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| (Gershom Scholem) |
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
EM NOME DO HOMEM
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
A GUERRA SEGUNDO LEÃO
O príncipe André poderia escrever um tratado da guerra no momento em que, depois de defender o tímido capitão Tushin da acusação de ter abandonado dois canhões no campo de acção, se levanta da mesa em que reúne o estado-maior do príncipe Bagration. Acaba de perder as suas ilusões de glória militar.
A guerra, que o jovem ajudante observa lucidamente, pela sua frieza e o seu carácter altivo que o mantêm à distância das emoções da camaradagem e do poder, é julgada pelo que é: uma confusa e incontrolável cadeia de acontecimentos que arrebata a vida e a saúde de muitos homens e a imaginação de todos. É uma loucura a que indevidamente se presta homenagem. Os heróis, neste tumulto, são os mais inconscientes dos actores. Como o pobre Tushin exaltado pelo estrondo da sua bateria e o jogo de abater fardas azuis à distância. Se conseguiu deter o avanço dos franceses, foi porque os enganou com uma genica que não representava de facto força nenhuma. A bateria estava completamente isolada, e isso era ignorado por toda a gente, excepto de Bolkonsky. A sorte da batalha foi, portanto, decidida por um louco que escapou a todas as malhas da rede de comando.
O príncipe pôde assistir com espanto, mais de uma vez, às ordens dos oficiais mais experientes. E o próprio general reduzia a sua intervenção à táctica de assumir todos os relatos do que se passava nos vários pontos do campo de batalha, e visivelmente fora do seu controle, como se fossem exactamente aquilo que estava por si decidido e o que sempre esperara que acontecesse. Mas essa atitude, reprovável noutra situação, como a mentira e a vaidade, produzia um efeito maravilhoso na multidão de homens aterrados pela incerteza e a desordem.
O simulacro de pensamento e de vontade nesse símbolo a cavalo da unidade do exército era suficiente para insuflar o entusiasmo e provocar os hurras dos soldados. Compreende-se como a presença de Napoleão nas suas campanhas militares pôde transformar uma nação dada à frivolidade e à inconstância.
Se o homem não é senhor do seu destino no fragor das armas, se a única forma de espírito que se vê no rosto do semelhante é a fúria e o medo, é necessário dar à imaginação o exemplo dum homem que é o contrário de tudo isso. Quando o chefe é acometido pelo furor divino, os homens avançam para o suicídio com alegria. Bagration, cansado do seu papel de secretário da fatalidade, vislumbra, excitado, a ocasião de determinar o resultado duma escaramuça entre as centenas de acções que são suas por empréstimo.
Um dos homens do estado-maior, sentado à mesa presidida pelo príncipe Bagration, inventa a enérgica atitude que gostaria de opor à debandada do seu destacamento. Ninguém o pode contradizer, e é melhor assim, para o moral de todos. Ele próprio acaba por se convencer de que imaginou a realidade. É natural que André Bolkonsky despreze uma tal cozinha da coragem e do valor militar.
Essas pobres personagens do drama que tomam a cadeira dos deuses só merecem que a bela figura do príncipe os deixe entregues à suas tristes ilusões.
Assim, o espírito diz não à força.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
CASUÍSTICA
| Charles Maucourt: expulsão dos jesuítas de Espanha |
domingo, 6 de dezembro de 2015
GIDE ENCONTRA WILDE
sábado, 5 de dezembro de 2015
A COMÉDIA DA JUSTIÇA
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
A RODA
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
O QUE É PRECISO
"E a Necessidade, recorda Eurípides, por a ter conhecido 'atravessando as Musas e os cimos', sem nunca ter encontrado 'nada de mais forte', é a única potência que não tem altares nem estátuas. Ananke é a única divindade que não escuta os sacrifícios."
(Roberto Calasso)
Como é que esta deusa intransigente convive com a moderna economia? Porque, de facto, não temos melhor compreensão do nosso destino e da inflexibilidade dos 'factos da vida' do que os Gregos.
Quando, em nenhuma parte podemos aceitar o mistério como situação definitiva porque, afinal, roubámos o fogo aos deuses e adquirimos o segredo do conhecimento como um progresso sem fim.
A 'ciência' da economia em grande parte dedica-se a interpretar os poderes de Ananke. Se atentarmos aos mais comuns aforismos sobre a necessidade, como 'não há almoços grátis', 'quem semeia ventos, recolhe tempestades', etc., veremos que podem quase todos ser cobertos pelo chapéu da economia.
E, apesar dos seus incessantes falhanços, essa 'ciência' parece continuar a ser a resposta mais inteligente que podemos dar a este tipo de problemas, já que considerar a nossa ignorância como impeditiva de qualquer esforço, impediria a deusa de entretecer a malha com que nos enreda, a qual é um ingrediente indispensável ao sucesso da sua inflexibilidade.
Ao contrário de Ananke, a economia 'aceita sacríficios' de bom grado e agrada-lhe o incenso da popularidade e do poder. Mais uma vez, isso acaba por 'levar água ao moinho' da deusa.
Claro que é mister substituir este mito grego por uma fábula moderna, adornada de equações e fórmulas esotéricas. E embora, no fundo, seja pior explicação do que o original, não deixa de ser uma exigência do mundo que, entretanto, criámos.













