estrondo da sua bateria e o jogo de abater fardas azuis à distância. Se conseguiu deter o avanço dos franceses, foi porque os enganou com uma genica que não representava de facto força nenhuma. A bateria estava completamente isolada, e isso era ignorado por toda a gente, excepto de Bolkonsky. A sorte da batalha foi, portanto, decidida por um louco que escapou a todas as malhas da rede de comando.

O príncipe pôde assistir com espanto, mais de uma vez, às ordens dos oficiais mais experientes. E o próprio general reduzia a sua intervenção à táctica de assumir todos os relatos do que se passava nos vários pontos do campo de batalha, e visivelmente fora do seu controle, como se fossem exactamente aquilo que estava por si decidido e o que sempre esperara que acontecesse. Mas essa atitude, reprovável noutra situação, como a mentira e a vaidade, produzia um efeito maravilhoso na multidão de homens aterrados pela incerteza e a desordem.

O simulacro de pensamento e de vontade nesse símbolo a cavalo da unidade do exército era suficiente para insuflar o entusiasmo e provocar os hurras dos soldados. Compreende-se como a presença de Napoleão nas suas campanhas militares pôde transformar uma nação dada à frivolidade e à inconstância.

Se o homem não é senhor do seu destino no fragor das armas, se a única forma de espírito que se vê no rosto do semelhante é a fúria e o medo, é necessário dar à imaginação o exemplo dum homem que é o contrário de tudo isso. Quando o chefe é acometido pelo furor divino, os homens avançam para o suicídio com alegria. Bagration, cansado do seu papel de secretário da fatalidade, vislumbra, excitado, a ocasião de determinar o resultado duma escaramuça entre as centenas de acções que são suas por empréstimo.

Um dos homens do estado-maior, sentado à mesa presidida pelo príncipe Bagration, inventa a enérgica atitude que gostaria de opor à debandada do seu destacamento. Ninguém o pode contradizer, e é melhor assim, para o moral de todos. Ele próprio acaba por se convencer de que imaginou a realidade. É natural que André Bolkonsky despreze uma tal cozinha da coragem e do valor militar.

Essas pobres personagens do drama que tomam a cadeira dos deuses só merecem que a bela figura do príncipe os deixe entregues à suas tristes ilusões.

Assim, o espírito diz não à força.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

(José Ames)

CASUÍSTICA

Charles Maucourt: expulsão dos jesuítas de Espanha

"Eles têm uma tão boa opinião sobre si próprios a ponto de acreditarem que é útil, e de alguma maneira essencialmente necessário ao bem da religião, que a sua reputação se deveria estender a toda a parte, e que  deveriam governar todas as consciências. Mas como estas máximas não estão de acordo com a maneira de ver da maioria das pessoas, não se insiste nelas em relação a essas pessoas, para permitir a satisfação geral. A este respeito, tendo de lidar com pessoas de todas as condições de vida e de todas as diferentes nações, é necessário recorrer à casuística para corresponder a toda esta diversidade."

"Lettres Provenciales" (Pascal)

Este é, afinal, o espírito da famosa casuística depreciativamente  atribuída aos jesuítas. E por que é tida em tão má conta? Pelo seu formalismo, me parece. Que a lei geral deva ser adaptada ao caso concreto, é uma necessidade. Mas não pela dedução especulativa. Sem dúvida, os Jesuítas foram grandes organizadores e grandes educadores, num sentido que levou à dessacralização da sociedade e ao advento do mundo moderno. Esta confluência de tantas forças no mesmo sentido e partindo de uma mesma matriz do pensamento, é aquilo a que Foucault chamou de paradigma.

Talvez neste ponto, o Cristianismo tenha abandonado de vez  a literalidade da Bíblia em favor de uma abertura hermenêutica.

A casuística da Companhia tornou-se assim num verdadeiro Cavalo de Tróia, que podia prescindir da fé para encarnar a lei no caso concreto.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Cortegaça

GIDE ENCONTRA WILDE

Oscar Wilde (1854/1900)


Oscar Wilde, pouco antes de voltar a Londres por causa do célebre processo que o iria levar à prisão e que para sempre arruinou a sua vida, corria certos cafés de Briska (Argélia), em busca de jovens árabes, músicos e fumadores de "kief", "belos, como estátuas de bronze".

Gide, que o acompanhou nessas noites de prazer, dá-nos conta (em "Si le grain ne meurt") do riso demoníaco que tomou o corpulento irlandês, ao aperceber-se de como era fácil desencaminhá-lo a ele, Gide.

Um homem que reservava o seu génio para a vida ( e apenas o talento para a literatura), como ele dizia, saudava com esse riso a chegada dum companheiro ao inferno do seu puritanismo.

sábado, 5 de dezembro de 2015

(José Ames)

A COMÉDIA DA JUSTIÇA

"A Divina Comédia" ilustrada por Doré



Se houve homem que acometesse a temerária empresa de julgar os homens do seu tempo e os dos tempos passados, como se fosse Deus em pessoa, cedendo sem pruridos às suas simpatias e antipatias pessoais, sempre sob a capa da infalível justiça, atribuindo com uma precisão quase burocrática a cada falta a sua correcção e a cada crime o seu castigo, e o tempo dele, e o lugar (círculo ou a bolsa deste), esse homem foi Dante.

Espantamo-nos por ver certas figuras da História, cujos erros e loucuras se transformaram no motor duma injustiça mecânica "(...) é um tema recorrente de todo corpus lendário do mundo. O inferno representado não como arbitrário castigo mas como horrível e interminável repetição de um gesto." - Cristina Campo) que estava para a sua causa como o mistério divino para a razão humana, injustiça essa que deveria receber por direito, como essa paisagem infernal, o qualificativo de dantesca.

A "Divina Comédia", na sua desmesura e genial visão é talvez, mais do que tudo, uma alegoria da inconsequência e do absurdo do juízo humano sobre o semelhante.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Tavira

A RODA



" uma interpretação plausível é a de que o rendimento mais elevado está associado a uma capacidade reduzida para apreciar os pequenos prazeres da vida."
(Daniel Kahnman)

'Pobrete, mas alegrete'? Pobrete não é o mesmo que pobre pobre. Alegrete, pelo seu lado, também não é verdadeiramente alegre.

Quem não se deixou prender por um estatuto ou pela 'emulação' consumista pode ainda apreciar os 'pequenos prazeres' não organizados para uma determinada produtividade social. Esses prazeres são gratuitos como a arte devia ser.

O automóvel, por exemplo, não é uma simples utilidade. Os publicitários cedo viram o seu potencial simbólico, como o ego nele investe tão completamente. Este centauro mecânico que é o homem e o seu automóvel pode transformar o pequeno prazer de andar a pé numa perda de tempo e esforço. Mc Luhan considerava todo um ramo da tecnologia como uma 'extensão' do nosso corpo. Será que quando nos 'prolongamos' assim, descobrimos novos prazeres que não perdem em favor dos bons velhos prazeres do 'macaco nu'?

Mas Kahnman parece ter descoberto uma fórmula equivalente àquela que Marx aplicou ao capitalismo: a tendência para a queda da taxa de lucro. O prazer sofisticado, ou simplesmente mais complexo, levaria a uma desvalorização da 'taxa de prazer'.

Há, talvez, por detrás desta ideia, um moralismo muito nosso conhecido. Porque nem sequer somos capazes de imaginar o prazer que o domínio do cavalo ou a invenção da roda trouxeram aos nossos civilizadores.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sem título

(José Ames)

 

O QUE É PRECISO

www.cristallinks.com

"E a Necessidade, recorda Eurípides, por a ter conhecido 'atravessando as Musas e os cimos', sem nunca ter encontrado 'nada de mais forte', é a única potência que não tem altares nem estátuas. Ananke é a única divindade que não escuta os sacrifícios."

(Roberto Calasso)

Como é que esta deusa intransigente convive com a moderna economia? Porque, de facto, não temos melhor compreensão do nosso destino e da inflexibilidade dos 'factos da vida' do que os Gregos.

Quando, em nenhuma parte podemos aceitar o mistério como situação definitiva porque, afinal, roubámos o fogo aos deuses e adquirimos o segredo do conhecimento como um progresso sem fim.

A 'ciência' da economia em grande parte dedica-se a interpretar os poderes de Ananke. Se atentarmos aos mais comuns aforismos sobre a necessidade, como 'não há almoços grátis', 'quem semeia ventos, recolhe tempestades', etc., veremos que podem quase todos ser cobertos pelo chapéu da economia.

E, apesar dos seus incessantes falhanços, essa 'ciência' parece continuar a ser a resposta mais inteligente que podemos dar a este tipo de problemas, já que considerar a nossa ignorância como impeditiva de qualquer esforço, impediria a deusa de entretecer a malha com que nos enreda, a qual é um ingrediente indispensável ao sucesso da sua inflexibilidade.

Ao contrário de Ananke, a economia 'aceita sacríficios' de bom grado e agrada-lhe o incenso da popularidade e do poder. Mais uma vez, isso acaba por 'levar água ao moinho' da deusa.

Claro que é mister substituir este mito grego por uma fábula moderna, adornada de equações e fórmulas esotéricas. E embora, no fundo, seja pior explicação do que o original, não deixa de ser uma exigência do mundo que, entretanto, criámos.

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

(Esposende)

CIRO



"Eu nunca tive medo de homens que têm um lugar particular de encontro no meio da cidade, onde juram isto e aquilo e onde se enganam entre eles."

(Cirus, in "Nozze di Cadmo e Armonia" de Roberto Calasso)

O rei dos Persas avalia a força da sua nação em termos de eficácia militar, de unidade e coesão dos seus súbditos, comparada com a fraqueza correspondente de Atenas.

Cirus pode não ter medo da democracia ateniense, em contrapartida, cada um dos seus súbditos teme-o a ele. A teocracia de alguns dos actuais regimes orientais e a ferocidade, aos nossos olhos, dos seus códigos vêm da mesma cimenteira do medo.

Xenofonte escreveu um panegírico sobre o rei persa ("Ciropedia"), onde ele nos é apresentado como um homem virtuoso e sábio.

Talvez seja por isso que não se contente com expor a fraqueza da organização política e militar dos Atenienses, mas considera também que a mentira reina na sua política e que os democratas se iludem num engano mútuo.